Christopher McQuarrie dirige “Missão: Impossível — O Acerto Final” como quem retoma uma corrida já em andamento, sem reapresentação paciente nem descanso entre um capítulo e outro. Tom Cruise volta como Ethan Hunt, agora cercado por uma ameaça que deixou de ser apenas matéria de espionagem e passou ao campo do colapso global, enquanto Hayley Atwell, Ving Rhames e Simon Pegg seguem presos ao mesmo redemoinho. Ethan continua com a chave, continua perseguindo Gabriel e continua tentando impedir que a Entidade se consolide sobre sistemas nucleares e redes estratégicas. Esse ponto é claro. O que o filme faz, desde o começo, é cercá-lo de gabinetes, chefes, centros de comando e desconfiança oficial, transformando a missão num jogo em que o protagonista precisa agir sob pressão externa e sob a suspeita constante de quem deveria estar do mesmo lado.
McQuarrie arma a primeira metade como um trabalho de reposicionamento. Ethan cruza ambientes em que sua presença é tolerada mais por necessidade do que por confiança, Luther se enfia num laboratório off-grid sob Londres para desenvolver a “Poison Pill”, e William Donloe retorna como peça concreta na busca pelas coordenadas do “Sevastopol”. Há muita engrenagem para encaixar. O filme quer ligar o que veio de “Acerto de Contas” ao novo prazo de três dias antes que a Entidade complete sua expansão, quer reativar personagens, quer sustentar a gravidade do momento e quer preparar um fecho de arco maior para a franquia. A consequência é um começo carregado, em que informação, recapitulação e solenidade andam juntas demais. Nem sempre o movimento trava, mas várias cenas parecem mais empenhadas em manter tudo de pé do que em fazer a trama avançar de fato.
Quando sai desse circuito de explicações e se espalha por lugares mais ásperos, “Missão: Impossível — O Acerto Final” melhora de modo visível. Grace, Benji, Paris e Degas seguem para St. Matthew Island, no mar de Bering, atrás das coordenadas do submarino, e a reacomodação da equipe ganha outra voltagem com a mudança de lado de Paris. O lugar pesa. Frio, vento, isolamento e distância não aparecem só como cenário, mas como condição concreta de uma operação que depende de memória humana, de presença física e de confiança improvisada entre aliados recentes e antigos adversários. A Entidade, que até então surgia diluída em falação tecnológica e temor abstrato, passa a ser sentida pelo efeito que produz sobre pessoas lançadas em pontos remotos, tentando achar informação antes que o relógio feche a porta.
No fundo do mar
É nesse momento que o filme encontra seu melhor centro de gravidade, na longa sequência ligada ao “Sevastopol”. Ethan mergulha com traje experimental até o submarino afundado para recuperar o módulo “Podkova”, e a encenação se livra da obrigação de explicar tudo para finalmente se concentrar em matéria, espaço e tempo. O que importa ali é imediato. Corredores estreitos, metal inclinado, água tomando o interior da embarcação, falta de ar, cálculo rápido, corpo submetido a um ambiente que pode esmagá-lo a qualquer segundo. A ameaça deixa de ser apenas uma inteligência artificial onipresente e vira obstáculo físico, risco mensurável, esforço muscular. É a parte em que McQuarrie filma com mais clareza e menos ênfase, e justamente por isso convence mais. Em vez de dizer que o mundo está em perigo, o filme põe um homem dentro de uma armadilha de aço e deixa que o perigo apareça sozinho.
Essa sequência também recoloca a série naquilo que ela tem de mais próprio. Durante boa parte da franquia, a grande força de Ethan Hunt nunca esteve no raciocínio geopolítico dos roteiros, mas na forma como cada missão encontra uma barreira prática, um mecanismo, uma altura, um espaço vedado, um corpo prestes a falhar. “O Acerto Final” volta a acertar quando lembra disso. O inimigo pode ser uma IA espalhada por sistemas militares, mas o cinema da série continua dependendo de portas, superfícies, quedas, pressão e improviso. A concretude salva o filme de se perder no gigantismo. Quando Ethan está dentro do “Sevastopol”, tentando sair com o “Podkova”, McQuarrie parece reencontrar a medida exata do que torna essa saga distinta, menos no discurso sobre o fim do mundo do que no esforço para atravessar um lugar hostil com poucos segundos de margem.
A conta do passado
Ao mesmo tempo, o longa insiste em costurar o presente ao passado da franquia. Gabriel não surge apenas como operador humano da Entidade, mas como ligação com um acerto antigo, enquanto Donloe volta do primeiro filme e reforça a ideia de que este capítulo quer funcionar também como fechamento de ciclo. Isso tem peso dramático real. Dá espessura a uma aventura que correria o risco de virar apenas disputa genérica entre homem e algoritmo. Mas o custo aparece quando McQuarrie força a mão num tom grave demais, especialmente nas passagens em que escolhas, culpa e sacrifício são empilhados como se a série precisasse reafirmar a todo momento a própria importância. Em vários trechos, o filme se torna mais duro e pomposo do que precisa. A ação, quando vem, quase sempre corrige isso.
O desfecho desse impulso está no confronto em várias frentes e, sobretudo, no clímax dos biplanos. Ethan e Gabriel são lançados ao ar enquanto a contenção da Entidade depende de sincronização extrema entre ações paralelas, e Cruise mais uma vez põe o corpo no centro da cena, pendurado do lado de fora da aeronave a centenas de metros do chão. Ali a série volta a falar sua língua mais nítida. Não porque abandone a dimensão apocalíptica, mas porque a traduz em imagem palpável, em esforço visível, em perigo que não cabe em painel de controle nem em discurso de gabinete. “Missão: Impossível — O Acerto Final” começa pesado, às vezes se dobra demais ao peso do próprio legado e por momentos demora a confiar no que tem de mais forte. Ainda assim, quando empurra Ethan para o submarino, para o gelo e para a fuselagem de um biplano, encontra o ponto em que essa franquia ainda consegue ser grande sem virar fumaça.

