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POR EM 16/02/2009 ÀS 09:16 PM

Beijar lábios cinzas

publicado em

 “Beijar Lábios Cinzas” reúne 17 entrevistas feitas pelo jornalista José Meirelles Passos, correspondente do jornal “O Globo”, em Washington, há mais de 20 anos, com Borges em seu apartamento na Calle Maipú, 900, entre 1980 e 1984, à época em que o repórter era correspondente da revista “Veja” em Buenos Aires

Não sei se foi quem inventou esta espécie de jogo, mas pelo menos a conheci ao ler um texto de Jorge Luis Borges (1899-1986), “El Acercamiento a Almotásim”, uma das notas que encerram “Historia de la Eternidad" (1936), em que o escritor argentino fez a resenha de um livro que só existia em sua imaginação. Por muito tempo, os críticos e leitores imaginaram que o livro havia sido mesmo escrito e publicado. E que o texto de Borges seria uma recensão de uma obra de Mir Bahadur Ali, escritor de Bombaim. Para confundir seus leitores, Borges não só fez um suposto resumo da obra como ainda citou críticos e jornais que haviam resenhado o livro, sem deixar de comparar o autor ao escritor britânico G.K. Chesterton (1874-1936). Era uma broma.
 
Ainda recentemente, o suplemento “Mais!”, do jornal “Folha de S.Paulo”, de 30/9/2007, partindo da inspiração borgeana, pediu a vários autores que escrevessem resenhas de livros imaginários. Alessandro Atanes, um dos mais talentosos historiadores literários da nova geração (veja-se a sua dissertação de mestrado em História Social pela Universidade de São Paulo “História e literatura no porto de Santos: o romance de identidade portuária Navios Iluminados”, que está disponível em aqui , fez um arguto comentário, em sua coluna “Porto Literário” no site “www.portogente.com.br”, sobre o gênero da resenha fictícia, ao lamentar que os convidados da experiência do “Mais!” tenham esquecido exatamente daquilo em que Borges mostrou-se também mestre: simular que os livros que resenhavam tivessem sido realmente escritos.
 
Atanes lembrou que o gênero da resenha fictícia ainda apareceria na obra de Borges nos contos “Pierre Menard, autor de Quixote” e “Exame da obra de Herbert Quain”, sem contar a enciclopédia imaginária de “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, que apareceram em “O jardim de veredas que se bifurcam”, textos de 1941 reunidos como a primeira parte de “Ficções” (1944), em cujo prólogo, o autor deixou esta observação: “Desvario laborioso e empobrecedor o de compor extensos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma idéia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário”.
 
Não é preciso dizer que não faz parte da intenção deste articulista imitar Borges, até porque lhe faltaria talento para tanto – e, portanto, tudo soaria falso –, mas, a bem da verdade, o que se quer aqui é dizer de um livro que, afinal, só existe na cabeça de seu autor, até porque até agora não foi escrito, apesar da insistência de seus amigos, inclusive, deste que escreve com a esperança de que, por artes da Internet, esta suposta recensão lhe caia sob os olhos, como uma daqueles garrafas que antigos náufragos costumavam lançar ao mar. E, dessa maneira, anime-o a colocar no papel o livro que já existe pelo menos na imaginação.
 
Esse livro – e aqui começa um arremedo desse exercício de se resenhar obras fictícias – tem por título “Beijar Lábios Cinzas” e reúne 17 entrevistas feitas pelo jornalista José Meirelles Passos, correspondente do jornal “O Globo”, em Washington, há mais de 20 anos, com Borges em seu apartamento na Calle Maipú, 900, entre 1980 e 1984, à época em que o repórter era correspondente da revista “Veja” em Buenos Aires. Por ocasião da passagem dos 20 anos da morte do escritor, Meirelles fez uma rápida evocação desses encontros em texto que publicou no caderno “Prosa&Verso” de “O Globo”, de 18/6/2006, e que também pode ser encontrado na Internet.
 
Por pouco – e por “mala suerte” – este articulista não participou de um desses encontros em 1984, a uma época em que descansava alguns dias na casa de Meirelles, no elegante bairro de Palermo, depois de ter feito a cobertura dos Jogos Olímpicos de Los Angeles para o jornal “A Tribuna”, de Santos, e passado uma temporada de férias na Colúmbia Britânica na residência dos amigos canadenses Linda e Douglas Brown, à beira do Shuswap Lake, em Salmon Arm.
 
(A nossa amizade com Meirelles teve início já lá vão quase 40 anos, pois foi no começo de 1970 que fizemos o vestibular para o curso de Jornalismo da Faculdade de Filosofia da Fundação São Leopoldo, hoje transformado na Faculdade de Comunicação da Universidade Católica de Santos (Unisantos). O mais arguto e estudioso de todos nós, Meirelles passou em primeiro lugar, enquanto este articulista ficou na 15ª colocação).
 
Feitos estes parênteses, lembro-me que, em Buenos Aires, chegamos até a telefonar para o apartamento da Calle Maipú, mas, por aqueles dias, o mestre deveria estar atendendo a um dos muitos convites que recebia para dar palestras em universidades norte-americanas. Ou, quem sabe, andasse a descansar na fria Genebra de sua adolescência.
 
De modo que nos restou apenas reconstituir o périplo que Borges costumava fazer pela manhã sob as árvores da Plaza San Martin, a meia quadra de seu apartamento, sempre de terno e gravata, e, às vezes, se estivesse frio, protegido por uma boina galega, além de tomar um café cortado na cafeteria na esquina diagonal à do antigo prédio em que ele morava na Calle Maipú, de onde se podia ver a janela de seu apartamento no 6º piso. Naquela cafeteria, o escritor habitualmente parava antes de subir para o seu lar, onde vivia, praticamente, sozinho desde que a mãe morrera em 1975 e fracassara em 1970 o seu fugaz casamento de dois anos com Elsa Astete Millán, uma viúva que era onze anos mais jovem que ele.
 
Tudo aquilo me recordou o périplo que eu fizera solitariamente em 1981, reconstituindo os passos que James Joyce (1882-1941) costumava dar pelas ruas de Trieste à época em que estava escrevendo “Ulisses”, por volta de 1914 a 1921.
 
Meirelles lembra que, na porta de madeira do apartamento 6-B daquele edifício da Calle Maipú, uma pequena placa dourada exibia, em preto, uma palavra que identificava o seu morador: “Borges”. Logo depois de tocar a porta, os visitantes tinham uma surpresa. Ela era aberta pelo próprio Jorge Luis Borges, apoiado em sua bengala chinesa de bambu, a favorita: “A minha governanta é um pouco surda... não ouve quem chega. Eu não enxergo, mas escuto bem – disse ele, com um sorriso irônico ao me receber na primeira vez que o visitei em setembro de 1980”, conta Meirelles, sem deixar de assinalar que a cena se repetiria outras 16 vezes nos cinco anos seguintes, então já sem necessidade da explicação, tornando-se uma espécie de ritual.
 
Meirelles lembra que a porta se abria e, depois dos cumprimentos, ele, então dizia: “Ah, é o brasileiro...”, e depois de se acomodar no sofá de tecido verde na pequena sala de estar com duas paredes cobertas por livros, perguntava: “E, então, quais são as novidades da rua?”
 
Solitário, Borges gostava de visitas, diz Meirelles, observando que o escritor não possuía televisão nem rádio ou sequer um aparelho toca-discos. “Bastava telefonar para ele e perguntar quando poderia conversar. Uma ou outra vez foi para entrevista formal. A maior parte das vezes foi pelo simples prazer da conversa”, recorda. “Se puder ser daqui a pouco... Ou quem sabe no início da tarde”, Borges dizia, ávido por uma companhia. “Vivo a monótona vida de um velho cego que já deveria ter morrido”, costumava justificar, recorda Meirelles.
 
No inverno de sua velhice, Borges atenuava a solidão criando contos que guardava em sua memória prodigiosa – como Funes, el memorioso, lembram-se? –, até que aparecesse um amigo para ouvir e transcrever, à máquina, o que ditava. “Ele não parecia triste. Melancólico, sim. Dizia não ter medo de morrer. Isso, afinal, seria o fim da solidão”, diz Meirelles, reproduzindo em seguida uma frase do escritor: “Estou um pouco cansado... gostaria de morrer o mais rápido possível”, disse-me em várias ocasiões, conta.
 
Ir ao cinema parecia ser a sua diversão preferida: cego, só podia ouvir os diálogos. E, mesmo assim, só podia ir de vez em quando porque vivia de uma frugal pensão de funcionário público que recebia desde outubro de 1973, quando se aposentara depois de exercer o cargo de diretor da Biblioteca Nacional desde outubro de 1955, de maneira ininterrupta. E também dos direitos autorais que pingavam aos poucos.
 
Meirelles conta que, certa vez, perguntou-lhe quem, afinal, era Borges. Depois de pensar longamente, ele abriu um sorriso maroto e balbuciou: “Ah, meu filho... isso eu ainda estou tratando de averiguar. Às vezes, eu mesmo me sinto farto de Borges”, conta.
 
O jornalista revela que um dos momentos mais sublimes nos encontros vespertinos que teve com Borges, a maioria deles por conta apenas de uma boa conversa, pois não se tratavam de entrevistas formais, aconteceu quando voltando, pela enésima vez, à questão da cegueira, o escritor contou que se sentia resignado a ela, sobretudo, porque um velho amigo sofria do mesmo mal e, segundo ele, tinha uma existência mais sofrida que a sua. E explicou: “Enquanto eu ainda consigo ver sombras e vultos amarelados, ele os vê cinzas”.
 
Ingênuo, Meirelles perguntou-lhe que diferença fazia isso, se, afinal, nenhum dos dois enxergava. Por que o amigo teria uma vida mais dura que a dele, devido a essa diferença de cor? E Borges, sorrindo gostosamente como quem acabara de pregar uma peça em alguém, respondeu: “Ah, meu filho... você já pensou o que é beijar lábios cinzas?”
 
Como o leitor pode perceber, vem desta tirada o título do livro. Ainda que seja um livro como tantos que foram escritos a partir de diálogos com escritores, este, sem dúvida, pode ser colocado ao nível daquele que Orlando Barone produziu com base em conversas de Borges com Ernesto Sabato (1911), que se deram em dezembro de 1974, reunidas em “Diálogos Borges-Sabato” (Buenos Aires, Emecé, 1976). Ou de “Conversaciones de Jorge Luis Borges con Osvaldo Ferrari” (Buenos Aires, Grijalbo, 1985), que saiu no Brasil em tradução de Eliane Zagury com o título “Borges em Diálogo” (Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1986), reunindo entrevistas para um programa de rádio que foram transmitidas na Argentina no decorrer de 1984.
 
É verdade que são livros em que as opiniões de Borges sobre determinados temas se repetem. No diálogo com Meirelles, Borges diz ter sido autor de um livro único do qual os demais seriam variações ou meras repetições. Por isso, os temas não variam de definições para a alma dos argentinos ou sua identidade, tigres, labirintos, espelhos, armas brancas (facas), milonga, tango, os westerns e a épica do cinema, a mitologia escandinava e a épica anglo-saxã ou incluem referências a nomes que lhe sempre foram gratos, como Macedónio Fernández, Leopoldo Lugones, Adolfo Bioy Casares, Güiraldes, Sarmiento, Pedro Henríquez Ureña ou ainda evocações de Kipling, Evaristo Carriego e outros.
 
A partir do sobrenome Meirelles tão luso, Borges sempre evocava seus antepassados maternos portugueses, os Acevedos. Era sempre por aí que começava o diálogo entre os dois, recorda Meirelles. E essa era também uma rara vez que ele se referia a seus familiares ou a questões íntimas. De seu matrimônio, dificilmente, lembrava-se: “Quiero Olvidarme de Mis Fracasos Domésticos”, desculpava-se, dizendo que preferia falar de livros (daqueles que lera e dos que escrevera). “Éramos dois Mundos Distintos”.
 
A Meirelles, certo dia, Borges recordou o que lhe fizeram em 1946, à época do governo Perón, quando, por vingança, afastaram-lhe da direção de uma das bibliotecas municipais de Buenos Aires, nomeando-o inspetor de aves. É que o autor de “Ficções” nunca escondera o horror que sentia daquela gente peronista e seu populismo, deixando clara sua adesão ao ideário da “Unión Democrática”, que, afinal, como partido não passava de uma bela fantasia. Ele lembrou que um jornal daquela época questionou o burocrata que lhe fizera tamanha maldade, perguntando-lhe se acreditava que a pátria argentina progrediria muito se os escritores se dedicassem a cuidar de galinhas e os avicultores a escrever novelas.


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POR EM 16/02/2009 ÀS 09:06 PM

Colapso americano é um mito criado pela esquerda?

publicado em

Crítico de especialistas como Immanuel Wallerstein e Giovanni Arrighi, o corajoso e competente José Luís Fiori, pós-doutor por Cambrigde, diz que os Estados Unidos devem permanecer como a principal superpotência, apesar das ameaças de China, Rússia e Alemanha. O especialista diz que o nacionalismo econômico está de volta

 

O livro “O Mito do Colapso do Poder Americano” (Editora Record, 277 páginas), se publicado noutro país de matiz intelectual mais aberto, teria provocado um debate sério e, quem sabe, enriquecedor. No Brasil, pelo menos nos jornais, foi praticamente ignorado ou resenhado episodicamente. O motivo: prova que a tese da decadência dos Estados Unidos é um mito criado artificialmente por teóricos... da esquerda. Isto quer dizer que os três autores da obra são de direita? Nada disso. Um deles, José Luís Fiori, doutor em ciência política e professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é conhecido como um dos mais importantes intelectuais da esquerda patropi. Carlos Medeiros e Franklin Serrano, ambos doutores em economia, também não integram quaisquer círculos da direita. Mas mantêm a mente aberta para a crueza dos fatos e avaliam que “desejo” (a queda americana) não pode se confundir com realidade (a vitalidade americana). Os três escrevem ensaios independentes, mas conectados, e com uma análise rigorosa. Neste texto será explorado apenas o ensaio “O sistema interestatal capitalista no início do século XXI”, de José Luís Fiori, sem a transcrição do debate teórico.

Entre os autores criticados por Fiori estão Immanuel Wallerstein e Giovanni Arrighi, matrizes da tese da decadência americana que reverbera em artigos em todo o mundo, inclusive no Brasil. O debate teórico de Fiori com os dois autores é valioso, mas não cabe traduzi-lo num espaço curto. O brasileiro reconhece o valor de suas interpretações, mas aponta, sugestivamente, que, no geral, não são precisas. O sociólogo sugere que fazem parte mais do debate ideológico, ou seja, do velho e sistêmico combate ao capitalismo.

Na tese de alguns autores, “a crise da década de 1970” enfraqueceu o poder americano. Hoje, diz Fiori, “está claro que isso não ocorreu”. “Mais do que isto, todos os sinais que foram apontados como indicadores do seu declínio se transformaram no seu contrário. (...) É verdade que os Estados Unidos se transformaram no grande ‘devedor’ da economia mundial, a partir dos anos 1970. Mas essa dívida não provocou um desequilíbrio fatal na economia americana, e funcionou como um motor da economia internacional, nesses últimos quarenta anos. (...) O ‘padrão dólar ouro’ foi substituído por um novo padrão monetário internacional — o ‘dólar flexível’ — que permitiu aos Estados Unidos exercerem um poder monetário e financeiro internacional sem precedentes na história da economia e do ‘sistema mundial moderno’”.

