Em “Entre Nós”, dirigido por Chad Hartigan, três jovens iniciam um relacionamento aberto a três que rapidamente se torna instável quando sentimentos reais começam a ultrapassar o acordo inicial. A proposta surge como uma tentativa honesta de evitar os desgastes dos relacionamentos tradicionais. Zoe (Zoey Deutch), Ethan (Jonah Hauer-King) e Claire (Ruby Cruz) decidem dividir afeto e desejo sem exclusividade, apostando na ideia de que maturidade emocional pode substituir regras rígidas. Eles conversam, estabelecem limites e tentam garantir que tudo funcione com transparência.
No papel, o acordo parece simples. Na prática, cada um carrega expectativas diferentes. Zoe, mesmo defendendo liberdade, demonstra sinais de apego mais profundo. Ethan tenta organizar a dinâmica como se fosse possível equilibrar tudo com lógica. Claire circula com mais leveza, explorando o arranjo sem a mesma necessidade de controle. Esse descompasso inicial já altera a posição de cada um dentro da relação, criando uma tensão silenciosa que começa a cobrar respostas.
Pequenas decisões, grandes efeitos
O cotidiano entra como um teste inevitável. Compromissos externos, mensagens não respondidas e escolhas aparentemente banais passam a ter peso maior. Quem prioriza quem? Quem espera? Quem aceita ficar de fora? Nenhuma dessas perguntas estava claramente resolvida no início, e agora todas exigem resposta ao mesmo tempo.
Uma saída combinada que não acontece, um encontro que muda de tom, uma conversa que termina antes do necessário. Cada gesto gera uma reação em cadeia. Eles tentam ajustar o acordo, mas quanto mais mexem nas regras, mais evidente fica que o problema não é o formato da relação, e sim o que cada um quer dela. Isso reduz a margem de negociação e aumenta o risco de desgaste direto entre eles.
Rir para não desmoronar
A comédia aparece nos momentos em que o trio tenta organizar o caos emocional com uma seriedade quase desproporcional. Há algo de engraçado em ver três pessoas tentando transformar sentimentos em planilha, como se fosse possível prever tudo. As situações de desconforto surgem com naturalidade: encontros desalinhados, comentários fora de hora, tentativas sinceras que dão errado.
Em uma conversa que deveria alinhar expectativas, os três acabam presos em um ciclo de justificativas, ou melhor, uma discussão que se alonga além do necessário porque ninguém quer ceder primeiro, e o que era para resolver um problema imediato acaba criando outros dois, deixando claro que o controle da situação já não pertence a ninguém. O riso surge ali, meio constrangido, quase como um mecanismo de defesa diante do impasse.
Quando o sentimento muda o jogo
Com o tempo, o envolvimento emocional deixa de ser equilibrado. Zoe passa a querer mais presença, mesmo sem admitir diretamente. Ethan tenta manter a lógica do acordo, mas começa a perceber que ela não responde mais às necessidades do grupo. Claire, por sua vez, se vê em uma posição ambígua, ora mais livre, ora deslocada, dependendo do momento.
Essa mudança altera completamente a dinâmica. O que antes era compartilhado passa a ser disputado, ainda que de forma sutil. Um gesto de atenção ganha peso, uma ausência vira sinal de distanciamento. Eles continuam tentando sustentar o acordo inicial, mas agora ele funciona mais como lembrança do que como regra ativa. Cada decisão passa a ter consequência imediata na confiança entre eles.
Entre tentativas e limites
O filme avança sem recorrer a grandes viradas, apostando nesses pequenos deslocamentos que acumulam tensão ao longo do tempo. Nem sempre o ritmo acompanha a complexidade das situações, e há momentos em que a história parece girar em torno do mesmo conflito. Ainda assim, o envolvimento dos atores mantém a experiência interessante.
Zoey Deutch conduz Zoe com uma mistura de vulnerabilidade e firmeza, enquanto Jonah Hauer-King dá a Ethan um senso de controle que se desfaz aos poucos. Ruby Cruz equilibra Claire entre leveza e incerteza, funcionando como um ponto de instabilidade constante dentro do trio.
Eles continuam tentando ajustar o que já não se encaixa mais. Cada nova conversa redefine quem tem mais espaço, quem precisa recuar e quem assume o risco imediato de perder o lugar dentro da relação.

