Dirigido por David Dobkin, com Ryan Reynolds, Jason Bateman, Leslie Mann e Olivia Wilde, “Eu Queria Ter a Sua Vida“ arma sua premissa com a troca de corpos entre dois amigos que invejam a vida um do outro. Dave Lockwood é um advogado de Atlanta, casado com Jamie e pai de três filhos; Mitch Planko é solteiro e vive de pequenos trabalhos como ator. Depois de uma noite de bar, os dois param diante de uma fonte pública, fazem um desejo impensado e acordam no corpo um do outro.
A marca da comédia aparece cedo, na rotina doméstica de Dave, espremido entre o trabalho, a casa e três crianças pequenas. Logo no início, um bebê espirra fezes em seu rosto, e o casamento com Jamie surge cercado por cansaço, pressa e humilhação física. Quando Mitch passa a ocupar esse corpo e precisa lidar com cozinha, filhos e horários da família, a fantasia da vida organizada perde qualquer verniz e vira desordem.
Do outro lado, Dave acorda dentro da vida que idealizava e encontra menos liberdade do que supunha. Em vez de um cotidiano boêmio, o que aparece é instabilidade, vazio e um trabalho precário que desemboca num set em que ele descobre o “lorno” de Mitch, além de um constrangimento solitário no banheiro. A insistência no humor corporal domina boa parte dessas cenas, mas a troca expõe com clareza o contraste entre o advogado exausto e o solteiro sem rumo que ele tomava por medida de leveza.
Atlanta, parque e vexame
Atlanta ajuda a sustentar a história porque distribui essa confusão entre espaços muito concretos: a casa barulhenta de Dave, o escritório em que corre a fusão com uma firma japonesa e o parque onde tudo começou. Mitch, no corpo do amigo, não herda apenas uma aliança e três filhos, mas também um ambiente profissional para o qual não tem preparo e a proximidade com Sabrina, colega do escritório. Quando os dois voltam ao parque e descobrem que a fonte foi removida para restauração, o truque ganha um obstáculo material e o vexame se prolonga.
A sequência da fonte foi comparada a uma versão mais adulta e mais cansada das velhas comédias de troca de corpo, e a associação procede porque a grosseria aqui aparece quase como certificado de maturidade. Ainda assim, as cenas mais fortes nascem menos do excesso do que de tarefas específicas, como Mitch tentando sobreviver aos bebês na cozinha ou Dave atolado na rotina de Mitch. É nesses momentos, presos ao escritório, ao parque, ao banheiro e à casa, que a troca deixa de ser só farsa e encontra alguma precisão ao tratar de responsabilidade, fantasia e autoengano.
Quando Jamie ouve a verdade e não acredita, a amizade entre Dave e Mitch deixa de ser apenas a engrenagem do truque e passa a concentrar parte do interesse do filme. “Eu Queria Ter a Sua Vida” é mais firme ao aproximar o advogado preso entre filhos e fusão corporativa do ator sem eixo que vive de pequenos papéis do que ao insistir em empilhar grosserias como prova de irreverência. No fim, o que permanece é a imagem dos dois parados no parque, diante do vazio onde antes corria a água da fonte.