Desregulação dos bancos — Num ponto, pelo menos, Fiori destoa inteiramente dos principais críticos do capitalismo e da atual “crise” da economia dos Estados Unidos. Trata-se da desregulação dos bancos. “(...) Na década de 1970, muitos viram na desregulação do mercado financeiro americano uma reação defensiva de uma economia fragilizada, e, no entanto, isto foi apenas o primeiro passo de uma desregulação em cadeia, que se transformou, nos anos 1990, na mola mestra da globalização vitoriosa do capital financeiro norte-americano.”

A Guerra do Vietnã representou uma grande derrota para os Estados Unidos? Do ponto de vista da economia e da geopolítica, segundo Fiori, não. “(...) Foi à sombra da derrota americana no Vietnã, em 1973, que os Estados Unidos e a China negociaram a sua nova parceria estratégica, que contribuiu para o fim da União Soviética e da Guerra Fria e revolucionou a geopolítica mundial deste início do século XXI. (...) A derrota dos Estados Unidos no Vietnã foi um momento de virada estratégica internacional norte-americana e, ao mesmo tempo, o ponto de partida da revolução tecnológico-militar que culminou com a vitória americana na Guerra do Golfo, em 1991. (...) Ou seja, aquilo a que se assistiu depois da ‘crise dos 1970’ não foi o ‘declínio americano’, mas uma mudança estrutural do sistema mundial, e um aumento exponencial do poder dos Estados Unidos.”

Mas, no início do século XXI, pode-se falar em “colapso do poder americano”? “Não existem evidências convincentes”, anota Fiori. “A crise hipotecária e financeira americana de 2007-2008 se aprofundou e se transformou numa crise financeira global, mas ainda não atingiu a centralidade do dólar, dos títulos da dívida e da economia americana. O fracasso político americano no Iraque não diminuiu o poder militar dos Estados Unidos, que segue sendo muito superior ao de todas as demais potências juntas; a economia americana prossegue na condição de a mais poderosa do mundo e mantém sua capacidade de inovação; os Estados Unidos permanecem no controle de cerca de 70% de toda a informação produzida e distribuída ao redor do mundo; a ‘moeda internacional’ ainda é o dólar; o déficit externo não ameaça os Estados Unidos neste novo padrão monetário internacional ‘dólar flexível’; e os Estados Unidos não parecem estar sem ‘os meios e a vontade de continuar conduzindo o sistema de Estados na direção que seja percebida como expandindo não apenas o poder, mas o poder coletivo dos grupos dominantes do sistema’, como pensa Giovanni Arrighi. As dificuldades políticas e econômicas dos Estados Unidos, no final da primeira década do século XXI, poderão se prolongar e aprofundar, mas, do nosso ponto de vista, com certeza não se trata do fim do poder americano, muito menos da economia capitalista”.

Crise de liderança — Fiori admite que “os Estados Unidos estão enfrentando uma crise de liderança”, mas ressalva que “isto não significa, necessariamente, uma diminuição do seu ‘poder estrutural’”. Segundo o doutor em ciência política, especializado em economia, “os Estados Unidos vêm enfrentando uma sucessão de ‘bolhas especulativas’ desde 1987, mas nenhuma delas provocou ainda uma recessão mais profunda e prolongada da economia americana. (...) No plano das ‘longas durações’ históricas, onde tudo se transforma de maneira mais lenta, as derrotas militares americanas e a expansão chinesa não significam, necessariamente, uma crise final do poder americano. Pelo contrário, elas fazem parte de uma grande transformação expansiva do sistema mundial, que começou na década de 1970 e se prolonga até hoje, associada, em grande medida, à expansão contínua e vitoriosa do próprio poder americano neste período”.

Os teóricos do anticapitalismo chamam de “crise”, conforme Fiori, “qualquer ‘disfunção sistêmica’, e anunciam ‘crises terminais’ e ‘rupturas históricas’ a cada nova turbulência da vida política e econômica do sistema mundial”. Uma crítica e tanto e, infelizmente, não respondida pelos acadêmicos brasileiros.

Fiori diz que, como os Estados Unidos conquistaram um poder excepcional entre 1945 e 1991 (ano da ruína definitiva da União Soviética), é possível falar, hoje, em “declínio relativo”. Ele nota que, depois de um período de guerra, é natural que alguns países cresçam mais do que a potência líder, mas ressalva: “O que não se percebe é que esta reconstrução e aceleração do crescimento do poder político e econômico dos demais são, ao mesmo tempo, dependentes e indispensáveis para a acumulação de poder e riqueza da própria potência que está — supostamente — em ‘declínio’”. O teórico brasileiro nota que se pode falar em declínio relativo dos Estados Unidos em relação à China e mostra que ocorreu o mesmo com o Japão e a Alemanha, mas nenhum deles conseguiu ultrapassar os americanos. Portanto, “este declínio relativo dos Estados Unidos não significa — necessariamente — um ‘colapso’ do seu poder econômico e da sua supremacia mundial. (...) Este declínio faz parte, neste início do século XXI, das transformações sistêmicas e estruturais em curso, com um papel decisivo do poder americano”.

A análise de Fiori parte do que chama de “uma teoria diferente, que olha para o sistema mundial como um ‘universo’ em expansão contínua, onde todos os Estados que lutam pelo ‘poder global’ — em particular as grandes potências — estão sempre criando, ao mesmo tempo, ordem e desordem, expansão e crise, paz e guerra, sem perder sua preeminência hierárquica dentro do sistema”.

Sistema Interestatal — Numa análise original, Fiori diz que, “no sistema interestatal, toda grande potência está obrigada a seguir expandindo o seu poder, mesmo que seja em períodos de paz, e se possível, até o limite do monopólio absoluto e global. (...) A vitória e a constituição de um império mundial seria sempre a vitória de um Estado nacional específico”. O autor põe em xeque a possibilidade de um mundo multipolar.

Com republicanos, como George W. Bush, ou democratas, como Bill Clinton e Barack Obama (cujo Iraque pode ser o Afeganistão e, mais tarde, o Irã), “a potência hegemônica precisa da competição e da guerra, para seguir acumulando poder e riqueza. E para se expandir, muitas vezes, ela precisa ir além e destruir as próprias regras e instituições que ela mesma construiu, num momento anterior, depois de alguma grande vitória. Por isto, neste ‘universo em expansão’ nunca houve nem haverá ‘paz perpétua’, nem hegemonia estável. Trata-se de um ‘universo’ que precisa da guerra e das crises para poder se ordenar e ‘estabilizar’ — sempre de forma transitória — e manter suas relações e estruturas hierárquicas”. O problema de Obama não é que, de santo, vai virar demônio, e sim de que, realista, está governando uma potência dominante, que não tem como, no geral, suavizar métodos. É mais fácil suavizar a retórica, que é, possivelmente, o que está ocorrendo.

Fiori ressalta que “o sistema mundial é um ‘universo em expansão’ contínua, onde todos os Estados que lutam pelo ‘poder global’ — em particular, a potência líder ou hegemônica — estão sempre criando, ao mesmo tempo, ordem e desordem, expansão e crise, paz e guerra. Por isto, crises econômicas e guerras não são, necessariamente, um anúncio do ‘fim’ ou do ‘colapso’ dos Estados e das economias envolvidas. Pelo contrário, podem ser uma parte essencial e necessária da acumulação do poder e da riqueza destes Estados, e do próprio sistema mundial. E nesta conjuntura, em particular, as crises e as guerras que estão em curso fazem parte de uma transformação estrutural, de longo prazo, que começou na década de 1970 e que aponta, neste momento, para um aumento da ‘pressão competitiva’ mundial — geopolítica e econômica — e para o início de uma nova ‘corrida imperialista’ entre as grandes potências, que já faz parte de mais uma ‘explosão expansiva’ do sistema mundial, que se prolongará pelas próximas décadas e contará com uma participação decisiva do poder americano”. Noutras palavras, depois da retórica de Obama, a realidade.

Em geral, avalia-se que a expansão da economia americana beneficia apenas os Estados Unidos. Não é o que pensa Fiori: “A estratégia imperial americana dos anos 1970 teve um papel decisivo na transformação de longo prazo da geopolítica mundial, ao trazer de volta a Rússia e a Alemanha e ao fortalecer a China, a Índia e quase todos os principais concorrentes dos Estados Unidos neste início de século” .

Os democratas têm um discurso mais moderado do que os republicanos e sua retórica assegura-lhes a imagem de mocinhos. Fiori põe por terra este mito: “Apesar da retórica globalista e pacifista do governo Clinton, na década de 1990 os Estados Unidos consolidaram uma infra-estrutura de poder global, com cerca de 750 bases militares, 340 mil soldados e acordos de ajuda militar com cerca de 130 países, o que permitiu aos Estados Unidos um controle quase monopólico dos oceanos e do espaço aéreo e sideral”. O governo Clinton se envolveu em 48 intervenções militares — “muito mais do que em toda a Guerra Fria”.

A invasão do Iraque é o começo do fim para os Estados Unidos? De novo, Fiori nada tem de ortodoxo: “O insucesso quase imediato do novo militarismo, no Iraque e na ‘guerra global’ ao terrorismo, e a dificuldade crescente para manter o controle militar do Afeganistão não são o ‘sintoma terminal’ do fim do poder e da hegemonia mundial dos Estados Unidos”. O mestre em economia ressalva: “Mas sinalizam a existência de limites e contradições numa estratégia que vai provocando resistências na medida em que avança e expande seus instrumentos e espaços de poder”. Fiori observa que “os Estados Unidos não têm interesse nem como frear a expansão econômica do leste asiático, nem têm mais como gerir seu poder global sem contar, pelo menos, com a aliança estratégica com a China”. Nota também que a Alemanha e a Rússia “estão reconstruindo suas ‘zonas de influência’ na Europa e na Ásia Central e confrontando as ambições americanas nestas regiões”.

No entanto, assegura Fiori, “os Estados Unidos seguem sendo o único player global, que está presente e disputa posições em cada uma das regiões do mundo”.

Surpreendentemente, ao contrário da maioria dos analistas, Fiori não vê a intervenção no Iraque como uma derrota total, apesar dos percalços, como o que aponta a seguir. “Do ponto de vista da geopolítica do Oriente Médio, a intervenção americana provocou uma reviravolta impensável, na correlação de forças na região e no próprio campo da luta ideológica ou religiosa, como efeitos diretos ou indiretos no norte da África e na Ásia Central. Ao derrotar os sunitas e entregar o governo do Iraque aos xiitas, os Estados Unidos fortaleceram indiretamente o Irã e o nacionalismo religioso, que são seus principais adversários no Oriente Médio. (...) Os Estados Unidos seguirão tendo influência no Oriente Médio, mas perderam sua posição arbitral, e daqui para a frente terão que conviver com o aumento da ‘pressão competitiva’ regional, devido à presença cada vez mais ativa da Rússia, da China e de outros países com interesses energéticos no Oriente Médio, além do desafio hegemônico direto, da parte do Irã”.

Em resumo, assegura Fiori, “não estamos vivendo a ‘crise terminal’ do poder americano, nem assistindo ao nascimento de um sistema pós-estatal. Pelo contrário, os Estados Unidos se mantêm como potência decisiva no sistema mundial, e aumenta a cada dia a ‘pressão competitiva’ entre os Estados e as economias nacionais ao redor do mundo. Como conseqüência, o nacionalismo econômico está de volta. (...) Todos os governos estão começando a regular, de novo, seus mercados, incluindo o mercado financeiro norte-americano”. Já “a União Europeia terá papel secundário, ao lado dos Estados Unidos, enquanto não dispuser de poder unificado, com capacidade de iniciativa estratégica autônoma”.

“Fraca”, a União Europeia não tem como substituir os Estados Unidos

Em certos círculos acadêmicos, a Europa é apontada como alternativa ao poder americano, mas não é o prisma analítico de José Luís Fiori. “A Europa se transformou numa sociedade economicamente rica, politicamente pacífica e intelectualmente pasmada neste início do século XXI. E o motivo é claro: a União Europeia não tem um poder central unificado capaz de definir e impor objetivos e prioridades estratégicas aos seus Estados-membros, mantendo-se sob o comando militar e o protetorado atômico dos Estados Unidos. (...) A União Europeia se transformou numa unidade política fraca, com uma moeda supostamente ‘forte’ e com pouca capacidade de iniciativa estratégica autônoma e unificada no sistema mundial”. Trata-se de um “‘ente político-econômico’ incapaz de ter um estratagema competitivo global”.

Detalhe apontado por Fiori: o fortalecimento da Alemanha da chanceler Angela Merkel assusta a França do marqueteiro Nicholas Sarkozy. A Alemanha “vem fortalecendo seus laços econômicos e financeiros com a Europa Central e a Rússia. Uma estratégia que recoloca a Alemanha no centro da Europa e da luta pela hegemonia na União Europeia, ofuscando o papel da França e desafiando o ‘americanismo’ da Grã-Bretanha. A médio prazo, não é improvável uma aliança mais estreita entre a Alemanha e a Rússia, que é a maior fornecedora de energia da Alemanha e de toda a Europa, além de ser a segunda potência atômica do mundo”. Fiori diz que a Alemanha tende a assumir “o comando da política externa da União Europeia, uma vez que já detém o comando da sua política macroeconômica”. A França aparece mais, por sua longa tradição mediadora e midiática, mas tudo indica, segundo Fiori, que a balança começa a pender para a Alemanha.

Papel da Rússia — A Rússia, aposta Fiori, está voltando com força ao cenário internacional, apesar de ter perdido território (5 milhões de quilômetros quadrados) e população (140 milhões de habitantes) para os países que se retiraram, como Ucrânia e Geórgia. Fiori nota que os Estados Unidos e a União Europeia, com o objetivo de enfraquecer política e economicamente a Rússia, contribuíram decisivamente para a desmontagem do império soviético.

Mesmo assim, a Rússia reagiu. “O presidente [Vladimir] Putin manteve a economia de mercado, mas recentralizou o poder e reconstruiu o Estado e a economia russa, refazendo seu complexo militar-industrial e nacionalizando seus recursos energéticos. A Rússia ainda detém o segundo maior arsenal atômico do mundo, e o governo Putin aprovou uma nova doutrina militar que autoriza o uso de armamento nuclear mesmo no caso de um ataque convencional ao território russo, na eventualidade de fracassarem os outros meios para repelir o agressor. (...) Depois de 2001, a economia russa se recompôs e começou a acelerar o crescimento, liderada pelas grandes empresas estatais do setor energético e de produção de armamentos. E, no início de 2007, a Rússia já havia alcançado o nível de atividade econômica anterior à sua grande crise da década de 1990. (...) A Rússia retornou ao ‘grande jogo geopolítico’, aumentando sua pressão sobre a Europa e sua presença nos conflitos da Ásia Central e do Oriente Médio. Alem de retomar sua posição como grande fornecedora de armas e tecnologia militar para China, Índia, Irã e vários outros países ao redor do mundo, incluindo recentemente a Argentina e a Venezuela”.

Os analistas erram ao avaliar que, depois da grande derrota da União Soviética, em 1991, só os Estados Unidos sagraram-se vitoriosos. A Alemanha e a China, registra Fiori, também ganharam.

