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Dirigido por Oliver Hermanus e escrito por Kazuo Ishiguro, “Viver” reúne Bill Nighy, Aimee Lou Wood, Alex Sharp e Tom Burke em torno de um homem que passou décadas reduzido à rotina de uma repartição londrina. Tudo começa em 1953. No County Hall, entre pilhas de papel, o sr. Williams recebe um diagnóstico terminal, se cala diante do filho e da nora e vê o tempo restante invadir uma vida regida por carimbos, protocolos e pela repetição muda do escritório. Bill Nighy quase não se mexe, e esse retraimento, preso a uma mesa, a um chapéu e à travessia diária pelos corredores, já dá ao personagem um peso triste antes mesmo que a doença seja nomeada.

O peso do escritório

A secura aparece cedo. O pedido de um grupo de mães que quer transformar um terreno bombardeado em parque infantil é empurrado de sala em sala, como se a guerra ainda ecoasse nos departamentos, e Peter Wakeling, o novato que chega ao setor, ajuda a medir a naturalidade com que a papelada substituiu qualquer urgência. O enquadramento estreito e a paleta sem brilho comprimem mesas, pastas e janelas, e Oliver Hermanus filma o escritório como um lugar onde o tempo parece emperrado. Essa compressão combina com um homem que passou anos aceitando o mundo na forma de formulários.

Quando Williams se afasta do expediente e foge para uma cidade litorânea, acompanhado por um escritor boêmio, a mudança de cenário não produz libertação imediata. Nada se solta de verdade. A noite de pubs, bebida e diversão forçada carrega um constrangimento visível desde o início, porque o balneário, as canções e os bares esbarram num corpo acostumado à disciplina e ao cálculo. Mesmo fora de Londres, ele continua tenso, medido, com o rosto de quem observa mais do que participa, e Tom Burke, como esse guia barulhento da madrugada, amplia a distância entre impulso e paralisia.

O parque e a urgência

A aproximação com Margaret Harris reorganiza esse desvio por um caminho mais simples e mais terreno, ligado não a grandes gestos, mas à sensação de companhia e ao movimento pela cidade. Ela muda o passo dele. Ex-colega expansiva, vista com estranheza quando passa a encontrá-lo fora do escritório, Margaret recoloca Williams diante de uma forma concreta de presença humana, enquanto a lembrança do filho e da nora, mantidos à margem da notícia, continua pesando sobre cada saída e cada silêncio. Aimee Lou Wood ilumina o quadro sem sentimentalismo, e esses encontros deslocam Williams da resignação imóvel para a possibilidade de fazer alguma coisa com o pouco tempo restante.

É então que o projeto do parquinho ganha corpo, não como ideia grandiosa, mas como resposta prática a um terreno destruído, ao pedido insistente das mulheres e à lentidão da máquina pública. A escala é pequena. O homem que até ali assinava, arquivava e adiava passa a circular por salas, balcões e repartições com outra urgência, e “Viver” encontra força justamente nessa medida modesta, na insistência sobre um espaço reduzido, um parque para crianças, um lote esquecido no pós-guerra. Bill Nighy trabalha com pausas, desvios de olhar e recuos mínimos, sem arredondar Williams em santidade tardia, e por isso cada avanço dele pesa mais do que qualquer declaração enfática.

Também pesa a escolha de espalhar o olhar para os colegas e para quem fica por perto, porque Williams não é cercado por discursos explicativos, e sim por gente que tenta recompor seus últimos movimentos a partir do escritório, da cidade e daquele parque infantil. Ninguém diz tudo. O consultório onde o diagnóstico é dado, a circulação do pedido das mães, os encontros com Margaret e a observação de Peter compõem um drama contido, sem inflação de gesto e sem ornamento, sempre colado a lugares, hábitos e relações visíveis. Ao fim, fica a imagem daquele homem vindo do County Hall, passando pela noite de pubs e voltando ao parque, com o casaco escuro, o banco frio e o ferro do balanço rangendo no inverno.


Filme: Viver
Diretor: Oliver Hermanus
Ano: 2022
Gênero: Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
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