Gregory Jacobs conduz “Estrada Maldita” sem tentar disfarçar o desconforto inicial daquela viagem. A estudante interpretada por Emily Blunt aceita a carona de um colega de faculdade, vivido por Ashton Holmes, para sair da universidade, na Pensilvânia, e voltar a Wilmington, em Delaware, na véspera do Natal. Já nos primeiros minutos dá para sentir que há algo errado ali. O rapaz fala demais, conhece coisas sobre ela que não deveria conhecer e ocupa o carro de um jeito insistente, como se a viagem tivesse sido armada bem antes de começar.
Isso aparece em detalhes bem comuns, e talvez por isso incomode tanto. Na parada do posto, quando ela fica presa por alguns instantes no banheiro e volta irritada para o carro, o mal-estar já está inteiro na tela, sem susto, sem correria, sem truque. Blunt segura essa parte com pouca coisa, um olhar torto, uma resposta seca, o corpo meio recolhido no banco. Não precisa fazer mais. O desconforto vai crescendo dentro daquele carro antes mesmo de a neve fechar o caminho.
Atalho e frio
Quando o rapaz larga a rota principal e insiste num atalho por uma estrada secundária, o filme estreita tudo ao redor dos dois. Mata de um lado. Neve do outro. No meio, um carro em que ninguém consegue descansar por um segundo. O acidente vem logo depois, quando um veículo surgido na direção contrária joga o automóvel para fora da pista e os deixa presos no gelo, sem ajuda, sem saída fácil, sem proteção real contra o frio. Jacobs acerta em cheio ao tratar o inverno como coisa concreta, não como enfeite de filme de terror. O frio entra como ameaça de verdade, atrapalha o corpo, mexe com a cabeça, vai empurrando cada decisão para um terreno mais curto e mais bruto.
Só que o problema não está só do lado de fora. A garota descobre que o rapaz mentiu sobre a própria vida e montou a carona para se aproximar dela, e isso torna o banco do passageiro quase tão ruim quanto a estrada onde os dois ficaram atolados. Os personagens nem recebem nomes, são só Girl e Guy, o que combina com aquela situação reduzida ao osso, confiar, não confiar, voltar para o carro, atravessar a neve, aguentar o frio, decidir se ainda dá para ficar perto de alguém que começou tudo na mentira. Nada ali oferece abrigo. O filme acerta ao não tentar enfeitar essa relação nem explicar demais o que já está claro na postura dos dois, no silêncio, na irritação e na hesitação a cada passo.
A estrada insiste
É aí que a estrada deixa de ser apenas um lugar ruim para quebrar o carro. O trecho passa a carregar crimes e mortes desde os anos 1950, e a figura de um patrulheiro começa a surgir ao redor do automóvel como se aquela curva estivesse presa na mesma madrugada havia décadas. A parte sobrenatural entra sem apagar o que veio antes. Pelo contrário. Pesa mais porque já encontra os dois exaustos, com frio, sem saída e envenenados pela mentira que estava sentada entre eles desde a partida. A música de Natal “Rockin’ Around the Christmas Tree” corta essas aparições com um efeito especialmente desagradável, como se a ideia de volta para casa já tivesse apodrecido na beira da estrada.
“Estrada Maldita” não depende de barulho, de excesso de efeito ou de fala explicativa para segurar a tensão. Gregory Jacobs trabalha com pouco espaço, poucos corpos e quase nenhum refúgio, e isso dá ao filme uma dureza que combina com o que está acontecendo. Emily Blunt segura a linha do medo sem transformar a personagem em vitrine de sofrimento. Ashton Holmes mantém o incômodo necessário para que a proximidade entre os dois nunca pareça segura. Martin Donovan entra como parte desse passado grudado na estrada, reforçando a sensação de que o carro parou num lugar onde a violência antiga nunca saiu de cena.
O que fica de “Estrada Maldita” vem dessa combinação ruim de coisas bem simples, uma carona errada, um atalho idiota, um carro jogado para fora da pista, o frio apertando sem pausa e uma estrada que parece continuar guardando seus mortos no acostamento. Jacobs sabe que esse material pede contenção. Não transforma cada aparição em clímax nem tenta fazer de cada fala uma grande revelação. O filme vai ficando aos poucos, num desgaste insistente, como se o erro tivesse começado lá no campus, seguido pela rodovia e ido parar inteiro naquele carro imóvel, coberto de neve, com a maçaneta travada pelo gelo.