A Rússia, porém, mais viva do que nunca, segundo Fiori, vai se tornar “a grande questionadora da nova ordem mundial, até que recupere seu velho território conquistado por Pedro, o Grande, e Catarina II”. Depois do conflito com a Geórgia, Fiori acredita que outros vão surgir. A Rússia de Putin e Dmitri Medvedev quer de volta a União Soviética, ainda que sem os bolcheviques.

Ásia pressiona por mais espaço na economia mundial

A Ásia está se tornando o maior incômodo mundial, e não apenas por conta das bugigangas chinesas que os brasileiros, entre outros, adoram comprar em camelódromos. “O leste asiático é a região de onde vem a maior parte da ‘pressão competitiva’ e ‘expansiva’ que se faz sentir em todos os cantos do mundo neste início do século XXI. A Ásia se transformou no subsistema interestatal onde está situado um dos polos fundamentais da acumulação capitalista e do desenvolvimento da economia mundial. (...) É na Ásia que está em curso a disputa mais explícita pela hegemonia regional, envolvendo as suas velhas potências imperiais, a China, o Japão e a Coréia, além da Rússia, mas também os Estados Unidos e a Índia”. Fiori constata que China e Rússia estão mais próximos, o que certamente levou os Estados Unidos a incentivarem, “discretamente, a reativação militar do Japão, e já não está mais excluída a possibilidade de que os japoneses venham a ter, em breve, seu próprio arsenal atômico”.

O problema da China e da Índia é petróleo, ainda que o preço tenha caído. “A China deverá aumentar em 150% o seu consumo energético, a Índia em 100%, até 2020. A China já foi exportadora de petróleo, mas hoje é o segundo maior importador de óleo do mundo”. A questão energética aproximam China e Índia tanto da Rússia quanto do Irã e mesmo da Venezuela.

A questão é: até onde a China vai? “Não é provável que a China se mantenha por muito tempo” na posição atual, de crescimento forte (caiu um pouco, devido à crise internacional) e sem brigar com algum país do leste asiático, “sobretudo porque sua economia está cada vez mais atrelada à estratégia expansiva do poder nacional”.

Fiori sustenta que “é” a “nova relação de complementaridade e competição, entre Estados Unidos e China, que está por trás da grande transformação estrutural em curso no sistema mundial, e do aumento gigantesco da ‘pressão competitiva’ que extravasa por todos os lados nesta conjuntura internacional do início do século XXI”.

A África está crescendo e, sobretudo, por conta da pressão do crescimento das economias de países como China e Ásia. “Hoje existem no continente africano mais de 800 companhias, com 900 projetos de investimento e 80 mil trabalhadores chineses.” Mas os Estados Unidos estão com os pés fincados na região. Fiori assinala que “todos os sinais indicam que a África será — pela terceira vez — o território privilegiado da nova ‘corrida imperialista’ que está começando”.

Brasil e EUA devem disputar supremacia na América do Sul

José Luís Fiori diz que o crescimento da América do Sul tem sido impulsionado pela demanda asiática, principalmente da China, “que tem sido a grande compradora das exportações sul-americanas de minérios, energia e grãos. (...) Os novos preços internacionais das commodities fortaleceram a capacidade fiscal dos Estados sul-americanos e estão financiando políticas de integração da infra-estrutura energética e de transportes do continente”.

“O Brasil”, nota Fiori, “será na próxima década o maior produtor mundial de alimentos, e um dos grandes produtores e exportadores mundiais de petróleo. (...) A América do Sul é hoje uma região essencial para o funcionamento e a expansão do sistema mundial, e por isto deve sofrer uma pressão econômica e política cada vez maior, de fora e de dentro da própria região”. Fiori acredita em conflitos entre países sul-americanos e entre eles e os Estados Unidos.

A integração econômica da América do Sul não será fácil, avalia Fiori, “porque suas economias não são complementares, porque não existe um país que cumpra o papel de ‘locomotiva’ da região, e porque a América do Sul não tem um inimigo externo comum”.

“De qualquer maneira”, afirma Fiori, “a longa ‘adolescência assistida’ da América do Sul acabou. E o mais provável é que esta mudança provoque, no médio prazo, uma competição cada vez mais intensa entre o Brasil e os Estados Unidos pela supremacia na América do Sul”.


José Luís Fiori

Fiori avalia que os dados não permitem, porém, avaliar que China, Índia, África do Sul e Brasil têm condições de assumir o papel de superpotência. Fiori diz que, no geral, faltam a eles controle da tecnologia de ponta, poderio militar e “capacidade de iniciativa estratégica autônoma no sistema mundial”. China e Índia mal se toleram e competem passo a passo. Uma informação preocupante: “O expansionismo chinês fora da Ásia tem sido quase estritamente diplomático e econômico. Mas, na Ásia, o projeto chinês já é claramente hegemônico e competitivo, também do ponto de vista militar. E muito em breve a China também deverá projetar seu poder para fora do continente asiático”.

A Índia “não apresenta as características de uma potência expansiva. (...) Mas desenvolve e controla tecnologia militar de ponta”. Trata-se de uma potência nuclear. Brasil e África do Sul não “tem uma estratégia internacional expansiva ou um inimigo externo claro, sequer são potências militares relevantes. (...) O mais provável é que o Brasil e a África do Sul mantenham-se por algum tempo ainda na condição de ‘Estados relevantes’, mas sem uma estratégia nacional claramente defensiva, como a Índia, ou expansiva, como a China”.


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POR EM 02/02/2009 ÀS 06:19 PM

A paternidade de Ezequiel

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 A conclusão natural é que o retrato de Capitu que nos chega é obra dessa memória ruim e deste temperamento passional, o que há de servir à esposa de álibi contra possíveis distorções e injúrias do marido, perante o leitor 

“Dom Casmurro”, de Machado de Assis, tem 148 capítulos. Para efeito de análise literária, a última vez que o li dividi-o em oito partes, assim organizadas: o Primeiro e o II capítulos originais ficam sendo a primeira parte, ou intróito explicativo; do III ao VII temos a apresentação dos familiares do protagonista; do VIII ao X, ainda preambulares, temos a metáfora que resume a condição humana. A história propriamente inicia-se a partir do XI, e gira até o XVII em torno da suspeita de namoro dos adolescentes protagonistas. A quinta parte é o do plano dedicado a fazer com que Bentinho escape ao seminário, que vai do XVIII ao XLIII capítulos. A partir do seguinte, XLIV, começa a sexta parte, que é a da fase do seminário, e a sétima tem início no XCVIII e vai até o CXLVIII: corresponde à vida de casado. O desenlace melancólico dá-se na oitava parte, entre os capítulos CXXIII e CXLVIII. Esta é uma divisão particular, sujeita naturalmente a revisão. Serviu-me bem, todavia, para os propósitos deste ensaio, dedicado em parte a refletir sobre a paternidade de Ezequiel: filho de Bentinho ou de Escobar? 
 
A segunda vez que li “Dom Casmurro” tive certeza de que Capitu traíra o esposo, porém essa certeza foi por água abaixo, da última vez. Imagino hoje que o que encanta nesse livro não é a possibilidade que é dada a cada um de admitir ou negar a traição de Capitu, mediante as pistas oferecidas pelo romancista (aqui transcrevo apenas uma, a meu ver a mais séria). O que encanta e empresta gênio a esta obra é o fato de não ser convencional, isto é, não ter aquela revelação surpreendente que compensa os espíritos. Se o fizesse, Machado não cumpriria seu objetivo, que parece ser o de deixar em aberto uma questão que aparece a primeira vez no capítulo XLIV. Ninguém descobrirá o segredo de “Dom Casmurro”: sabe-o apenas Capitu. A dificuldade está em que a natureza principalmente desta e de Bentinho são tão cambiantes e indefinidas quanto a das pessoas de verdade. As criaturas de Machado são complexas como o mais simples dos seres humanos de carne e osso, para dizer o menos. Seu gênio, é sabido, não se enquadra numa escola, e isso ficou mais claro para mim, que desta vez achei-o particularmente atraído pelo impressionismo.
 
O que seus heróis, Capitu e Bentinho, sugerem num capítulo negam-no às vezes no seguinte: é um permanente oscilar de dúvida e de certeza na cabeça do leitor, tantalizado por este movimento pendular em pinceladas, pode ser também, de aquarelista. É tudo vago e sugerido, fórmula que nos impede de surpreender o casalzinho, ao menos tê-lo definitivamente às mãos. Não se trata de contradição, pois Machado de Assis é suficientemente verossímil. A certa altura (Cap.XCIII), o escritor assim define o homem: “...o homem não é sempre o mesmo em todos os instantes.”, sendo fiel a esta definição: e quem negaria que o que nos dá, realmente, são dois personagens que parecem respirar? Assim é que o Bentinho da primeira parte não é o da última, quando sua pureza moral esvai-se consumido pela torpeza: custa enxergar naquele homem amargo, quase assassino, o anjo de pureza e ingenuidade do começo.
 
Obviamente, é necessário advertir para o fato de que “Dom Casmurro” são as memórias pessoais de Bentinho, que ganhou esse apodo na velhice. É um livro narrado em primeira pessoa, isto é, uma versão. Não sabemos como seriam as memórias de Capitu, posto que a voz que ganha aqui é como a de Sócrates em Platão: um eco apenas. Quase se pode dizer, não fosse o tom acusativo, que o marido traído literalmente põe palavras na boca da esposa difamada. Não cabe no momento discutir esse problema, uma vez que Bentinho desce ás minúcias, e ninguém, na realidade – senão na ficção, parece – pode lembrar exatamente as palavras que outrem disse a cada momento ao cabo de muitos anos: seria preciso uma memória prodigiosa, exatamente o equipamento que Bentinho admite expressamente não ter:
 
“Não, não, a minha memória não é boa. Ao contrário, é comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias, sem guardar delas nem caras nem nomes, e somente raras circunstâncias.”, completando a seguir: “Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo se pode meter nos livros omissos (...). É que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher as minhas.” (Cap. LIX) Imagino que reclamar uma memória que não se tem e ao mesmo tempo recompor diálogos antigos em detalhes é um problema mais de teoria literária que deste romance. De qualquer modo, não é a questão que nos interessa nesse momento. Interessa que “Dom Casmurro” reconhece que seu livro é omisso e lacunoso, autorizando a interpolação de terceiros (autêntica obra aberta!). Como não bastasse essa falta grave, o narrador é extremamente emotivo, confessando-se definitivamente neste passo:
 
“Por falar nisto, é natural que me perguntes se, sendo antes tão cioso dela [de Capitu], não continuei a sê-lo apesar do filho e dos anos. Continuei, a tal ponto que o menor gesto me afligia, a mais ínfima palavra, uma insistência qualquer, muita vez só a indiferença bastava. Cheguei a ter ciúmes de tudo e de todos. Um vizinho, um par de valsa, qualquer homem, moço ou maduro, enchia-me de terror ou desconfiança.” (Cap.CXIII)
 
A conclusão natural é que o retrato de Capitu que nos chega é obra dessa memória ruim e deste temperamento passional, o que há de servir à esposa de álibi contra possíveis distorções e injúrias do marido, perante o leitor. Que Bentinho tenha legado essas memórias de punho próprio é quase uma infâmia! A idiossincrasia do adolescente que termina macambúzio não é para tanto, a dela seria. (Eis outro problema mais teórico, talvez, que do próprio livro).
 
“Dom Casmurro” estaria bem intitulado se chamasse “Capitu”. Mesmo se aceitarmos o fato de que se trata da memora pessoal de Bentinho, com todas as possíveis incorreções morais daí decorrentes, é admissível que é ela que o arrasta pela metade da história adentro, não ele a ela. Em torno das lembranças de Bentinho giramos nós, os leitores, mas em torno dela gira ele, astro menor, sem a mesma força, gênio equivalente e presença de espírito. Quão diferentes são, em talento e temperamento, Bentinho e Capitu! Se é verdade que os pólos opostos se atraem, então tudo bem, explica-se o enlace de ambos. Caso contrário, explica-se com mais fundamento o desfecho, posto que ela é por demais centrada e racional, e ele muito disperso e emotivo.
 
Ao tentar compreender o ciúme de Bentinho, à medida que fui coligindo as pistas contra e a favor da idéia de traição, percebi que era melhor resignar-me ao mistério, única coisa que afinal se descobre. Há capítulos claramente pró e contra a tese de traição, assim como há aqueles totalmente indefiníveis (dois ou três): nestes, a dissimulação de Capitu é apoteótica ou simplesmente inexistente, não é possível determinar (cito o LXV, o XCVIII, o CXII, entre outros). Não há como saber a verdade sobre este romance, nem mesmo se adotarmos um critério de abordagem. Em meu caso, parti do pressuposto de que tudo o que escreve “Dom Casmurro” é a verdade, apesar de seus esquecimentos e de seu pathos avassalador, sujeito a ver chifres em cabeça de cavalo. Objetivamente, a tese da traição tem muito mais pistas do que a outra, o que não significa que sejam mais fortes que as negativas.
 
Tanto que os capítulos mais contundentes (ao menos me parece) entre todos dessa polêmica são o CVIII e o CXVII, respectivamente. Como explicar que o próprio Escobar, pai de uma menina com Sancha, tome a iniciativa de fazer a seguinte proposta ao “amigo” (grifos meus):
 
“Escobar acompanhava muita vez as minhas criancices; também interrogava o futuro. Chegou a falar da hipótese de casar o pequeno com a filha. A amizade existe; esteve toda nas mãos com que apertei as de Escobar, ao ouvir-lhe isto, e na total ausência de palavras com que ali assinei o pacto; estas vieram depois, de atropelo, afinadas pelo coração, que batia com grande força. Aceitei a lembrança, e propus que os encaminhássemos a este fim, pela educação igual e comum, pela infância unida e correta.”
 
O assunto volta à baila, depois, dele participando as mães Sancha e Capitu, nos seguintes termos (sérios demais para serem ignorados):
 
“Como eu observasse que podia acontecer com eles o que se dera entre mim e Capitu, acharam todos que sim, e Sancha acrescentou que até já se iam parecendo. Eu expliquei:
 
- Não; é porque Ezequiel imita os gestos dos outros.
 
Escobar concordou comigo, e insinuou que alguma vez as crianças que se freqüentam muito acabam parecendo-se umas com as outras. Opinei a cabeça, como me sucedia nas matérias que eu não sabia bem nem mal. Tudo podia ser. O certo é que eles se queriam muito, e podiam acabar casados, mas não acabaram casados.”  
 
Como é possível imaginar que todos – portanto Capitu e Escobar, inclusive, únicos que teriam a chave do mistério – concordassem em unir em matrimônio dois possíveis frutos de suas entranhas? Seria concordar, consequentemente, com a possibilidade do incesto, de forma que a ausência de protesto pelos suspeitos neste caso aponta para uma única direção: Ezequiel era filho legítimo de Bentinho. Ou isso ou, pior, a perversidade no mais alto grau de Capitu e Escobar, perante suas consciências e a incerteza que naturalmente teriam, também. Não estou certo de que qualquer capítulo a favor da traição possua um argumento tão conclusivo, nem mesmo a suspeita sobre a esterilidade de Bentinho (Cap.CIV) ou as visitas – olhe a desinência, a provar que a coisa era sintomática - de Escobar à casa de Capitu (CVI e CXIII), na ausência do herói. No último caso ela diz que está doente e o marido sai; chega Escobar e em seguida o marido, a surpreendê-los novamente: a esposa já estava bem!...
 
