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O que começa como um luto silencioso em uma casa comum dos Estados Unidos, no presente, logo se transforma em algo mais difícil de nomear em “Hereditário”, dirigido por Ari Aster. Annie Graham, vivida por Toni Collette, tenta reorganizar a vida após a morte da mãe, mas percebe que a perda não encerra nada, pelo contrário, parece inaugurar uma sequência de acontecimentos que afetam diretamente seu marido Steve (Gabriel Byrne) e os filhos Peter (Alex Wolff) e Charlie (Milly Shapiro). O “por quê” vai se revelando aos poucos, sempre com a sensação de que algo antigo continua em curso, mesmo depois da morte.

Annie começa tentando fazer o que qualquer pessoa faria: seguir em frente. Ela cuida da casa, volta ao trabalho criando miniaturas detalhadas de ambientes familiares e tenta manter uma rotina mínima. Mas existe um ruído constante, não exatamente um som, mas uma presença. A mãe, descrita como uma mulher difícil e reclusa, parece não ter saído completamente de cena. Annie não fala isso em voz alta no início, mas age como quem desconfia de algo errado, e isso já altera o clima dentro de casa.

A família

Steve tenta segurar as pontas com uma postura prática. Ele tenta evitar conflitos maiores. Só que sua estratégia tem limite: quanto mais Annie insiste que há algo fora do lugar, mais ele se vê obrigado a escolher entre confrontar ou ceder. E ele cede mais do que gostaria, o que enfraquece sua autoridade dentro da família. Isso não resolve o problema, apenas adia.

Peter, o filho adolescente, tenta escapar. Ele sai de casa, encontra amigos, busca qualquer distração que o afaste daquele ambiente carregado. Só que a distância não funciona como proteção. O que acontece dentro da casa começa a atravessar sua rotina, afetando seu comportamento e sua capacidade de reagir. Ele não entende o que está acontecendo, mas sente o peso das consequências. E isso aparece nas pequenas decisões, sempre com algum custo imediato.

Charlie, por sua vez, é um enigma constante. Interpretada por Milly Shapiro, ela não se encaixa no padrão esperado de uma criança da sua idade. É introspectiva, distante, parece operar em outra frequência. Annie tenta se aproximar, mas encontra um bloqueio quase absoluto. E há um detalhe importante: a avó tinha uma relação muito próxima com Charlie, algo que nunca foi totalmente explicado. Esse vínculo passa a ganhar outro significado conforme os acontecimentos avançam, e isso desloca o centro da tensão para a menina.

Lidando com o luto

Em um momento de fragilidade, Annie aceita a sugestão de buscar conforto em algo além do racional. Ela participa de um encontro e entra em contato com práticas espirituais que prometem algum tipo de comunicação com quem já morreu. Não é uma decisão impulsiva, é quase um último recurso. Annie quer respostas, quer entender o que está acontecendo, quer retomar algum controle. Só que, ao levar essa experiência para dentro de casa, ela altera completamente o equilíbrio do ambiente.

Steve reage. Ele tenta impedir que aquilo avance, questiona, confronta, coloca limites. Mas já é tarde para um retorno simples. O que começou como uma tentativa de consolo passa a interferir diretamente na dinâmica familiar. Annie insiste, porque acredita que está perto de descobrir algo essencial. Steve resiste, porque vê o risco crescer. E Peter fica no meio, absorvendo o impacto sem ter ferramentas para lidar com ele.

A casa deixa de ser um espaço neutro. Cada cômodo parece carregar uma tensão própria. As ações dos personagens deixam de ser apenas reações ao luto e passam a responder a algo mais concreto, ainda que invisível. Annie começa a investigar o passado da mãe, revisita objetos, tenta montar uma linha lógica que conecte os eventos. Ela busca uma explicação, mas encontra um histórico que complica ainda mais o presente.

Há um momento em que tudo parece prestes a voltar ao controle, e o filme faz questão de mostrar isso com calma, quase como um respiro. Mas é um respiro curto. As decisões acumuladas cobram um preço, e a família já não consegue mais agir como um grupo coeso. Cada um responde de um jeito, com prioridades diferentes, e isso fragmenta qualquer tentativa de solução.

Método

Ari Aster conduz essa história com uma frieza que chacoalha o espectador justamente por não precisar exagerar. Ele segura informações, mostra apenas o necessário, e deixa que o desconforto cresça no tempo certo. Não há pressa em explicar, nem interesse em tranquilizar. O efeito disso é direto: o espectador acompanha personagens que tomam decisões compreensíveis, mas que produzem consequências cada vez mais difíceis de conter.

“Hereditário” não depende de sustos para impressionar. O que leva a história são escolhas, pequenas, insistentes, quase sempre feitas na tentativa de resolver algo imediato. E é aí que o filme encontra seu ritmo: cada tentativa de controle abre espaço para algo maior escapar. Quando Annie volta ao seu ateliê e monta mais uma cena em miniatura, a sensação é clara, ela ainda tenta organizar o mundo à sua maneira, mas o mundo real já não aceita esse tipo de ajuste.


Filme: Hereditário
Diretor: Ari Aster
Ano: 2018
Gênero: Drama/Mistério/Suspense/Terror
Avaliação: 5/5 1 1
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