Chad Hartigan dirige “Entre Nós — Uma Dose Extra de Amor” sem inflar a própria premissa. Jonah Hauer-King, Zoey Deutch, Ruby Cruz e Jaboukie Young-White entram em cena quando Connor, ainda preso ao que sente por Olivia, aceita a pilha de Greg e vai falar com Jenny num bar, logo depois de ela levar um bolo. Olivia percebe a aproximação, entra na conversa e muda o rumo do encontro com uma mistura de ciúme, curiosidade e desejo. O filme se instala nesse balcão, entre bebida, hesitação e gente agindo antes de pensar.
A primeira metade cresce desse encadeamento de impulsos mal calculados. Greg tira Connor da inércia, Connor improvisa com Jenny, Olivia ocupa o espaço entre os dois, e a noite escorre do restaurante para a dança e daí para um jogo de verdade ou desafio no apartamento dele, como se ninguém tivesse parado um minuto para medir o tamanho do passo seguinte. Hartigan não trata esse trajeto como façanha sexual nem como libertação juvenil, e aí já se percebe que a comédia pretende andar por outra faixa. O sexo a três acontece, mas não domina a encenação nem vira moeda de exibicionismo.
Gravidez em dose dupla
A mudança de escala vem quando Olivia e Jenny descobrem que estão grávidas. Connor, que mal começava a transformar em namoro o desejo antigo por Olivia, passa a se dividir entre duas mulheres, duas gravidezes e duas formas muito distintas de cobrar presença, afeto e responsabilidade. Jenny volta de modo definitivo, não como lembrança inconveniente de uma noite fora da rotina, e traz consigo uma família cristã que dá forma concreta ao impasse, com visitas, refeições e conversas em que Connor precisa ocupar um lugar para o qual não estava pronto. A situação deixa de ser um acidente confuso e vira problema diário.
É nesse ponto que “Entre Nós — Uma Dose Extra de Amor” encontra chão mais firme. Em vez de espremer o escândalo até o desgaste, Hartigan acompanha Connor tentando parecer um namorado aceitável diante da família religiosa de Jenny enquanto segue enredado com Olivia por uma ligação antiga que nunca se resolveu em compromisso claro. As conversas sobre aborto, culpa e responsabilidade entram em cena sem solenidade, como parte de uma rotina agora tomada por telefonemas, encontros tensos e decisões práticas. O humor continua ali, mas já não nasce do choque fácil da situação e sim do aperto de ver três pessoas tentando administrar o que fizeram sem preparo.
Três pessoas, ritmos diferentes
Zoey Deutch dá a Olivia uma instabilidade convincente, perceptível desde o instante em que ela cruza o bar e se mete entre Connor e Jenny, convertendo um flerte lateral numa dinâmica de três. Ruby Cruz trata Jenny com reserva e firmeza, sobretudo quando a gravidez a recoloca no centro e a personagem precisa lidar ao mesmo tempo com desejo, constrangimento e expectativa familiar sem se reduzir a peça de um triângulo alheio. Hauer-King faz de Connor um sujeito menos sedutor do que aturdido, sempre um passo atrás das consequências de escolhas que tomou quase por passividade. Jaboukie Young-White, mesmo em função mais lateral, ajuda a firmar essa lógica inicial de impulso entre amigos, quando uma sugestão casual já basta para tirar tudo do lugar.
Hartigan parece menos interessado em decidir com quem Connor deve ficar do que em observar a bagunça produzida quando desejo, vaidade e afeto saem do improviso e entram na vida comum. Da abordagem no bar ao apartamento onde o jogo de verdade ou desafio leva os três a uma linha difícil de apagar, e dali às tentativas de Connor de amparar Olivia e Jenny ao mesmo tempo, o que move o filme é sempre uma situação concreta, nunca um arranjo abstrato. “Entre Nós — Uma Dose Extra de Amor” nem sempre dosa com a mesma precisão o riso e o peso do que põe em cena, mas acerta ao tratar gravidez, família e compromisso como fatos que ocupam agenda, sala, corpo e linguagem. Quando chega a esse terreno, deixa de ser apenas uma comédia de premissa atrevida e passa a observar, com secura e algum desconforto, o custo banal de uma noite que continuou existindo na manhã seguinte.

