Tudo começa quando a família Martin decide modernizar a rotina doméstica e compra um androide de última geração em “O Homem Bicentenário”, dirigido por Chris Columbus e estrelado por Robin Williams, Embeth Davidtz e Sam Neill. Andrew (Robin Williams) chega como um produto funcional, programado para limpar, organizar e executar tarefas simples sem questionar nada. Richard Martin (Sam Neill), o chefe da casa, trata a aquisição como investimento prático, alguém que resolve problemas cotidianos sem exigir atenção emocional.
Mas Andrew não demora a sair do roteiro. Pequenos desvios começam a surgir: respostas mais elaboradas, curiosidade fora do esperado, um certo “jeito” de interpretar comandos. Amanda, a filha mais nova, enxerga isso antes de todos e passa a tratá-lo como alguém digno de conversa, não apenas de ordens. Essa mudança aparentemente inocente altera o ambiente da casa e coloca Andrew em uma posição nova, menos objeto, mais presença.
O primeiro grande deslocamento acontece quando Andrew descobre que pode criar. Ele começa a esculpir madeira, produzindo objetos delicados e surpreendentemente humanos em intenção. Não é só habilidade técnica, é escolha. Richard percebe que aquilo pode ter valor e autoriza a continuidade, transformando o hobby em algo produtivo. Andrew, pela primeira vez, não apenas executa, mas contribui.
Essa virada muda tudo. O robô deixa de ser custo e passa a gerar retorno, o que lhe dá margem para negociar mais liberdade. Só que isso também chama atenção externa. A empresa que o fabricou não vê com bons olhos essa “individualidade” e tenta enquadrá-lo novamente como produto padrão. Richard resiste, protege Andrew dentro de casa e, sem perceber, transforma o lar em um pequeno território de disputa entre controle industrial e autonomia emergente.
Laços afetivos e conflitos
O tempo passa, e Andrew permanece. Ele assiste à família envelhecer, perder membros, mudar de dinâmica. E, nesse processo, ele próprio muda. Aprende gestos, ajusta sua fala, observa comportamentos e passa a imitá-los com uma precisão desconcertante. Não é mais só sobre tarefas, é sobre pertencimento.
A relação com Portia (Embeth Davidtz), descendente da família, intensifica esse processo. Andrew tenta se aproximar de maneira mais humana, o que envolve esforço, tentativa e, muitas vezes, constrangimento. Há algo de comovente e levemente desconcertante nesse esforço quase obsessivo de se encaixar. Ele não diz abertamente, mas cada gesto aponta para um desejo claro: ser reconhecido não pelo que faz, mas pelo que é. Isso o coloca em rota direta com limites sociais que não estavam preparados para ele.
Busca por direitos e reconhecimento
Cansado de viver em um limbo entre objeto e indivíduo, Andrew decide levar sua questão para fora da casa. Ele busca reconhecimento legal, quer ser visto como alguém com direitos, não como propriedade. Para isso, precisa reunir provas, argumentos e, principalmente, adaptar-se às exigências humanas.
Esse caminho não é simples. Instituições hesitam, recuam, evitam abrir precedentes. Cada negativa obriga Andrew a ajustar sua estratégia, buscar novos interlocutores e insistir em um sistema que claramente não foi feito para ele. Ainda assim, ele avança. Aos poucos, transforma sua própria existência em argumento, pressionando limites que pareciam fixos demais para serem questionados.
O preço de ser humano
Para ser aceito, Andrew toma decisões radicais. Ele passa a modificar seu próprio corpo, incorporando características biológicas que o aproximam dos humanos. A escolha não é estética, é estratégica. Ele entende que, para ser reconhecido, precisa atender critérios que vão além do comportamento.
Mas há um custo. Ao se tornar mais humano, Andrew também se torna mais vulnerável. Ele aceita limitações, desgaste e, eventualmente, a ideia de finitude. É uma troca direta: menos segurança, mais pertencimento. E é nesse ponto que o filme ganha uma camada quase irônica, porque aquilo que os humanos tentam evitar a qualquer custo é exatamente o que Andrew busca para ser aceito.
Sua jornada deixa de ser apenas sobre tecnologia e passa a ser sobre escolha. Andrew não pede mais permissão para existir, ele constrói as condições para isso, mesmo que isso signifique abrir mão daquilo que o tornava único desde o início.

