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Encontrei Alice na sala de espera de uma clínica médica. Aguardava a sua vez com o psiquiatra. Era uma mulher bonita, mas, parecia ter envelhecido vinte anos em dois.

— Oi, Alice. Como vai?

— Oi, feioso. Se eu te contar você vai dizer que Deus tá de sacanagem comigo.

Sorrimos.

— O que foi dessa vez?

— Você sabe que o Mauro continua em coma, certo?

Mauro era um odontólogo renomado. Morava numa casa confortável com Alice e inventou de fazer uma daquelas coisas que os homens geralmente fazem quando estão ociosos em casa aos finais de semana. Subiu no telhado para tirar uma goteira, desequilibrou, caiu, quebrou a cabeça e nunca mais acordou. Fazia dois anos que era mantido em casa, sob cuidados intensivos, em estado vegetativo, sem conexão com nada, a não ser com as sondas e com os cateteres que ajudavam a prolongar a sua existência miserável.

— Vou te contar da última, mas, por favor, não espalhe.

— Eu prometo.

Obviamente, menti. Vícios de um escritor.

— O Mauro não melhora, nem piora. Ele sequer abre os olhos. Às vezes, surgem uns espasmos musculares no rosto e as pessoas acham que ele está interagindo, querendo acordar, sabe como é.

— Quem sabe, acorda mesmo?

— Não seja tolo. Você é médico e sabe que isso não vai acontecer. Tem uma equipe que me ajuda a cuidar dele. Sozinha é impossível. Graças a Deus, temos uma boa reserva financeira. Você sabe que é caro pra cacete manter essa turma de cuidadoras.

— O que foi que aconteceu, Alice?

— Nem te conto. Na semana passada, eu saí pra comprar umas coisinhas lá pra casa, mas, esqueci o cartão de crédito. Então, voltei antes do tempo previsto. Cara, você não vai acreditar…

— Conte logo, Alice.

— Entrei em casa. Peguei o cartão que estava sobre o móvel da sala. Fazia um silêncio sepulcral. Cismei de dar um pulinho no quarto do Mauro e… Putz! Que droga!

— O que foi, Alice?

— Não é de ver que uma das meninas, uma das mais antigas, uma pessoa que eu tanto gostava, estava fazendo sexo oral no Mauro?

— Tá de brincadeira, Alice.

— Eu quero que esse teto caia na sua cabeça se eu estiver mentindo.

— Puta merda.

— Pois é. Peguei ela no flagra, com a boca na botija, ou melhor, com a boca nas coisas do Mauro.

— Que merda.

— Bota merda nisso.

— E aí?

— Uai, não teve outro jeito. Depois de esgotar o arsenal de palavrões, tive que mandar a mulher embora. Ela pediu perdão, catou as coisas delas e vazou. Daí, eu fiquei sentada que nem uma panaca, olhando para o Mauro, chorando mais do que noiva em noite de núpcias.

— Deixe de ser besta, Alice.

Sorrimos outra vez.

— Paciência. Eu já tava fodida mesmo.

— Você é uma mulher guerreira, Alice. Pode acreditar.

— Mais ou menos. Não posso nem pensar em largar do pé do seu colega psiquiatra, senão, eu piro de vez.

— Você sempre foi meio doidinha.

— Depois que o bocó do seu amigo se acidentou, pensei que eu fosse surtar, mas, acho que estou me saindo bem.

— Você, com certeza, está se saindo muito bem, Alice.

— Quisera estivéssemos morando em Amsterdã.

— Amsterdã? Por quê Amsterdã?

— Eutanásia.

— Eutanásia?

— O Mauro não merecia isso, doc.

— Vai dar tudo certo, Alice.

— Ele te amava muito.

— Eu sei disso.

— Por que o desgraçado tinha que subir no telhado?

Abraçamo-nos. Choramos um pouquinho. E ela, finalmente, foi chamada para entrar no consultório número 6, encerrando a história.

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.

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