Há algo mais que não merece passar batido na leitura de “Dom Casmurro”, e que, embora não sejam pistas diretas, ajudam a compor os caracteres, apontam uma direção e concorrem para formar uma imagem integral dos heróis. Assim é que, voltando às diferenças de temperamento, custa acreditar que uma moça tão equilibrada quanto Capitu se deixe seduzir tão apaixonadamente por Bentinho, amiúde lacrimoso: o rapaz chora por tudo! Ressalvada a possibilidade de anacronismo – seria aconselhável conhecer o comportamento típico da mocidade no Segundo Império -, as mesuras e graciosidades de Bentinho ante Escobar parecem indicar uma sexualidade indefinida e talvez homoerótica reprimida, reforçada talvez pela dependência acessiva a mãe. Por contraste, o próprio “Dom Casmurro” admite o seguinte: “Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem.” Deduz-se, portanto, que ela desejaria um homem que, embora sensível, fosse antes de tudo viril, para corresponder-lhe à feminilidade fora de questão. Daí sua admiração pelo medalhão de César: 
 
“Um dia Capitu quis saber quem eram as figuras da sala de visitas. O agregado disse-lho sumariamente, demorando-se um pouco mais em César, com exclamações e latins:
 
- César! Júlio César! Grande homem! “Tu quoque, Brute”?
 
Capitu não achava bonito o perfil de César, mas as ações citadas por José Dias davam-lhe gestos de admiração. Ficou muito tempo com a cara virada para ele. Um homem que podia tudo! Um homem que dava a uma senhora uma pérola de 6 milhões de sestércios!” (Cap.XXXI). 
 
Obviamente, este perfil sedutor nada tem a ver com Bentinho. Eis aí o arquétipo masculino ideal na cabeça de uma mulher como Capitu. Machado não escreveria esse capítulo se não fosse para extrairmos dele semelhante conclusão. E que dizer do fato de que foi sempre ela que tomou as iniciativas, e não ele? Capitu não se sentia frustrada, a exemplo de Ema Bovary, para quem o homem dos sonhos de uma mulher é o que tem as rédeas da vida na mão, conduzindo-a ao invés de se deixar levar?
 
Para concluir, lembro-me que José Maria e Silva, talvez o melhor ensaísta atuante na imprensa goiana, escreveu certa vez um ensaio – “O brasileiro que superou Shakespeare”, Jornal Opção, 11 a 17 de outubro de 1998 – dedicado a Machado de Assis. Infelizmente, não respondeu ao por que dessa certeza, deixando a afirmação em suspenso. Honestamente não sei se “Otelo” é obra superior ou inferior ao nosso romance – provavelmente se equivalem, o que não é pouco. Machado cita-a em particular, mais de uma vez, porém eu creio que ele condensa outras influências de Shakespeare em “Dom Casmurro”. Toda a atmosfera de encerramento do romance é trágica, servindo o autor, aliás, de referências constantes ao teatro, que era um dos recreios do casal. Como nas tragédias shakespearianas, quase todos morrem no fim, com a diferença original de que o derramamento de sangue é avesso às inclinações de Machado: este prefere o golpe da natureza ao dos homens. A sua não é nunca uma paixão que vai às últimas consequências.
 
Bentinho confessa que viu em “Otelo” uma “coincidência”, estimulado a assistir à sua representação, e ao fazê-lo curiosamente mimetiza Hamlet, quando este mete uma peça dentro da “peça”: ao invés de Escobar, faz ele próprio o papel de Claudio. A atmosfera final de “Dom Casmurro” assemelha-se também inegavelmente à de “MacBeth”, ao menos porque intensificam-se as referências à noite, à medida que Bentinho fica transtornado: uma das causas do adensamento final é o tempo atmosférico. É no ambiente noturno que vai ao teatro, que surpreende Escobar saindo de sua casa, que sai para espairecer etc.
 
Ao ler recentemente um estudo dedicado às imagens criadas pelo dramaturgo inglês – “A Imagística de Shakespeare”, de Caroline Spurgeon – surpreendeu-me outro dado interessante: “A principal imagem de “Otelo” é a de animais em ação, cada um espreitando o outro, malévolos, lascivos, cruéis ou sofredores, e por meio dessas características a sensação geral de dor e desagrado é muito ampliada e mantida constantemente diante de nós.” Não sei se o leitor de “Dom Casmurro” deu atenção ao fato de que, a partir da gravidez de Capitu, Machado faz algumas referências a rãs, cães, gatos e ratos – em particular servindo-se dos capítulos CX, CXV e CXI - tudo para criar uma atmosfera violenta ou, quando menos, sugerir a sua própria condição. Talvez a mais marcante seja a cena do gato comendo o rato, sob os olhares vibrantes de Ezequiel (o filho, não o amigo!...). A metáfora, como se vê, nunca foi figura estranha ao romance.
 
Tendo ou não extraído essas sugestões imagísticas de “Otelo” – é provável que sim – fato é que “Dom Casmurro” acreditou na traição da mulher, e por isso terminou infeliz e por muitíssimo pouco bestializado pelo ciúme. Bentinho teve certeza quanto à traição de Capitu, porém não apresentou as provas cabais e objetivas de seu tormento, e sua convicção é suspeita para nós. Não temos, como leitores, a prova material para condená-la ou absorvê-la: em se tratando de “Dom Casmurro”, toda certeza é teoria. Seus juízes é que terminam sempre condenados - à dúvida perpétua.


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POR EM 02/02/2009 ÀS 05:46 PM

Uma inglesinha pobre nos trópicos

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Um dos casos mais conhecidos de escrita a partir do ponto de vista dos mais pobres no Brasil foi um livro lançado em 1942, com o título de “Minha Vida de Menina”. Uma senhora de 62 anos da então alta sociedade carioca, Alice Dayrell Caldeira Brant publicou os seus diários, sob o pseudônimo de Helena Morley, com as histórias de sua passagem da infância para adolescência em Diamantina, norte de Minas Gerais


Cena do filme "Minha Vida de Menina"

Dizem hoje que a literatura e o cinema brasileiros tratam em demasia de pobres nas favelas e no sertão nordestino. Pouco haveria do universo da classe média na ficção contemporânea produzida no Brasil, de acordo com esse pensamento francamente conservador. Só não acrescentam, todavia, que são pobres representados e inventados por artistas de classe média, pois muito raramente abre-se espaço no campo cultural para autores oriundos das classes baixas. Esse vazio é por vezes ocupado por escritores como Ferréz e Paulo Lins – os modelos recentes para quem cria e vive nas periferias das grandes cidades brasileiras.

Um dos casos mais conhecidos de escrita a partir do ponto de vista dos mais pobres no Brasil foi um livro lançado em 1942, com o título de “Minha Vida de Menina”. Uma senhora de 62 anos da então alta sociedade carioca, Alice Dayrell Caldeira Brant publicou os seus diários, sob o pseudônimo de Helena Morley, com as histórias de sua passagem da infância para adolescência em Diamantina, norte de Minas Gerais. Filha de um inglês explorador de diamantes, ela observa a vida a seu redor na pequena cidade mineira que está em franca decadência pelo esgotamento das jazidas.

A própria história de publicação dos diários daria um romance ou um filme em si. Os escritos de Alice foram organizados pelo marido Mario Augusto Caldeira Brant, alto funcionário no governo Getúlio Vargas e escritor elogiado por Carlos Drummond de Andrade. Como os originais nunca apareceram e podem ter sido até queimados, as lendas correram soltas. Entre os suspeitos de terem mais do que editado o material, estavam Augusto Meyer e Cyro dos Anjos, este o autor da obra-prima na forma de diário ficcional “O Amanuense Belmiro”.  
Em conversa com o crítico Alexandre Eulálio, Guimarães Rosa foi enfático a respeito da controvérsia: se houve de fato a reescrita por um adulto, “estaríamos diante de um ´caso’ ainda mais extraordinário, pois, que soubesse, não existia em nenhuma outra literatura mais pujante exemplo de tão literal reconstrução da infância”.

O livro “Minha Vida de Menina” chamou a atenção da poetisa norte-americana Elizebeth Bishop, que vivia no Brasil e traduziu a obra para o inglês. “Algumas páginas me evocavam outras, mais ‘literárias’: Nausícaa lavando suas roupas na praia, talvez com a ajuda suas escravas libertas; trechos de Chaucer; as crianças e campônios poéticos de Wodsworth, ou os pedintes errantes de Dorothy Wordsworth. Desde vez em quando, referências à escravidão me pareciam uma versão jamais escrita – brasileira e feminina – da história de Tom Sawyer e o negro Jim”, anotou Bishop, num belo ensaio em que lembra a visita a Alice Brant e a ida a Diamantina nos anos 1950.

Outro admirador das histórias de Helena Morley foi o pensador francês George Bernanos, que morou no Brasil nos 1940. Nos últimos dez anos, renovou-se o o interesse pelo livro com estudos de alto nível, como o de Roberto Schwarz (no livro “Duas Meninas”, de 1997), e a segunda versão para o cinema em “Vida de Menina” (2004), dirigida por Helena Solberg. A primeira filmagem havia sido de David Neves em 1969, com o título de “Memória de Helena”.

A ousadia maior coube, sem dúvida, a Roberto Schwarz, que comparou as histórias de Helena Morley à Capitu de Machado de Assis. Em meio ao espectro do escravismo e de homens cheios de caprichos, diz Schwarz, as duas meninas surpreendem pelo iluminismo, a clarividência de capturar a história daqueles tempos. “Sem favor, “Minha Vida de Menina” é um dos bons livros da literatura brasileira, e não há quase nada à sua altura em nosso século XIX, se deixarmos de lado Machado de Assis”, diz o autor de “Um Mestre na Periferia do Capitalismo”.


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POR EM 02/02/2009 ÀS 05:33 PM

Isaac Singer diz que Schulz é maior do que Franz Kafka

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Singer, autor de contos e romances quase mágicos, é herético ao dizer que o judeu polonês Bruno Schulz, morto pelos nazistas, é superior ao tcheco Franz Kafka, tido como um dos maiores autores de todos os tempos

 
Isaac Bashevis Singer
 
Em 1976, os escritores judeus Philip Roth e Isaac Bashevis Singer mantiveram uma conversa polêmica. O registro está no livro "Entre Nós — Um Escritor e Seus Colegas Falam de Trabalho" (Companhia das Letras, 172 páginas, tradução de Paulo Henriques Britto), de Philip Roth. Singer, autor de contos e romances quase mágicos, é herético ao dizer que o judeu polonês Bruno Schulz (1892-1942), morto pelos nazistas, é superior ao tcheco Franz Kafka, tido como um dos maiores autores de todos os tempos. A Editora Imago publicou "Sanatório" (231 páginas, 31 reais, tradução de Henryk Siewerki) e "Lojas de Canela" (180 páginas, 35 reais). "Lojas de Canela", romance autobiográfico, foi resenhado e elogiado po r Singer.
 
Ao iniciar a leitura de Schulz, Singer diz ter pensado: "Este aqui é um escritor de primeira. [...] A minha primeira impressão foi: este homem escreve parecido com Kafka. Há dois escritores que, segundo se diz, escrevem como Kafka. Um deles é Samuel Joseph Agnon, 1888-1970, Prêmio Nobel de Literatura de 1966]. Ele [Schulz] dizia que nunca lera Kafka. [...] Na verdade, ele leu Kafka, sim. [...] Eu não diria que ele foi influenciado por Kafka; existe a possibilidade de que duas ou três pessoas escrevam em estilos parecidos, dentro do mesmo espírito. Porque nem toda pessoa é absolutamente singular. [...] Mas quanto mais eu lia Schulz — talvez eu não devesse dizer isto — eu dizia: ele é melhor do que Kafka. Alguns de seus contos têm mais força. Além disso, ele é muito forte no absurdo, mas não de uma maneira ingênua, e sim inteligente. Eu diria que entre Schulz e Kafka existe uma coisa que Goethe chama de Wahkverwandtschaft, uma afinidade de almas que a própria pessoa escolhe".
 
Discreto, Roth não defende a mesma tese de Singer, sobre Schulz ser "maior" do que Kafka, mas admite sua importância: "Assim como em 'Lojas de Canela' ele reimagina sua cidade nativa, Drohobycz, como um lugar mais terrível e mais maravilhoso do que era na verdade — em parte, diz ele, para 'se libertar das torturas do tédio' —, ele reimagina fragmentos de Kafka para seus próprios fins. Kafka pode ter lhe dado algumas idéias engraçadas, mas o indício mais forte de que os objetivos dele são diferentes é talvez o fato de que no livro de Schulz o personagem que se transforma em barata não é o filho, e sim o pai. Imagine Kafka imaginando uma coisa dessas! Fora de questão. Algumas predileções artísticas são semelhantes, mas elas estão associadas a desejos radicalmente diferentes. Como você sabe, Schulz traduziu 'O Processo' para o polonês em 1936".
 
Embora tenha sido generoso com a prosa estranha de Schulz, Singer ressalvou, numa resenha de 1963, citada por Roth: "Se Schulz tivesse se identificado mais com seu povo, talvez não tivesse gastado tanta energia em imitações, paródias e caricaturas". Ao próprio Roth, Singer disse: "Há muito deboche nos escritos de Schulz e nos de Kafka, se bem que em Kafka o deboche é mais disfarçado. A meu ver, Schulz tinha potencial para escrever romances de verdade, sérios, mas em vez disso escrevia coisas semelhantes a paródias. E acho que, acima de tudo, ele desenvolveu esse estilo porque não se sentia realmente em casa, nem entre os poloneses nem entre os judeus. É um estilo que também caracteriza Kafka, porque Kafka também achava que não tinha raízes".
 
Roth diz que o tédio e a claustrofobia pesam mais na prosa de Schulz. "Me parece inteiramente consciente do fato de que sua imaginação agitada o levava até a fronteira da loucura, ou da heresia. [...] A impressão que se tem é que Schulz mal conseguia se identificar com a realidade, quanto mais com os judeus. Isso nos faz pensar no comentário feito por Kafka sobre as suas afinidades comunitárias: 'O que é que tenho em comum com os judeus? Não tenho quase nada em comum comigo mesmo, e por mim ficaria quietinho num canto, contente por poder respirar'. Schulz não tinha por que ficar em Drohobycz se achava o lugar tão sufocante assim. [...]. Mas é possível que o ambiente claustrofóbico que não atendia às necessidades do homem fosse precisamente o que dava vida à espécie de arte que ele produziu. Uma de suas palavras prediletas é 'fermentação'. Talvez sua imaginação só pudesse fermentar em Drohobycz".
 
Nascido na Polônia, Singer passou a vida escrevendo em iídiche (chegou a ser traduzido pelo excepcional prosador Saul Bellow) e mudou-se para os Estados Unidos para fugir do nazismo. Roth pergunta: "E ao sair da Polônia, você teve medo de perder o contato com o seu material?" Singer responde: "É claro, e esse medo se tornou ainda mais forte quando cheguei a este país. Cheguei aqui e vi que todo mundo falava inglês". Numa reunião de chassídicos, duzentas mulheres diziam: "delicious, delicious, delicious" (delicioso). "Naquele momento", diz Singer, "a Polônia me pareceu muito distante. Quando morre uma pessoa que é próxima a você, nas primeiras semanas depois da morte essa pessoa fica tão distante de você quanto é possível se estar; é só com o passar dos anos que ela se torna mais próxima, e aí chega um momento em que você está quase vivendo com ela. Foi o que aconteceu comigo. A Polônia, a vida judaica na Polônia, está mais próxima de mim agora do que estava naquela época".

