Iza não ouve bancos vazios. De pé no terminal de linhas urbanas, permanece abraçada à pasta de apostilas do curso supletivo. De outra plataforma um homem a observa, mas não sabe que ela deixa partir seus ônibus antes de se decidir a voltar para casa.
A história de Iza é bonita e triste, mas se a escrevesse restaria somente triste, se triste for a história de uma moça que sai do interior para melhorar de vida. De segunda a sexta ela deixa partir seus ônibus porque há grandes meses presenciou o desaparecimento de Paulo, o rapaz vidrado em conteúdos e de voz escovada que conhecera no curso supletivo. Eles passaram a pegar juntos o ônibus das 22 horas após a aula, ele descendo logo depois da Ponte Nova, no Bairro Azul, ela seguindo até o Bairro Marrom, onde morava com a tia.
Às vezes também acontecia de se encontrarem na vinda, na mesma linha, e foi num desses dias, momentos depois de descerem no terminal, que Paulo se apercebeu de que no ônibus esquecera tabelas demonstrativas. Correu de volta e Iza ainda o viu conversando com o cobrador dentro do carro já de novo em movimento. O ônibus retornava, fugindo em direção à noite, e ela nunca mais viu o companheiro.
No sonho, ao deixar a ponte e ganhar o continente, o ônibus desce à direita e contorna a curvatura de um balcão de fórmica branca, num local onde funciona a vapor uma firma de gelo. Atrás do balcão, um alemão albino, de olhos de coelho e camisa branca, não resolve em nada o mistério. E não vejo mais o sonho na entrada de um túnel, que começa na realidade debaixo da cabeceira da velha ponte de aço, a Ponte Velha, paralela à Ponte Nova, de concreto.
Hoje ela deixa partir seus ônibus e não sabe que alguém a observa.
Para se distrair quando chega em casa, Iza assiste ao seriado Barnaby Jones. Poucas vezes como agora, ela se viu sozinha na casa da tia. Há pouco, na hora da propaganda, foi até a cozinha buscar o pedaço de bolo que comprara na padaria, mas o gosto não é como esperava: ela se deixou levar pela cobertura de glacê branco de açúcar salpicado de bolinhas coloridas. Menina, ela ganhava uma ou duas talhadas de um bolo assim enfeitado nas barraquinhas de festa da igreja.
Para o futuro, haverá de se lembrar de Barnaby Jones. Ele desce do seu automóvel de grandes calotas e o contorna pela frente, seguindo em direção a um jardim que só acontece nos Estados Unidos. Depois do jardim sabemos que há uma casa vazia e agora Barnaby Jones diz ao assistente uma frase com chefatura de polícia. Não tem a pressa que a situação demanda, mas também sabemos que isso é próprio dos detetives. Iza gosta de se lembrar de Bar e de Jo não à esquerda mas sim na frente de naby e de nes, como ouvira de uma voz na televisão que anunciava mais do que são as duas tônicas iniciais. Falar assim Barnaby Jones é como explodir jabuticabas, tapa em pudim de baunilha, mergulho de pés em tanque de folhas.
O detetive americano se movimenta na estante que Iza admira. É como se ela se perguntasse: quando vemos beleza onde outro não vê, será que Deus é isso? O que é bonito é o que gostamos? Hóspeda ou aparição, Iza transporta-se na casa da tia. Dali a pouco ela, que não sabe que existe a palavra madornar, vai-se logo adernando nas águas do sono… se livra… se perde embaixo da ponte de aço… Sob um nevoeiro de chuvisco, um bote avança: que destino perseguem Barrica, muito rosado, e ela, a indiazinha? Ondas de seda, ventos importantes, nuvens de nuvens. Barrica, empanturrado de paciência, não sabe remar: o bote balança, é longe a Terra do Nunca. Porto inseguro nas rotas do sonho. Refúgio seguro na hora da morte. Assim como eu, Iza não sabe sonhar. Senhor dos seus sonhos, deságuo neles ramos de orações, consagrações ao sagrado, para sempre cravado em corações encolhidos neste vale de lágrimas.
Assim como eu, Iza não é mais religiosa, mas ela não sabe disso e sonha que a levam pela mão por uma rua com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante para o meu, para o meu amor passar. Em vigília, aguardará todos os seus anos o retorno de Paulo e na hora da morte se lembrará de uma frase com bolo enfeitado que alguém diz segurando sua mão de menina. Eu, tu, o que nunca esqueceremos? Minha mãe cortava, com faca de mesa, pão de ló fofo no prato, e assim não esquecerei dois ou três toques da lâmina na louça? Minha irmã, ali a meu lado, talvez não se lembrará disso, mas se lembrará de algo que esqueci.
