“Anônimo 2” traz Bob Odenkirk de volta como Hutch Mansell, com Connie Nielsen no papel de Becca e Christopher Lloyd como o pai David, sob direção de Timo Tjahjanto, e coloca o protagonista diante de um desafio: manter a família unida enquanto antigos fantasmas o empurram de volta para a violência.
Quatro anos depois dos acontecimentos do primeiro filme, Hutch tenta equilibrar duas rotinas que não combinam. Ele voltou a um trabalho perigoso, cheio de missões e contatos obscuros, ao mesmo tempo em que promete estar presente em casa. O resultado é previsível: atrasos, silêncios no jantar e um casamento que começa a rachar. Becca percebe a distância e já não aceita explicações vagas. Hutch sente que está perdendo espaço dentro da própria família.
Na tentativa de recuperar terreno, ele propõe uma viagem ao parque aquático onde passava os verões com o irmão Harry, vivido por RZA. A ideia é simples: desligar o telefone, criar memórias novas e mostrar que ainda sabe ser pai. Ele leva também o pai, David, que observa tudo com aquele humor seco que Christopher Lloyd domina tão bem. A cidade escolhida, Plummerville, parece inofensiva, charmosa, turística. Hutch aposta que ali poderá ser apenas mais um visitante.
Só que basta uma briga aparentemente banal com encrenqueiros locais para o plano começar a desandar. Hutch não é de baixar a cabeça quando os filhos estão por perto, e a reação chama atenção demais. A confusão vai parar na delegacia, gera registro, cria rastro. O que deveria ser um episódio isolado se transforma em ponto de partida para algo maior. A cidade passa a olhar para ele com interesse.
A partir daí, Hutch percebe que Plummerville tem suas próprias regras e que alguns negócios locais não gostam de interferências. Ele tenta resolver a situação de forma discreta, negociar, entender quem realmente manda ali. Mas quanto mais ele se move para proteger a família, mais evidente fica que seu passado não ficou enterrado. O descanso vira operação de contenção de danos.
O filme sabe explorar bem essa tensão. Há momentos em que Hutch tenta agir como turista comum, enfrentando filas de toboágua e discutindo planos de jantar, enquanto por dentro calcula riscos e rotas de saída. Bob Odenkirk equilibra essa dualidade com precisão: ele parece um pai cansado, mas o corpo denuncia alguém treinado para reagir. Ele não diz, mas cada olhar para uma porta de emergência revela que está sempre dois passos à frente, e essa vigilância constante tem custo direto na relação com Becca.
Connie Nielsen dá à personagem uma força silenciosa. Becca não é espectadora da confusão; ela confronta Hutch, exige clareza, toma decisões. Em alguns momentos, é ela quem impõe limites e redefine o rumo da família. Essa troca dá peso emocional à trama e impede que a história seja apenas uma sequência de confrontos físicos.
O humor surge principalmente nas interações com David e Harry. Christopher Lloyd transforma comentários secos em pequenas bombas de ironia, e RZA adiciona leveza com soluções improvisadas que aliviam a tensão por instantes. São respiros necessários, mas nunca anulam o perigo que ronda o grupo.
Timo Tjahjanto conduz a narrativa com energia, mantendo a ação próxima dos personagens e evitando exageros desnecessários. A cidade de Plummerville deixa de ser pano de fundo e vira peça ativa do conflito. Cada corredor de hotel, cada esquina iluminada, parece reduzir o espaço de manobra de Hutch.
O que “Anônimo 2” faz bem é mostrar que o maior desafio do protagonista não é derrubar adversários, mas preservar o que ainda resta da vida que ele tenta construir. A viagem que começou como tentativa de reconciliação se transforma em teste real de lealdade, coragem e limite. E quando a poeira baixa, fica claro que Hutch pode até recuperar controle em situações extremas, mas dentro de casa cada decisão ainda cobra um preço imediato.
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