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POR EM 31/01/2009 ÀS 06:14 PM

Tarso de Castro

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Tarso de Castro ganha biografia que expõe sua história sobre a criação do jornal que abalou a República e relata a paixão da atriz americana Candice Bergen pelo jornalista
 
 
O jornalista que criou o Pasquim  e domou a atriz Candice Bergen
 
Para alguns jornalistas, como o excelente Ruy Castro, nada é mais importante do que Ipanema. A Segunda Guerra Mundial certamente começou, em 1939, porque Millôr Fernandes, o guru de Paulo Francis e Ruy Castro, estava com dor de dente. Então, como o Rio de Janeiro, que a "turma" chama de "Rio", é o centro do universo, discute-se, em livros e jornais, como se fosse a informação mais relevante do mundo, a verdadeira paternidade de O Pasquim, depois apenas Pasquim, sem o artigo. Há, claro, a tendência, admitida até pelo patoteiro milloriano Ruy Castro, de excluir o nome de um dos fundadores do tablóide que mexeu com os nervos e mandíbulas (todos riam, militares na linha de frente) - o jornalista gaúcho Tarso de Castro. Agora, finalmente, surge a versão de outra patota, a de Tarso de Castro, morto, de tanto ingerir (putz!, dirá a turma do Pasca) bebida alcoólica - seu café da manhã era vodca. O livro 75 Kg de Músculos e Fúria: Tarso de Castro - A Vida de Um dos Mais Polêmicos Jornalistas Brasileiros, do jornalista Tom Cardoso, publicado pela Editora Planeta, resgata e restaura a história do fundador do Pasquim, tido, por muitos, apenas como "porra-louca". E ele era, mas não só isso.

Ruy Castro, no livro de baba-ovismo Ela É Carioca - Uma Enciclopédia de Ipanema (subtítulo ideal: "Deus criou o mundo a partir de Ipanema"), editado pela Companhia das Letras, traça a história do Pasquim com certa isenção, mas puxando sardinha, é claro, para a armada de Millôr Fernandes. Ruy Castro, que felizmente não é parente de Fidel Castro, escreve: "... O Pasquim [fundado em junho de 1969] sobreviveu àquele período inicial porque era diferente do que todo mundo esperava. Os militares, que não tolerariam uma oposição política explícita, custaram a perceber que o deboche do jornal na área dos costumes e da cultura o tornava ainda mais 'subversivo'". Um dos segredos do sucesso, registra Ruy Castro, é que os jornalistas e colaboradores "podiam escrever do jeito que quisessem. (...) O Pasquim não parecia 'escrito', mas 'falado'. (...) Mas a grande atração eram as entrevistas, desde a nº 1, com Ibrahim Sued. Elas não eram 'editadas'. Não se tratava de uma estratégia editorial, mas, no caso das primeiras entrevistas, de preguiça e correria mesmo. O público adorava aquela espontaneidade e ela se tornou padrão nas entrevistas. Os leitores adotaram apaixonadamente o Pasquim e fizeram sua circulação disparar: 14 mil exemplares no nº 1; 94 mil no nº 19; 117 mil no nº 22 (com a entrevista de Leila Diniz); 140 mil no nº 23; 200 mil no nº 27". A grande fase do jornal ocorreu entre 1969 e 1975. Com a distensão e a abertura, o jornal ficou sério demais e perdeu público. Mas o jornal abriu espaço para o Opinião e para o Movimento, jornais mais engajados.
 

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POR EM 28/01/2009 ÀS 03:42 PM

Programa de leituras 2009

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Nesta e nas próximas edições, A Revista Bula apresenta o que seus colaboradores irão ler no ano de 2009. Boa leitura


De vilã, a Internet se tornou a grande aliada da indústria de livros. Com o surgimento de centenas de sites especializados em vendas, ficou quase impossível não encontrar o livro que procuramos. Outro fenômeno importante da Internet foi o aparecimento das comunidades online de leitores, onde as pessoas compartilham as suas leituras, trocam, livros e informações. Segundo especialistas, a previsão de aumento de vendas de livros no mundo em 2008 será de 20% comparado ao ano anterior. Em resumo: ler nunca esteve tão em moda. E como diria Paulo Freire, "a leitura é bem mais que decodificar palavras, é ler o mundo".
 
Menalton Braff Escritor
 

Neste início de ano, já tenho separados para ler alguns livros que, evidentemente, receberão companheiros no transcorrer do ano.
 
José Saramago —"A Viagem do Elefante". Reproduzo um parágrafo da orelha que me aguçou a curiosidade: " Com sua finíssima ironia e muito humor, sua prosa que destila poesia, José Saramago reconstrói essa epopéia de fundo histórico e dela se vale para fazer considerações sobre a natureza humana e, também, elefantina. Impelido a cruzar meia Europa por conta dos caprichos de um rei e de um arquiduque, Salomão não decepcionou as cabeças coroadas. Prova de que, remata o autor, sempre se chega aonde se tem de chegar."
 
António Lobo Antunes — "Ontem Não te Vi em Babilônia". Um dos maiores escritores em língua portuguesa da atualidade, seu estilo fragmentário, seguindo um fluxo de consciência caótico e vertiginoso, Lobo Antunes tem uma linguagem realmente moderna, um texto revolucionário e que fascina.
 
Thrity Umrigar — "A Doçura do Mundo". Da Índia para Cleveland, a Ph.D. em inglês acaba de lançar seu terceiro romance. Foi presente de amigo, pois a autora me era completamente desconhecida. Deste romance se diz na orelha: ´A Doçura do Mundo´ retrata as fragilidades da vida, a essência do convívio familiar e as barreiras nem sempre intransponíveis entre culturas totalmente distintas."
 
Estou curioso.
 
Ivo Ándritch — "Café Titanic". Ainda não tinha lido nada deste autor, que é prêmio Nobel de Literatura, nascido na Bósnia e morto em 1975 dm Belgrado. "... Ivo Ándritch foi chamado de ´Homero dos Bálcãs´, por sua capacidade de recriar todas as nuances dessa região em que confluem, de maneira violenta, as culturas da Europa católica e bizantina, mescladas a heranças muçulmanas e judaicas."
 
Aricy Curvello — "50 Poemas Escolhidos Pelo Autor". Poeta mineiro residindo atualmente no Espírito Santo. Um dos grandes talentos poéticos da atualidade.
 
Friedrich Nietzsche — "O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música". "A Filosofia na Época Trágica Dos Gregos". Dispensa comentários.
 
Terêncio — "A Sogra". Escrita provavelmente em 165 a.C., desta peça se diz na introdução "o espírito da sua luta contra a incompreensão e os preconceitos sociais perdura, na consciência do homem moderno."
 
Alain Robbe-Grillet — "Projeto Para Uma Revolução em New York". O autor é um dos papas do nouveau roman, corrente estética libertária que vai dominar o cenário literário francês dos anos 1950 até os 1980. Não há como dispensá-lo da estante. 
 
Enio Vieira Jornalista  
 
 
Acredito que a leitura vai sempre além da fruição e do mero prazer de um livro. Para 2009, tenho dois projetos que pretendo levar adiante e concretizá-los na forma de ensaios.
 
O primeiro é encerrar a leitura dos romances e contos de Autran Dourado, em sua fase na virada dos anos 1960 para os 1970: "A Barca dos Homens", "Ópera dos Mortos", "Risco do Bordado" e "Sinos da Agonia". Há uma utilização da escrita e da forma barroca que me parecem algo mais do que estilo. Tem uma interpretação do Brasil ali.
 
O barroco vem sendo estudado pelos cientistas políticos Luiz Werneck Vianna e Rubem Barboza Filho. Segundo eles, a modernidade no Brasil busca uma racionalidade norte-americana que só se viabiliza pelo iberismo dos gênios políticos. A conclusão é que a racionalidade se instala no país por meio do barroco. Autran Dourado escreve de acordo com as mais modernas técnicas narrativas, com uma sofisticação impressionante, e mistura isso a um barroquismo e ao velho narrador de Walter Benjamin.
 
O esquema descrito sumariamente acima pode ser a chave para ler a obra de Dourado e para interpretar dialeticamente a formação do interior de Minas Gerais, que serve de alegoria benjaminiana para a História do Brasil. É um bordado a ser costurado.
 
O segundo projeto é concluir a leitura de um conjunto de romances latino-americanos recentes. O que certas obras nos dizem do neoliberalismo mágico dos anos 1990? Creio ser um marco o livro "Peixe na Água", de Vargas Llosa, a defesa mais acabada de um projeto político e liberal por um dos mais renomados romancistas do continente. O contraponto é o brilhante ensaio de Beatriz Sarlo "Ya Nada Será Igual", que mapeia o fracasso completo e retumbante do neoliberalismo na América Latina defendido por Vargas Llosa.
 
Vargas Llosa e Sarlo balizam o período que uma série de obras importantes foi publicada e trata da aventura liberal. Ambos servem de referência analítica das relações cultura e sociedade. Os romances são A Virgem dos Sicários" (Fernando Vallejo), "Mano de Obra" (Diamela Eltit), "Noches en Flores" (César Aira) e "Eles Eram Muitos Cavalos" (Luiz Ruffatto). Como essas obras incorporam esteticamente o mundo neoliberal para criticá-lo? Esse modelo de leitura causa pavor dos leitores de romances comprados em aeroportos e de quem lê as orelhas de Harold Bloom. Se conseguir terminar esses dois projetos, estou satisfeito.
 
 J.C Guimarães Escritor 
 
 
Escolher o que se vai ler a cada ano é uma tarefa complicada. Complicada porque impõe uma fidelidade nem sempre tolerável: haverá sempre alguma coisa interessante em torno desse programa, desviando nossa atenção. É difícil a um freqüentador de sebos, por exemplo, entrar numa loja dessas e resistir a algum outro livro de interesse. A única justificativa para se fazer uma relação, acredito, é a necessidade que temos de ser organizados, metódicos, disciplinados. Pessoalmente, acho um sacrifício. De qualquer modo, vamos lá.
 
Eu costumo fazer escolhas por gêneros. Não partirei do zero, uma vez que entrarei o ano novo lendo "A República Velha", de Edgard Carone, e "Agosto", romance de Rubem Fonseca. Em relação à história (em que sou formado), pretendo aprofundar uma pesquisa sobre o tema referido, mas ainda não tenho claro autores e obras específicos (no máximo mais dois). Cuidarei disso a partir de janeiro.
 
Na área de literatura, vou ler William Faulkner ou Henry James. Se o primeiro, "O Som e a Fúria" ou "Luz em Agosto"; se o segundo, "As Asas da Pomba" ou "A Volta do Parafuso". Mais ambiciosamente, pretendo fazer minha primeira incursão por “Ulisses”, de James Joyce. Imagino não mais que um capítulo a cada mês, a partir de fevereiro ou março. Sem a mínima pressa. Em matéria de poesia, gostaria muito de ler não ainda a "Odisséia", embora fosse pertinente por causa de Ulisses. Interessa-me conhecer, antes, as virtudes heróicas dos guerreiros da "Ilíada", de Homero, de modo que, se tudo ocorrer conforme a intenção, tentarei o épico grego. Em se tratando de filosofia, Platão é um autor que me assedia, e possivelmente leia "O Banquete".
 
Acho importante dosar os clássicos com a narrativa contemporânea. Neste caso, tenho em mente J.M. Coetzee, mas ainda não sei que livro seu. Além dele, dos atuais, "Manuscritos de Computador", organizados por Nelson de Oliveira, e que corresponde à primeira coletânea de contos da chamada "Geração 90", no Brasil. A segunda eu li este ano, "Geração 90, Os Transgressores".
 
Por fim, acho que não se deve apenas ler. Reler, todo mundo sabe, é fundamental. Farei isso com Shakespeare (pretendo estudar alguns personagens de suas quatro grande tragédias). Como leitura auxiliar, um ensaio de Caroline Spurgeon que comprei mas ainda não li, "A Imagística de Shakespeare".
 
Acho que este programa está de bom tamanho e, sinceramente, não teria fôlego para ir além de dez ou quinze títulos (se é que, como lembrei, ser-lhes-ei realmente fiel).
 
Edival Lourenço Escritor  
 
 
Não raro acabo lendo mais do que planejo, mas deixando de ler alguma coisa que tinha planejado. Por razões profissionais, em 2008 li mais de uma centena de livros de autores goianos, ou melhor, goianienses, na condição de membro da Comissão de Projetos Culturais da Lei de Incentivo à Cultura de Goiânia. Se eu continuar na comissão, em 2009 certamente lerei um outro tanto. Às vezes é enfadonho ler coisas por obrigação, mas procuro fruir o máximo.
 
O legal dessa coisa é que a gente acaba tomando conhecimento de quase tudo o que se está fazendo em nosso mundo cultural, de bom e de ruim. E posso lhes assegurar: é uma grande cascalheira, de onde é possível, de vez em quando, retirar uma boa pepita.
 
Pro ano pretendo, nem concluir, mas continuar algumas leituras que venho empreendendo, como a da “Bíblia Sagrada” cotejada com o “Dicionário Bíblico” do teólogo biblista norte-americano John L. McKenzie, em que as sagradas escrituras são analisadas sob vários aspectos (históricos, sociológicos, psicológicos, políticos, estilísticos e até teológicos), com uma coragem e lucidez poucas vezes vistas. Continuarei lendo, ou melhor, degustando lentamente “Folhas de Relva” (texto integral) de Walt Whitman, considerada por muitos a porta de entrada das letras modernas. Lerei de novo “Sargento Getúlio”, a obra disparadamente mais criativa de João Ubaldo Ribeiro e um dos grandes momentos da Literatura Nacional. Alcança vôos de Guimarães Rosa. Se compararmos “Sargento Getúlio” com as últimas obras de João Ubaldo, temos a impressão que o autor esvaeceu, perdeu a embocadura literária.
 
De novo também lerei “Ficções” de Jorge Luis Borges, na tradução de Carlos Nejar. Pra mim a melhor coletânea de contos do ícone argentino.
 
Dentre os goianos que estão em minha pilha de leitura para este ano, menciono “A Distância das Coisas” de Flávio Carneiro, em que um adolescente de 14 anos busca a dolorida verdade que os familiares querem lhe esconder a todo custo; “Constelações e Porcos Para o Comendador”, de José Umberto Henriques, um romance histórico em que o Comendador Joaquim Alves, fundador do “Matutina Meiapontense”, o jornal mais antigo do Centro-Oeste, é personagem. Li do mesmo autor “A Nascente das Pedras de Fogo” e fiquei bem impressionado com a forma e o conteúdo; “A Maldição da Cruz”, de Ursulino Leão, romance que retrata um Brasil dominado pela Ganância e sua companheira de luta, a Corrupção. Tenho também o mais novo romance de Miguel Jorge, “O Deus das Horas e da Noite”, em que o escritor argentino Julio Cortazar é conselheiro onírico, narrador e personagem. E também para releitura “& Cone de Sombras” de Gilberto Mendonça Teles, uma coletânea bem representativa da boa poesia deste autor goiano.
 
Aliás, leio diariamente alguma poesia, que é pra não deixar o espírito murchar diante das agruras do mundo. Além de Whitman e Gilberto, estão em minha pilha de leituras diárias Cecília Meireles, Manoel Bandeira, Valdivino Braz, Delermando Vieira, TS Eliot, Ferreira Gullar, Gabriel Nascente, Pablo Neruda, Pio Vargas, Brasigóis Felício, Aidenor Aires, Carlos Nejar, Wallace Stevens.
 
