Discover

Há quem fuja do amor, outros tentam distanciar-se das próprias escolhas, enquanto a verdade, feito o sol, não só ilumina como queima. Essas evasivas só fazem prolongar os arcaicíssimos embates que alguém trava consigo mesmo, adiando a libertação da alma. Dusty atravessa uma zona cinzenta entre o real e o ilusório, o verdadeiro e o enganoso, tudo na sagrada intenção de recuperar-se e conhecer-se, como se pode assistir no ótimo “Depois do Fogo”. Independentemente da relevância dos assuntos que aborda, fazer um filme que procura evocar no público uma mensagem de otimismo pode ser uma missão cruel, uma vez que nem sempre se chega ao equilíbrio perfeito entre diversão e análise. Max Walker-Silverman consegue esse equilíbrio, sem cair na armadilha de seduzir a plateia apenas pela força de um protagonista inegavelmente carismático, cujo valor artístico em Hollywood aumenta a olhos vistos — junto com o cachê. 

Reconstrução 

O diretor-roteirista toma um episódio pessoal como inspiração, recontando a perda da casa da avó e o impacto da tragédia junto à família e vizinhos. O Vale de San Luis, no centro-sul do Colorado, foi varrido por um titânico incêndio florestal em agosto de 2024, e então os moradores da região passaram a ter a incerteza por rotina. Quem conseguiu a indenização da FEMA, a agência federal americana responsável por coordenar a resposta a desastres, saiu sem rumo certo num esforço de refazer a vida. Gente como Dusty, contudo, foi obrigada a recolher o que sobrou e procurar abrigo, meio morta por dentro.

Força da natureza

Talvez o maior mérito de Walker-Silverman em “Depois do Fogo” seja evitar a pieguice. São muitos os tons de infelicidade cercando os sobreviventes, e de alguma maneira, Dusty cruza a jornada de todos, sendo só mais um. O caubói solitário parece estar em busca não de uma casa, mas de um propósito — e de si mesmo —, e assim vai parar na casa da ex-mulher, Ruby, para rever Callie Rose, a filha que teve com ela. O filme chega à emoção observando o rigor, e essa química só vira realidade por causa de atores excepcionais. Como sói acontecer, Josh O’Connor encarna um tipo vulnerável na dosagem perfeita de doçura e ressentimento, fraqueza e pertinácia, a tônica mesma do enredo, seguida também por Meghann Fahy, Lily LaTorre e um elenco de apoio que inclui Amy Madigan no papel que leva a uma das reviravoltas mais vívidas do cinema recente. E tudo na hora exata.


Filme: Depois do Fogo
Diretor: Max Walker-Silverman
Ano: 2025
Gênero: Drama/Faroeste
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

Leia Também