O destino nos prepara surpresas, e muitas dessas surpresas se traduzem por fracassos retumbantes, que por seu turno escondem grandes oportunidades quanto a descobrir novos caminhos para se alcançar resultados com que se sonha há muito — desde que não se tenha medo da violência das ondas. Conservar a própria essência ao passo que se buscam as condições necessárias para a mudança é um dos grandes mistérios do existir, e por essa razão mesma, atingir esse alvo muitas vezes pode ser uma odisseia. Uma sucessão de eventos misteriosos preenche os 86 minutos de “Mar Profundo”, drama todo feito de personagens à deriva. Liza Bolton atribui a cada uma dessas figuras tristes uma alma sequiosa de compreensão, que não podem encontrar por um motivo.
Barco sem vela
Vencer a tragédia é, em muitos casos, mais uma questão de pragmatismo que de vontade. Há que se passar por cima de sentimentos inexpugnáveis, que barram os passos que se teria de dar para que a vida recupere sua dimensão nobre. Mara vê a praia de longe, e dela tira as impressões muito pessoais com que pinta seus quadros, registros do pânico que sente da ira oceânica. Rory, seu marido, pelo contrário, ganha a vida enfrentando as águas furiosas que banham a Irlanda, até sumir durante a expedição em que recolheria organismos para um estudo. Passados três meses, as autoridades do vilarejo dão as buscas por encerradas e nenhum consolo alcança essa mulher, vulnerável a ponto de ver Rory em todo lugar e se convencer de que há um crime por trás desse tormento.
Profundezas
Quase tudo no filme é bastante previsível, mas a diretora-roteirista contorna as várias limitações narrativas com a bela fotografia de Alex Veitch, que lança mão de um onipresente azul esmaecido a fim de ressaltar a melancolia contagiosa de Mara. Dosada, a performance de Connie Nielsen tem o condão de manter-se entre o desalento e uma esperança quimérica, tão absorvente que ofusca o restante do elenco, a começar pelo próprio Lochlann O’Mearáin, que não empolga na pele de um personagem ingrato como Rory, que exige mesmo um fôlego a mais. “Mar Profundo” é instável, mas não chega a enjoar.