Ainda espero ler ou reler este ano “Ciência e Política” de Max Weber, “A República de Platão” e “Cachorros de Palha” de John Gray, que, aliás, me impressionou bastante na leitura que fiz em 2007.
 
Além de um amontoado de livros e documentos relativos a período colonial do Brasil, mais especificamente ao Ciclo do Ouro, que estou sempre consultando, para embasar um romance que estou escrevendo: “Naqueles Morros, Depois da Chuva.” Acho que o primeiro volume (é para ser três) sai ainda em 2009.
 
Ufa! Parece que faltarão dias, para quem faz da Literatura a razão de viver.
 
Ademir Luiz Escritor  
 
 
Muito mais interessante que fazer agendas de leitura é ler agendas de leitura alheias. Fico impressionado, sobretudo, com a quantidade de releituras. Geralmente de clássicos. Italo Calvino costumava ironizar que uma obra clássica é um livro que está sempre sendo relido, nunca lido. Sem ironia, nesses momentos tenho a plena consciência do quanto estou defasado. Estou longe de padecer da fadiga de Mallarmé, de estar convencido de que já li tudo o que é importante, restando apenas reler.
 
Durante 2008, ano do centenário de morte de Machado de Assis, não foram poucas vezes que olhei suas obras (quase) completas em minha estante, pensando que ainda falta mais da metade para concluir a leitura. Aconteceu o mesmo com os seis volumes de “O Tempo e o Vento”. E também com “Os Sete Pilares da Sabedoria”, “O Jogo da Amarelinha”, “O Tambor”, parte da obra do Nietzsche e do José Saramago, peças de Shakespeare etc, etc, etc. Provavelmente, em 2009 alguns deles serão lidos. Com sorte e tempo, em algum indefinível ponto do futuro, uns poucos serão relidos.
 
Como sou um irresponsável incorrigível, tenho certeza que no próximo ano, mais uma vez, vou desperdiçar meu tempo lendo muitos livros importantes sem serem fundamentais, alguns volumes de ensaios que me parecerem eventualmente interessantes e mesmo alguns exemplares de lixo descartável, no esquema best-seller do momento. A maior parte dessa leva, ainda não sei o que será.
 
Por outro lado, planejo a leitura de algumas obras que me chamam atenção há tempos. Uma delas é o romance “Complô Contra a América”, de Philip Roth, onde o escritor norte-americano criou um cenário fictício no qual os EUA se aliam à Alemanha nazista contra os russos e os judeus. Depois, “O Cérebro do Século XXI”, do neurocientista Steven Rose. Trata de um tema que me interessa muito: a disputa renhida entre correntes científicas acerca do funcionamento do cérebro humano. Espero ter um pouco de diversão com “Socialismo Para Milionários”, do hilário George Bernard Shaw.
 
Após o alívio cômico de Shaw, lerei a caudalosa biografia de “Santo Agostinho”, escrita pelo historiador irlandês Peter Brown. Ganhei a correspondência entre Proust e Gallimard, que já li algumas páginas e pretendo terminar. Agostinho e Proust, os dois donos do tempo no Ocidente.
 
Quero ler “Os Diários de Sylvia Plath”, organizado por Karen V. Kukil, e “A Casa de Carlyle e Outros Esboços”, de Virginia Woolf. Nas páginas de seu diário de 1909, Woolf, longe da figura melancólica apresentada em “As Horas”, revela-se sarcástica e dura, zombando da classe intelectual e fazendo declarações anti-semitas. Em um mundo habitado por fêmeas frutas, nada como conhecer um pouco sobre mulheres notáveis como Sylvia e Virginia para reavivar nossa esperança na humanidade.
 
Confesso que também pretendo ler muita história em quadrinhos. Por prazer e obrigação. Primeiramente, porque algumas das idéias mais criativas que tenho visto nos últimos anos vieram dos chamados “romances gráficos” como “Os Supremos”, “300” e “Guerra Civil”. Em segundo lugar, estou produzindo um “romance gráfico”, com potencial altamente polêmico, com o artista plástico Tiago Duarte. Preciso conhecer os segredos dessa linguagem. Espero que alguém me leia, ou pelo menos releia.

 Brasigois Felício Escritor  
 

Neste ano entrante quero ser mais um ser brincante do que ledor compulsivo, a compulsar livros em modo mecânico, feito traça intelectualizada, a devorar o que não digere e, se digerir, não tira proveito, nem fica mais sábio e mais consciente com isto. Uma leitura, porém, se impõe, e já tenho a obra aqui comigo, pois que vai na linha deste viés que busco: trata-se do romance ilustrado “A Misteriosa Chama da Rainha Joana”, de Umberto Eco.
 
Obra que fala justamente dos diversos papéis da memória na existência humana. Por exemplo, há gente que lê com avidez de traça a devorar bibliotecas, mas não faz conexões (nem sequer neuroniais) com o que lê, fica a repetir como papagaio, a exibir conhecimento inútil, como o homem que sabia javanês, deitando teoria a dois por três, a citar, compilar e plagiar, a exemplo de certos asnos eruditos que conheço.
 
Um texto do escritor e filósofo Nelson Jonas, responsável pelo site “Cuidar do Ser” — chegou-me por meio de meu correio eletrônico. Por achar que vai na linha deste pensamento, transcrevo um trecho: “Sei muito bem o que é correr atrás da Net, ou o que é viver em meio ao pó das bibliotecas para remediar minhas angústias, tédio e insatisfação. Mas descobri, a duras penas, — e ainda a tempo — que remediar não tem o poder da mutação. Esta só pode ocorrer quando deixo de ler livros dos outros, e começo a ler o livro que eu sou”.
 
Como nas palavras de Krishnamurt: “Temos que ser uma luz para nós mesmos”. Se formos sérios e destemidos nesta profunda leitura de nossos pensamentos e sentimentos, quem sabe, num momento inesperado, possamos nos deparar com o autor do livro que somos nós. Mais do que buscar conhecer a pletora dos autores novos, enriquecerei meu tempo interior com novas hospedagens nas águas profundas dos clássicos da literatura universal. Pois estes já disseram a que vieram conquistaram duração e permanência, e os novos valores ainda estão vindo — terão tempo para mostrar que não vieram em vão.
 
Novo que não representa novidade é apenas novidadeiro. Prefiro escutar as vozes que sobreviveram às dobras de seu tempo e lugar. Assim, em 2009 pretendo ler menos do que li no presente ano, chegando à leveza de escrever bem (e bem menos) do que escrevi neste 2008 que já vai caindo nas ribanceiras do passado. No máximo, aspiro ter tempo mental e físico para, em silêncio criativo, produzir de modo a refletir a visão maior de quem em mim é maior do que eu.
 
Talvez um dia possa chegar aos cumes de sabedoria de Jorge Luiz Borges (cego vidente) que não se orgulhava dos livros que escreveu, e sim dos livros que leu. Quem sabe consiga vencer o velho vício de ser leitor compulsivo, sendo mais seletivo também com as pessoas, preferindo a companhia daqueles e daquelas que possam enriquecer e apaixonar quem eu sou . Pois a vida é uma viagem muito rápida, e desperdiçá-la é atentar contra a economia da natureza. Talvez um dia volte às vertigens de reler “Crime e Castigo” e “Os Irmãos Karamázov”, de Dostoiévski.
 
Se tiver ímpetos de estimular meus neurônios com a faísca de humor refinado e cortante, recorrerei a Millôr Fernandes. Uma pitada diária de Millôr no cardápio da mente torna menos estreita qualquer inteligência. Soa como um viagra neuronial. A ironia cortante e mordaz do bruxo Machado de Assis também pode vir a calhar, se sucumbir à tentação de levar a vida e as pessoas muito a sério. Quanto à poesia atual, pretendo ler o livro do Gilson Cavalcanti, premiado em bolsa de publicações de Palmas. Isto porque gosto de sua poética, e aprovei o que li de seu livro no Opção Cultural.

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POR EM 27/01/2009 ÀS 11:56 AM

Joyce Carol Oates produz obra-prima

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O lei­tor do ro­man­ce efe­ti­va­men­te não pre­ci­sa sa­ber que a his­tó­ria de Oa­tes é ba­se­a­da em fa­tos re­ais — fic­cio­na­li­za­dos pa­ra se­rem ilu­mi­na­dos, por­que o re­al sem um pou­co de luz extra, das co­res da fic­ção, di­ga­mos as­sim, per­de a gra­ça — pa­ra en­ten­der que se tra­ta de uma his­tó­ria po­de­ro­sa


 
Joyce Ca­rol Oa­tes

"A Fi­lha do Co­vei­ro" (Al­fa­gu­a­ra, 599 pá­gi­nas, tra­du­ção afi­a­da de Ve­ra Ri­bei­ro), obra-pri­ma de Joyce Ca­rol Oa­tes, é um ro­man­ce que exi­be a be­le­za (Re­bec­ca Schwart, a mú­si­ca de Be­e­tho­ven) cer­ca­da por imen­sa dor (na­zis­mo ale­mão, in­to­le­rân­cia ame­ri­ca­na, vi­o­lên­cia fa­mi­liar). Uma tra­gé­dia gre­ga, con­ta­da por uma Dos­toi­évski que ves­te saia, com uma es­pé­cie de re­den­ção, mas não re­li­gi­o­sa, e sim ter­ri­vel­men­te hu­ma­na.

Nu­ma en­tre­vis­ta ao "El Pa­ís", con­ce­di­da a An­drea Agui­lar, em ou­tu­bro de 2008, Oa­tes ex­pli­ca co­mo cons­tru­iu o ro­man­ce. Em maio de 1986, seu pai, sep­tu­a­ge­ná­rio, con­ta-lhe, ca­su­al­men­te, um se­gre­do de fa­mí­lia guar­da­do a se­te-cha­ves: a his­tó­ria de seu avô Mor­gen­stern que, de­pois de ati­rar na mu­lher, ma­tou-se com um ti­ro. Blan­che Mor­gen­stern, a fi­lha do ca­sal, es­ta­va no mes­mo re­cin­to. O bi­sa­vô de Oa­tes era co­vei­ro. No li­vro, a úni­ca pis­ta da­da pe­la es­cri­to­ra es­tá na de­di­ca­tó­ria: "Pa­ra mi­nha avó, Blan­che Mor­gen­stern, a 'fi­lha do co­vei­ro'".

Pos­ta a in­for­ma­ção, o lei­tor po­de pen­sar que se tra­ta de uma bi­o­gra­fia e não de um ro­man­ce, o que não é, po­rém, cer­to. "A Fi­lha do Co­vei­ro" é uma be­la obra de fic­ção, mas, co­mo é ba­se­a­da em fa­tos re­ais, ex­pli­ca­dos e adensados pe­los am­plos re­cur­sos da fic­ção, que cria vi­da on­de os do­cu­men­tos e a me­mó­ria fa­lham, a pró­pria Oa­tes ex­pli­cou-se na en­tre­vis­ta ao "El Pa­ís". "A fic­ção e a au­to­bi­o­gra­fia — que ami­ú­de é uma me­mó­ria se­mi­fic­cio­na­li­za­da — são mei­os pa­ra ex­plo­rar o pas­sa­do. É pre­ci­so ima­gi­nar, mas não in­ven­tar; se há in­ven­ções, fic­ção pu­ra, is­so de­ve bro­tar do re­al, do que ver­da­dei­ra­men­te ocor­reu", dis­se Oa­tes. "En­fren­tei a his­tó­ria as­som­bro­sa da vi­da de mi­nha avó, mas não po­dia apro­pri­ar-me de­la di­re­ta­men­te por­que não sa­bia re­al­men­te na­da de pri­mei­ra mão. Só po­dia che­gar a ela de for­ma elíp­ti­ca e por in­ter­mé­dio da ar­te. Ain­da as­sim pen­so que a voz que ima­gi­nei pa­ra mi­nha avó re­fli­ta de for­ma exa­ta a sim­pa­tia, o pa­thos e a no­tá­vel re­sis­tên­cia de sua vi­da des­co­nhe­ci­da", acres­cen­ta a pro­sa­do­ra. "Um dos da­dos que Oa­tes des­co­nhe­cia so­bre Blan­che era sua as­cen­dên­cia ju­dia", re­ve­la An­drea Agui­lar.

O lei­tor do ro­man­ce efe­ti­va­men­te não pre­ci­sa sa­ber que a his­tó­ria de Oa­tes é ba­se­a­da em fa­tos re­ais — fic­cio­na­li­za­dos pa­ra se­rem ilu­mi­na­dos, por­que o re­al sem um pou­co de luz extra, das co­res da fic­ção, di­ga­mos as­sim, per­de a gra­ça — pa­ra en­ten­der que se tra­ta de uma his­tó­ria po­de­ro­sa.

Fu­gin­do dos am­plos ten­tá­cu­los do na­zis­mo de Hit­ler, o ca­sal Ja­cob e An­na Schwart che­gam aos Es­ta­dos Uni­dos, com três fi­lhos, Hers­chel, o mais ve­lho, Au­gust (Gus) e a caçula Re­bec­ca, que, nas­ci­da no na­vio, é ci­da­dã ame­ri­ca­na. Re­bec­ca é Blan­che Mor­gen­stern, a avó de Oa­tes.

Na Ale­ma­nha, Ja­cob era pro­fes­sor de ma­te­má­ti­ca e lia fi­ló­so­fos, co­mo He­gel e Scho­pe­nhau­er, e An­na to­ca­va pi­a­no e ama­va a mú­si­ca de Be­e­tho­ven. Um ca­sal ju­deu de clas­se mé­dia. Nos Es­ta­dos Uni­dos, de­sen­ra­i­za­do, Ja­cob con­se­gue ape­nas o em­pre­go de co­vei­ro, em Mil­burn.

Não era uma vi­da fá­cil, e ale­mã­es na­que­le tem­po, mes­mo não na­zis­tas e mes­mo ju­deus, eram exe­cra­dos pe­los nor­te-ame­ri­ca­nos, es­pe­ci­al­men­te os jo­vens. Pa­ra pro­te­ger a fa­mí­lia, Ja­cob ten­tou iso­lá-la do mun­do. Pro­i­biu a mu­lher de fa­lar ale­mão e obri­gou os fi­lhos a não te­rem ami­gos. Era co­mo se ti­ves­se in­ven­ta­do seu pró­prio gue­to. Mo­ra­vam nu­ma ca­si­nha su­ja e ve­lha no in­te­ri­or do ce­mi­té­rio. Não ra­ro a ca­sa e tú­mu­los eram pi­cha­dos com a su­ás­ti­ca na­zis­ta. Ja­cob fi­ca­va hor­ro­ri­za­do e ten­ta­va apa­gar a pre­sen­ça os­ten­si­va da in­to­le­rân­cia ame­ri­ca­na.

Um dia, Ja­cob com­pra um rá­dio, mas não per­mi­te que nin­guém da fa­mí­lia o li­gue. Só o co­vei­ro po­de ou­vir as no­tí­cias, que o ir­ri­tam quan­do tra­tam das vi­tó­rias de Hit­ler. Quan­do Ja­cob sai, An­na às ve­zes cha­ma Re­bec­ca pa­ra ou­vir mú­si­ca eru­di­ta — o que, mais tar­de, vai mar­car a for­ma­ção do fi­lho de Re­bec­ca.