Quando minha mãe ia à Cidade, pedíamos e meu pai fazia gemada: batia bem batida a gema com açúcar e no final acrescentava farinha de mandioca. Quando meu pai ia à Cidade, pedíamos que nos trouxesse um docinho, e bem podia vir uma cocada, uma queijada, maria-mole, suspiro e até chocolate. Às vezes ele trazia debaixo do braço um caixotinho de madeira de uva, uma das frutas mais apreciadas na Nossa Localidade; bastava a uva não falar mal de ninguém para virar pedra de açúcar na boca de toda a gente.
Minha vó, que morava em Outra Localidade, também via as uvas, o que era engraçado. Queres um comezinho, não queres?, um golpinho de café?, ela afirmava quando íamos a sua casa. Lá e lá em casa, no café bolinho de banana acho que era o melhor, mas era bom também o bolinho de trigo, feito só de água, trigo e açúcar e que parecia orelha de orelhudo. E o bolinho de ovo, então? Este era o bolinho estufado, ou estufadinho, como passamos a chamá-lo. Acho que esse era melhor. Tudo isso, esses fomentos, nunca esquecerei?
Comer, comer; comer, comer é o melhor para poder crescer: ouço por agora, mas é como se fosse antes, o estribilho do Brazilian Genghis Khan que leva de baldão os espíritos que encontra pela frente. Vatapá, caruru, mungunzá: sei que é de comer, de ouvir cantar; mais não sei, nunca fui à Bahia, o Brasil é um país de muitos itens, romaneios… O Brasil, o mundo, não consigo alcançar, pensa Iza, que se deixa levar, como no sábado de seu aniversário, quando ouve que voava do serviço de som do supermercado a música The Lady in Red, parece que na voz do próprio Chris de Burg. Iza tinha a sensação de serem dirigidas a ela, que não compreendia, as músicas de fundo em inglês que ouvia ao adentrar amplos recintos, e então a imaginei no corredor do Supermercado Melhor, desiludida, ou iludida com os sons do idioma da dama de vermelho e suas vestes esvoaçantes… Pensando melhor, não sei dizer isso bem… Não era desilusão que sentia, mas também não se iludiria, imagino, com o que a rodeava.
Com lembranças de noites de frio, quermesses e histórias que sempre ouvira sobre seus pais, Iza deixava-se levar sem desilusões e não eram ilusões as invasões que a mantinham livre. Não fora esperança que a fizera deixar partir seus ônibus antes de se decidir a voltar para casa — até onde ia uma onda que a invadia, ela permanecia em suspensão. Desde o desaparecimento de Paulo e suas dissertações, Iza ficou sem querer saber o que ouvia. Paulo, cursado também em inglês, uma vez começara a traduzir para ela a canção Greensleeves, que Olivia Newton-John cantava na Rádio Vespertina: Alas, my love… Ai, meu amor, você me leva aos erros… Greensleeves was all my joy… Mangas verdes são toda minha alegria… E quem senão minha dama das mangas verdes…
De sopesar pensamentos Iza menos se ocuparia, e mais fluente flutuaria o seu sonho por entre as brumas da melodia, se ela viesse a descobrir o que — afoito e, com o equívoco, desconcertado — eu também não descobri de início ao traduzir a letra: que em Greensleeves não são frutos, tropicais, o que se chama de mangas verdes. Com a descoberta, se descortinam eleições de textura e texto (veludo, seda, cetim, enfim…) na corte de Henrique VIII, a quem se atribui a composição em que refere as vestes da amante, Ana Bolena.
Na Estação Primeira, cabrocha revestida desabrocha, drapeja com engenho e arte o estandarte — evoluem em harmonia os componentes, cantam junto ao puxador o samba-enredo, pautado em lendas de amores não correspondidos. Me leva que eu vou, sonho meu; atrás da Verde-e-Rosa só não vai quem já morreu. Na Estação Leopoldina, liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós. Com licença, Chiquinha: liberdade, abra as alas que eu quero passar, por entre esses vultosos silêncios das alegorias (feições de flautas, harpas, gaitas de fole, cravos, violões) sob o som de cuícas, chocalhos, surdos, pandeiros, tamborins…

