A sensação de que forças invisíveis rondam as fronteiras do real cria o cenário perfeito para as narrativas sobre a chegada dos extraterrestres e as teorias conspiratórias que soem prosperar depois que se desbrava essa perigosa senda. Quando não consegue responder as tantas dúvidas acerca do que pode haver acima de nossas cabeças, a ciência acaba por estabelecer um obscurantismo muito peculiar, milimetricamente alicerçado no pânico. Assim, progresso gera angústia e avanços tecnológicos viram desconfiança, parte do que Jess Varley esgrime em “A Astronauta”. Em sua estreia solo na direção de longas, Varley mistura ficção científica e terror mirando o medo que o desconhecido causa. E ele vai ficando cada vez mais onipresente.
A fórmula mágica
Por mais que tente se convencer, o mundo nunca foi um lugar onde o homem se sinta em casa. Uma vez que vemos a luz da vida, já começamos a travar as batalhas que definem nossa própria vida, e a depender do empenho que lhes dedicamos, mais suave ou mais exaustiva será nossa jornada. Em “A Astronauta”, o terror emerge não de monstros, mas da incerteza e do perigo da ciência desumanizada, ocupando lugares que não são seus. Essa ideia de claustrofobia é usada para intensificar o suspense, como se a liberdade fosse uma quimera inalcançável, que cedo ou tarde degringola em conflitos de difícil solução porque um tanto fantasiosos. Num ritmo quase arrastado, definido pela ótima trilha sonora de Jacques Brautbar, Varley constrói a tensão sem pressa, apostando na imagem de cerco da humanidade. A diretora-roteirista é competente ao destrinchar as inúmeras fragilidades da personagem-título. A capitã Sam Walker é uma oficial da NASA, a agência espacial americana, que volta de uma missão desastrosa cujo encerramento se dá entre a frustração e o alívio. Para piorar, quando sai de sua cápsula, a equipe de resgate verifica que seu capacete está quebrado, e sua sobrevivência é alvo de especulações as mais absurdas. Ela é conduzida a uma casa luxuosa para cumprir a quarentena, e esse é o gancho de que Varley dispõe para sugerir que talvez Sam não seja mais uma de nós, apesar de não conseguir ficar longe de Izzy, a filha adotiva interpretada por Scarlett Holmes e querer notícias do ex-marido. Uma estranha metamorfose acontece no isolamento e Kate Mara sabe destacar essa nova jornada de aversão a si mesma da protagonista, em especial nas cenas com o general William Harris de Laurence Fishburne. Originalidade não é o forte aqui, mas o enredo funciona bem.
★★★★★★★★★★