Quan­do Hers­chel e Gus sa­em de ca­sa, fu­gin­do da ti­ra­nia do pai, ti­ra­nia com a qual acre­di­ta­va que pro­te­gia sua fa­mí­lia, Ja­cob, tal­vez por jul­gar que per­deu o con­tro­le da fa­mí­lia e por não ter cum­pri­do a pro­mes­sa de uma vi­da me­lhor pa­ra to­dos, ma­ta a en­tor­pe­ci­da An­na e se ma­ta. Re­bec­ca fi­ca vi­va, apa­ren­te­men­te por­que, sen­do ame­ri­ca­na, na­da se po­de­ria fa­zer con­tra ela, na vi­são do pai, uma ví­ti­ma tar­dia do na­zis­mo e de seus pró­prios me­dos.

Com a mor­te do pai, Re­bec­ca re­nas­ce, por as­sim di­zer. Mas, an­tes de se tor­nar adul­ta, mo­ra na ca­sa de uma re­li­gi­o­sa, a pro­fes­so­ra apo­sen­ta­da Ro­se Lut­ter. Re­bec­ca sai de ca­sa, ain­da me­nor, por não su­por­tar a ca­ro­li­ce da tu­to­ra.

Jun­ta-se a ami­gas e co­me­ça a tra­ba­lhar num ho­tel, co­mo ca­ma­rei­ra. Aí, de cer­to mo­do, des­co­bre o mun­do. Um hós­pe­de ten­ta es­tu­prá-la e ou­tro hós­pe­de, Ni­les Tig­nor, a protege.

Tig­nor, ho­mem for­te e im­po­nen­te, con­quis­ta o co­ra­ção de Re­bec­ca, uma ga­ro­ta durona de 17 anos. Ca­sam-se. Tig­nor, con­quis­ta­dor in­ve­te­ra­do, diz que é re­pre­sen­tan­te de uma cer­ve­ja­ria e, no iní­cio, car­re­ga Re­bec­ca por vá­ri­as ci­da­des ame­ri­ca­nas. De­pois, ins­ta­la-a, grá­vi­da, nu­ma ca­sa ve­lha de fa­zen­da. Pa­ra ter o fi­lho, Ni­ley, Re­bec­ca pre­ci­sa da aju­da de vi­zi­nhos pa­ra le­vá-la ao hos­pi­tal. Tig­nor es­ta­va no mun­do e, co­mo não lhe da­va mais di­nhei­ro, Re­bec­ca te­ve de tra­ba­lhar na fá­bri­ca Tu­bos de Fi­bra Ni­á­ga­ra. Um tra­ba­lho du­ro, mas ne­ces­sá­rio.

Com o tem­po, Tig­nor per­de o vi­ço e o em­pre­go, en­vol­ven­do-se com cri­mi­no­sos. Tor­na-se ciu­men­to e vi­o­len­to. Es­pan­ca bru­tal­men­te Re­bec­ca e o pe­que­no Ti­ley. Pa­ra so­bre­vi­ver e, so­bre­tu­do, sal­var o fi­lho, a co­ra­jo­sa Re­bec­ca es­pe­ra Tig­nor dor­mir e fo­ge.

Pa­ra es­ca­par de Tig­nor, e tal­vez de sua pró­pria his­tó­ria fa­mi­liar ma­ca­bra, Re­bec­ca mo­ra em vá­ri­as ci­da­des dos Es­ta­dos Uni­dos. Nu­ma das ci­da­des, con­se­gue mu­dar seu no­me e o de Ni­ley. Ela pas­sa a se cha­mar Ha­zel Jo­nes e Ni­ley se tor­na Za­cha­ri­as Au­gust Jo­nes. Os dois rein­ven­ta­ram-se, pa­ra so­bre­vi­ver e se­guir no­vo ca­mi­nho.

Nu­ma das ci­da­des pa­ra on­de se mu­dam, Re­bec­ca-Ha­zel co­nhe­ce o pi­a­nis­ta de jazz e jor­na­lis­ta Chet Gal­lag­her, fi­lho de uma es­pé­cie de Ro­ber­to Ma­ri­nho dos Es­ta­dos Uni­dos.

Chet des­co­bre que Zack é apai­xo­na­do por pi­a­no e fi­nan­cia seus es­tu­dos. Sob ori­en­ta­ção de um pro­fes­sor ju­deu, Zack de­sen­vol­ve seu ta­len­to. Ha­zel ca­sa-se com Chet, mes­mo sem amá-lo. Bo­ni­ta e sen­su­al, Ha­zel é uma pre­sen­ça ilu­mi­na­do­ra — há um quê de fan­tas­mal ou má­gi­co nes­ta per­so­na­gem sólida como uma rocha.

O vir­tu­o­se Zack en­can­ta a to­dos no mun­do do pi­a­no. Ha­zel fi­ca fe­liz com o su­ces­so do ga­ro­to, co­mo se fos­se um pre­sen­te tar­dio à sua mãe que, no par­di­ei­ro do ce­mi­té­rio, le­vou-a es­cu­tar a mú­si­ca "Ap­pas­sio­na­ta" de Be­e­tho­ven to­ca­da por Ar­thur Schna­bel. Num ra­ro mo­men­to de in­ti­mi­da­de, a la­cô­ni­ca An­na diz pa­ra a garota Re­bec­ca: "Quan­do eu era me­ni­na, na mi­nha ve­lha ter­ra [Munique, na Ale­ma­nha], to­ca­va es­sa ´Ap­pas­sio­na­ta´. Não co­mo o Schna­bel, não to­ca­va, mas ten­ta­va". Sem o sa­ber, ao to­car "Ap­pas­sio­na­ta", Zack ar­ran­cou An­na do tú­mu­lo e res­tau­rou o tem­po per­di­do. Um pe­da­ço de Re­bec­ca, que ha­via si­do am­pu­ta­do na in­fân­cia, po­de ser ins­ta­la­do em seu cor­po.

Qua­se no fi­nal, há dois mo­men­tos di­la­ce­ran­tes. Gus vê Re­bec­ca, mas es­ta fin­ge que não o co­nhe­ce, por­que já era a ri­ca e protegida Ha­zel Jo­nes e não que­ria que o pas­sa­do vol­tas­se a as­som­brá-la — mais do que sua me­mó­ria im­pla­cá­vel a ator­men­ta­va. De­pois, des­co­bre que Freyda, a pri­ma que jul­ga­va mor­ta pe­lo na­zis­mo, é uma ci­en­tis­ta fa­mo­sa, au­to­ra de uma au­to­bi­o­gra­fia na qual con­ta a his­tó­ria de sua fa­mí­lia num cam­po de con­cen­tra­ção e ex­ter­mí­nio. Freyda esnoba a prima e, quando de­ci­de en­con­trá-la, é mui­to tar­de. Re­bec­ca-Ha­zel, com cân­cer, não tem mais condições de se comunicar.

Freyda es­cre­ve nu­ma car­ta aqui­lo que tal­vez re­su­ma o ro­man­ce: "Os fa­tos só são 'ver­da­dei­ros' de­pois de ex­pli­ca­dos". Fiz uma sín­te­se pá­li­da do ro­man­ce, mas na­da dis­se so­bre a for­ma po­de­ro­sa e su­til de Oa­tes narrar sua bela e dolorosa história. A lin­gua­gem do ro­man­ce é, de cer­to mo­do, sua mais po­de­ro­sa "per­so­na­gem".

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POR EM 25/01/2009 ÀS 06:01 PM

Philip Roth: um grande entrevistador

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“Hoje em dia considero ‘Ulisses’ o livro mais divertido, brilhante, complexo e menos chato de todos que já li. A qualquer momento eu posso pegá-lo, ler algumas páginas e sentir que acabei de ter uma transfusão de cérebro. Quanto a me sentir intimidado, a questão não cabe — Joyce está simplesmente além dos limites, além de todos nós, lá nas ‘longínquas ilhas dos Açores’, como ele dizia”

Philip Roth não é apenas um excelente prosador, autor de romances que certamente serão lidos daqui a cem anos com o mesmo prazer com o qual são lidos hoje. É também ótimo entrevistador e crítico, como prova o livro “Entre Nós — Um Escritor e Seus Colegas Falam de Trabalho” (Companhia das Letras, 172 páginas).

Roth conversa com Primo Levi, Aharon Appelfeld, Ivan Klíma, Isaac Bashevis Singer, Milan Kundera, Edna O´Brien, relê Saul Bellow, retratae Bernard Malamud (autor de “O Faz-Tudo”, Editora Record) e comenta desenhos de Guston.

Começo pelo texto mais tortuoso e comovente. Roth e Malamud foram amigos e se visitavam. Eles se conheceram em 1961. Roth o chama de Bern.

O crítico Roth anota: “A meu ver, ele [Malamud] estava fazendo pelos judeus solitários e suas maneiras de fracassar, típicas dos imigrantes e dos judeus — por aqueles malamudianos “que não paravam de sofrer” — tanto quanto Samuel Beckett, em suas obras de ficção mais longas, fazia pelos infelizes Molloy e Malone. Os dois escritores [...] isolavam as memórias raciais do contexto social e histórico [...], criavam parábolas de frustração embebidas da gravidade dos filósofos mais pessimistas”.

Em 1985, Roth visita Malamud e descobre que o amigo está muito doente. Diz, citando William Blake, que “a oposição é a verdadeira amizade”, mas, quando Malamud mostra-lhe o esboço de uma história que deveria ser transformada em romance, fica indeciso sobre o que dizer. “Nunca antes ele pedira minha opinião a respeito de uma obra ainda em construção, e seu pedido me surpreendeu.” Malamud exibe trechos do romance em andamento e quis saber a opinião do amigo. “Eu não queira mentir para ele; porém, vendo aquelas poucas páginas tremendo em suas mãos frágeis, não fui capaz de dizer a verdade, mesmo que ele esperasse isso de mim. Um pouco evasivo, comentei que aquilo parecia um começo como qualquer outro. [...] Tentando ser construtivo, observei que a narrativa começava devagar demais e que talvez fosse melhor começar a ler um trecho mais adiante, num dos capítulos posteriores. Perguntei-lhe para onde a história caminhava.” Malamud irritou-se: “O que vem depois não vem ao caso”. Apesar disso, a amizade foi mantida, até o fim — Malamud morreu em 1986.

Perguntado se não se sente estranho na França, culturalmente isolado, O tcheco Milan Kundera diz: “Gosto muitíssimo da cultura francesa, e devo muito a ela. Em particular, à literatura mais antiga. Rabelais é, de todos os escritores, o que mais amo. E Diderot. Adoro ‘Jacques, o Fatalista’, tanto quanto adoro Laurence Sterne. Eles foram os maiores experimentadores formais de toda a história do romance. E os experimentos deles foram, digamos, divertidos, cheios de alegria e júbilo, coisas que desapareceram da literatura francesa e sem as quais tudo na arte perde o significado. Sterne e Diderot viam o romance como um grande jogo. Eles descobriram o humor da forma romanesca. Quando ouço pessoas argumentando a sério que o romance esgotou suas possibilidades, o que sinto é exatamente o contrário; no decorrer de sua história, o romance deixou de lado muitas possibilidades. Por exemplo, há impulsos para o desenvolvimento do romance ocultos em Sterne e Diderot que não foram explorados por nenhum sucessor”.

Convém ler o que diz Kundera: “[...] As pessoas gostam de dizer: a Revolução é bela; é só o terror que decorre dela que é mau. Mas isso não é verdade. O mal já está presente na beleza, o inferno já está contido no sonho do paraíso, e se queremos compreender a essência do inferno, é necessário examinar a essência do paraíso em que ele tem origem. É muito fácil condenar os gulags, mas rejeitar a poesia totalitária que leva ao gulag passando pelo paraíso continua sendo tão difícil quanto sempre foi. Hoje em dia [a conversa com Roth é de 1980], em todo o mundo, as pessoas rejeitam categoricamente a idéia do gulag, porém ainda se deixam ser hipnotizadas pela poesia totalitária e marcham rumo aos novos gulags ao som da mesma canção lírica cantada por [Paul] Éluard no tempo em que ele pairava sobre Praga como o grande arcanjo da lira, enquanto a fumaça do cadáver de Kalandra subia ao céu, saindo da chaminé do crematório”.

O que motivou Roth a entrevistar, ou conversar, com Kundera foi o romance (ou quase-romance) “O Livro do Riso e do Esquecimento”. Diz Kundera: “Esse [o esquecimento] é o grande problema privado do homem: a morte como perda do eu. Mas o que é esse eu? É o somatório de tudo daquilo que lembramos. Assim, o que nos apavora na morte não é a perda do futuro, e sim a perda do passado. O esquecimento é uma forma de morte que está sempre presente na vida”.

“O evento básico do livro”, acrescenta Kundera, “é a história do totalitarismo, que rouba a memória das pessoas e desse modo as transforma numa nação de crianças. Todos os totalitarismos fazem isso. E talvez toda a nossa era técnica faça isso, com seu culto do futuro, da juventude e da infância, sua indiferença ao passado, sua desconfiança em relação ao pensamento. No seio de uma sociedade implacavelmente juvenil, um adulto dotado de memória e ironia se sente como Tamina na ilha de crianças”. Adiante, afirma: “Um romance não afirma nada; ele busca e formula questões. [...] A burrice das pessoas vem de elas terem uma resposta para tudo. A sabedoria do romance vem de ele ter uma pergunta para tudo”.

A conversa com a escritora irlandesa Edna O’Brien é um espetáculo à parte, pela inteligência e capacidade de articulação. No Brasil foram publicados apenas o romance “Dezembros Selvagens” (Bertrand Brasil, 39 reais, 304 páginas) e a biografia “James Joyce” (esgotada).

Inquirida por Roth a respeito de explorar tanto a infância em seus livros, Edna diz: “O período da vida em que você está mais vivo e mais consciente é a infância, e a gente passa o resto da vida tentando recuperar aquela consciência acentuada”.

O pai de Edna era violento, ela foi educada num convento e viveu numa fazenda isolada. Disto não deveria resultar muita coisa, sugere Roth, mas deu numa escritora notável. “Minha própria resistência me surpreende, sim, mas não acho que sobrevivi a isso tudo incólume. Não sei dirigir nem nadar; essas atividades estão além das minhas forças. Sob vários aspectos eu me sinto aleijada. O corpo era sagrado como um tabernáculo, e tudo era potencialmente pecaminoso. Agora parece engraçado, mas na verdade nem tanto — o corpo contém a história da vida tanto quanto o cérebro. Eu me consolo com a idéia de que se uma parte é destruída, a outra floresce”.

Sobre James Joyce: “Hoje em dia considero ‘Ulisses’ o livro mais divertido, brilhante, complexo e menos chato de todos que já li. A qualquer momento eu posso pegá-lo, ler algumas páginas e sentir que acabei de ter uma transfusão de cérebro. Quanto a me sentir intimidado, a questão não cabe — Joyce está simplesmente além dos limites, além de todos nós, lá nas ‘longínquas ilhas dos Açores’, como ele dizia”.

A respeito das mulheres, quando Roth pergunta se são tão promíscuas quanto os homens: “Às vezes são, mas a promiscuidade não dá a elas a mesma sensação de realização. A mulher, ouso afirmar, é capaz de um amor mais profundo e mais duradouro. Eu acrescentaria também que ela tem mais medo de ser abandonada. [...] O que nós sentimos e fazemos é o que nos determina. As mulheres não estão mais seguras em suas emoções do que antes. Apenas sabem lidar com elas melhor. A única segurança verdadeira seria abrir mão dos homens, afastar-se deles, mas isso seria uma pequena morte — ao menos para mim”.


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POR EM 10/12/2008 ÀS 08:10 PM

A vingança de Roberto Marinho contra Adolpho Bloch

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Quebrado, Adolpho Bloch saiu à caça de um salvador da pátria. O único que poderia salvá-lo era Roberto Marinho. A história é contada pelo próprio criador da Manchete: "Esperei quatro horas e quando entrei ele tentou falar primeiro, mas eu fui mais rápido: ´Doutor Roberto, eu preciso de ajuda´. Ele demorou uma eternidade para responder. ´Adolpho, há dez anos eu estou esperando você retornar o meu telefonema. Passar bem´. E a secretária me levou até a porta"

A vingança é um prato que, às vezes, se come frio. No governo de Leonel Brizola, a Manchete conquistou o direito de transmitir ao vivo, com exclusividade, os desfiles das escolas de samba em 1984. "Roberto Marinho telefonou várias vezes para Adolpho [Bloch], em busca de uma solução compartilhada." Conluiado com Brizola, o empresário não atendeu el rei. A TV de Adolpho Bloch obteve altos índices de audiência e faturou muito dinheiro. "Era a primeira e inédita derrota de Marinho", diz o jornalista Arnaldo Bloch. Anos depois, quebrado, Adolpho saiu à caça de um salvador da pátria. O único que poderia salvá-lo era Roberto Marinho. A história é contada pelo próprio criador da Manchete: "Esperei quatro horas e quando entrei ele tentou falar primeiro, mas eu fui mais rápido: ´Doutor Roberto, eu preciso de ajuda´. Ele demorou uma eternidade para responder. ´Adolpho, há dez anos eu estou esperando você retornar o meu telefonema. Passar bem´. E a secretária me levou até a porta". A história está relatada no excelente "Os Irmãos Karamabloch — Ascensão e Queda de um Império Familiar" (Companhia das Letras, 339 páginas), do jornalista Arnaldo Bloch, colunista de "O Globo".

Quando Adolpho pôs a Manchete no ar, em 1983, conquistou até mesmo o apoio de Roberto Marinho, depois de garantir ao rei: "Que é isso, doutor Roberto. Novela não é coisa pra mim". Marinho enviou até Boni para ajudar a montar a tevê.

Quem espera uma biografia da família Bloch, detalhada e cronológica, deve desistir da leitura. Mas quem gosta de boas histórias sobre uma família de realizadores, complicados e ousados, está diante de um livro que relata bastidores deliciosos. Diferentemente da biografia de Roberto Marinho escrita pelo jornalista Pedro Bial, o texto de Bloch não preserva a família nem edulcora suas histórias. É um retrato simpático, mas nu e cru (conta até a história do avô, Arnaldo, que morreu transando com a amante). Bóris, Arnaldo e Adolpho brigavam muito, daí o jornalista Otto Lara Resende, empregado de Adolpho, ter chamado o três de "irmãos Karamabloch". "Os Bloch eram um só torvelinho: uma família solidamente unida pela desunião", disse Otto.

Adolpho ficou famoso por ter criado a revista "Manchete", que, durante certo momento, superou a famosa "O Cruzeiro", de Assis Chateaubriand, o Chatô. Depois, começou a fazer água e o empresário, eternamente endividado, tentou vendê-la para Roberto Marinho e Samuel Wainer. A saída? A contratação do jornalista Hélio Fernandes, irmão de Millôr Fernandes e pai do atual editor-chefe de "O Globo", Rodolfo Fernandes. Hélio impôs uma condição: "Quero total independência na linha editorial". "Mas não posso nem palpitar?", perguntou Adolpho. "Não. Só vai ver a revista depois de impressa." Deu certo: a revista voltou a crescer e a dar lucro. Tinha colaboradores como Fernando Sabino, Rubem Braga, Antônio Maria, Leon Eliachar, Ibrahim Sued e Carlinhos de Oliveira.

Apesar do sucesso, a empresa estava sempre descapitalizada, mas Adolpho era craque na arte de explorar os atentíssimos bancos. Relata Arnaldo: "E, na arte de tirar dinheiro de pedra, ele era o rei. Criou um notável sistema de compensação de cheques, geralmente envolvendo o Banco do Brasil e o Banco de Crédito Real de Minas Gerais, na Praça da Bandeira. A coisa funcionava mais ou menos assim: depositava o cheque descoberto do Crédito Real no caixa do Banco do Brasil; fazia o saque, na confiança, com o gerente, que segurava o cheque até ele cobrir o saldo; cobria o saldo no Crédito Real com um outro cheque, este do Banco do Banco do Brasil, contando com a paciência do respectivo gerente; voltava ao Banco do Brasil e começava tudo de novo". Daria, como se vê, um puta financista.

Um dia, com as torneiras fechadas pelos banqueiros, Adolpho atacou o caixa do boteco do Joaquim. "Você está rico, Joaquim. Eu estou morrendo." "Morrendo de quê? O senhor está até corado!" "Me dá!" "Não dou, seu Adolpho!" "Você não era nada, eu te salvei, te dei freguesia!" "Com todo o respeito, isso não lhe dá o direito de dispor do meu caixa!" "Me dá!" O relato de Arnaldo: "Num acesso, passou pela portinhola sob o balcão, invadiu a tasca, tirou o Joaquim do caminho e avançou sobre o caixa". A caminho do banco, Adolpho gritou: "Joaquim, você é um santo. Deus vai te pagar. E ieu [como dizia eu] também".

Noutra ocasião, em Roma, Adolpho encontrou o poeta Paulo Mendes Campos e disse: "Amanhã vamos ver o homem." "Que homem?", perguntou Paulo. "Na janela. Ele aparece todo dia." "Adolpho, você é judeu e eu sou poeta!" "Judeu, poeta, todo mundo tem que ver o papa."

Foram ver o papa Pio XII. "Quando o velhinho deu as caras e o povo o saudou, Paulo, que cochilava em pé, acordou assustado. A seu lado, Adolpho, de braços esticados, brandia, na direção da janela papal, um grosso maço de papel." Paulo inquiriu: "Que merda é essa, Adolpho?" "Depois eu explico." Só foi explicar um mês depois. Adolpho convocou Paulo e passou a conversar, por telefone, com o banqueiro Magalhães Pinto, do Banco Nacional. "Magalhães? Espera um minutinho que o poeta Paulo Mendes Campos vai falar." E recomendou ao poeta: "Diz pra ele, Paulinho, quem abençoou as duplicatas". "Foi o papa", disse o escritor. "Meia hora depois o portador do banqueiro veio buscar os papéis que ele endossou, pessoalmente, um a um", conta Arnaldo.

O poeta Ferreira Gullar era revisor da "Manchete" e Otto Lara Resende convocou-o para militar na redação. "Não pode, iele [ele] é revisor", barrou Adolpho. Lara Resende insistiu: "Adolpho, este revisor é um dos maiores poetas brasileiros, em nascedouro!" O empresário contra-atacou: "Mas é revisor". Certo dia, com Rubem Braga de porre, Gullar escreveu sua crônica. "Otto, adorei a última crônica do Rubem", disse Adolpho. "Pois saiba, Adolpho, que esta crônica do Braga na verdade foi escrita pelo revisor Ferreira Gullar."

O jornalista e político Carlos Lacerda atacava Samuel Wainer e também o judeu Arnaldo Bloch. Mas as irmãs de Adolpho adoravam o udenista. "Eu não voto no senhor, mas elas sim", confidenciou Adolpho. Mina, uma das irmãs de Adolpho, "passava horas assistindo aos discursos na tevê. O sobrinho Leonardo implicava. Punha-se na frente da televisão, checava se havia alguém por perto e mostrava o peru". "Olha o Lacerdaaaa!".

Depois do golpe civil-militar de 1964, "numa recepção para militares cinco estrelas para a qual alguns homens de imprensa são convidados, Adolpho conversa com Manuel Francisco do Nascimento Britto, do ´Jornal do Brasil´. Diz-lhe: ´Ieles [eles] não vão sair cedo de Brasília.´´Como é que você pode ter certeza, Adolpho?´´Olha a alegria das mulheres dos generais. Você tem alguma dúvida?´"

Leal ao senador Juscelino Kubitschek, que teve seus direitos políticos cassados, Adolpho foi, segundo Arnaldo, a "voz fundamental a convencê-lo a partir para o auto-exílio". Chegou a arriscar "a pele para ajudá-lo". "´Tem judeu afrontando a Revolução´, mandaria dizer dona Yolanda Costa e Silva, instalada no camarote vizinho ao de Adolpho, no Carnaval do Municipal, em 1965, quando o público cantou em peso o ´Peixe Vivo´e o russo acompanhou. O tumulto foi tal que, na saída, a primeira-dama levou até mão na bunda da irreverência popular. Leal ao cliente e contumaz descontador de duplicatas, o golpista Magalhães Pinto procuraria Adolpho para avisar que estavam querendo prendê-lo. Um militar da altíssima, cruzando no calçadão da Atlântica com um sobrinho do editor, exaltaria a coragem do homem: ´Você não é sobrinho do Bloch? Pois vou dizer: ele tem colhão´". Naturalmente, apesar da proteção a JK, Adolpho não fez oposição à ditadura. Pelo contrário, pragmático, integrou-se à tese do "Brasil potência".

Em 1976, JK disse ao amigo: "Quer saber, Adolpho? Bateu saudade da Maria Lúcia [Pedrosa, amante do mineirinho]. Vou de carro para o Rio". "Não faz isso, presidente. Vai de avião", sugeriu o dono da "Manchete". Morto o presidente bossa nova, Carlos Lacerda visita Adolpho e, aos soluços, o abraça. "´Ele era realmente um grande estadista´, lamentou, em lágrimas de crocodilo", escreve Arnaldo.

A hora da novela — Chatô e Roberto Marinho foram decisivos para a consolidação da televisão brasileira. Mas Adolpho também deu sua contribuição. A Manchete, pelo menos no início, talvez tenha sido a primeira televisão intelectualizada do país. O "Jornal da Manchete" teria chegado a influenciar até mesmo o jornalismo da Globo. Era mais penetrante. Mas Adolpho rompeu o trato com o doutor Roberto: "Agora ieu [eu] quero novela".

Não há dúvida de que a Globo é responsável pelas melhores novelas do país. Mas a Manchete foi a tevê que mais chegou perto do padrão globo de qualidade, eventualmente, superando-o. Como Adolpho queria novela, o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony assumiu o comando do núcleo de teledramaturgia. A minissérie "Marquesa", sobre a marquesa de Santos, estrelada pela bela Maitê Proença e por Gracindo Jr., alcançou sete pontos de audiência.

A primeira novela foi "Dona Beija", com texto de Walter Aguiar Filho e direção de Herval Rossano. Com Maitê e Gracindo, a novela fez sucesso. "Chegou a bater, numa noite boa, o especial de Chico e Caetano, na Globo. O prestígio crescia, assim como as dívidas. No governo Sarney, chegou a 30 milhões de dólares. Desorganizado, Adolpho foi roubado por funcionários espertos.

Mais tarde, com a dívida se aproximando dos 100 milhões de dólares, a Manchete, ou seja, Adolpho, investiu mais dinheiro numa grande produção, "Kananga do Japão", com roteiro de Cony, texto de Wilson Aguiar Filho, direção de Tizuka Yamasazi (Arnaldo escreve "Yamakazi") e estrelas do porte de Tônia Carrero, Sérgio Brito, Cláudio Marzo, Julia Lemmertz, Christiane Torloni.

Para tentar encher os cofres, Adolpho contratou José Wilker para a dramaturgia, ou seja, mais novelas. Ele articulou "Corpo Santo", "Helena", "Carmen" e "A Rainha da Vida".

O grande lance de Adolpho foi mesmo a novela "Pantanal", de Benedito Ruy Barbosa, direção de Jayme Monjardim e estrelada pela atriz Cristiana de Oliveira. Manchete gastou 10 milhões de dólares em sua produção. "O que não se esperava era que, já nos primeiros capítulos, ´Pantanal´marcasse 40 por cento de audiência, superando em dobro os picos de novelas anteriores, e batendo a Globo de goleada. (...) Com uma audiência daquelas, a Globo tinha que reagir. Passou a atrasar ´Rainha da Sucata´em uma hora, para fazer frente. Não adiantou: se a audiência ficou mais dividida, a surra de ´Pantanal´era diária, e duraria os dez meses sucessivos em que esteve no ar. Um massacre. Feito considerado impossível desde sempre e até o fim dos tempos. E que de tal forma marcaria a história da televisão brasileira que, desde essa época, a tradicional novela das oito da Globo começa às nove", escreve Arnaldo, com uma pontinha de prazer e orgulho.

"Pantanal" deu dinheiro, "mas", diz Arnaldo, "ficou um gostinho de que poderia ter sido uma enxurrada: como a tabela de publicidade fora calculada para uma audiência trinta pontos menor, os anunciantes faziam fila para anunciar por aquele precinho. Para tentar compensar o prejuízo relativo, Benedito Ruy Barbosa era obrigado a alongar os capítulos, e as seqüências de paisagens e de receitas caseiras começaram a tomar conta da trama. Sem, contudo, afetar a audiência".

Outra jogada acertada da Manchete foi o lançamento da modelo e manequim Xuxa Meneghel, que, com aquele jeito de menina-menino, encantou as crianças e mesmo os adultos como apresentadora do "Clube da Criança".

Depois de "Pantanal", mesmo com outras novelas, como "Ana Raio e Zé Trovão" e "Amazônia", a Manchete afundou.

No início da década de 1990, por conta de papagaios impagáveis, Adolpho decide vender a Manchete. O senador pelo Distrito Federal Paulo Octávio, hoje no DEM, um dos mais empedernidos colloridos, entra no páreo para comprá-la. A entrevista de Pedro Collor à revista "Veja", denunciando "o esquema de corrupção" supostamente "capitaneado" pelo presidente da República, detonou a venda da Manchete. Adolpho decidiu negociá-la com o grupo que dirigia o Instituto Brasileiro de Formulários (IBF), do empresário Hamilton Lucas de Oliveira, ligado a PC Farias. O impeachment de Collor derrubou o negócio. Em 2000 Jaquito, o herdeiro de Adolpho, "assinou a falência de Bloch Editores". Era o fim.

Uma prova de que os poderosos tratam a imprensa, sobretudo a que está caindo, com o maior desrespeito está na descrição do encontro de Adolpho e o presidente Fernando Collor. O empresário diz: "Presidente, eu estou no fim". Collor é seco: "O senhor está no fim e eu estou no começo. Com licença". Os dois estavam no fim, a diferença é que Bloch sabia e Collor, não.

Há dois errinhos no livro. Arnaldo chama Paulo Octávio de "Otávio" e diz que Paraíso do Norte fica no Tocantins. Quando era Paraíso do Norte, a cidade ficava em Goiás, mas, com a fundação do novo Estado, passou a ser chamada de Paraíso do Tocantins, e não fica no Norte do Estado. Arnaldo conta que Adolpho e Hélio Wrobel criaram a fazenda Bloch-Wrobel na terra do governador Marcelo Miranda.

De resto, uma conclusão óbvia: não se faz mídia no Brasil, em São Paulo, locomotiva do País, ou em Goiás, sem recursos públicos.


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