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Dirigido por David Koepp, “A Janela Secreta” reúne Johnny Depp, John Turturro, Maria Bello e Timothy Hutton em torno de um escritor acuado por dois problemas que aos poucos se confundem. Mort Rainey se enfia numa cabana à beira de um lago no interior de Nova York depois de flagrar a traição de Amy e, já sem conseguir escrever, passa os dias entre o sofá, o roupão amarrotado e a água parada diante da janela. Nada ali o protege. O sossego acaba quando John Shooter aparece na porta com chapéu preto, sotaque arrastado e uma acusação de plágio que Mort primeiro trata como absurdo e, pouco depois, já não consegue manter do lado de fora.

Koepp arma essa entrada com um movimento de câmera que atravessa o lago, passa pela janela da cabana e ainda cruza um espelho, como se a casa surgisse exposta antes de qualquer arrombamento. A abertura mostra isso. A separação, o bloqueio criativo e a rotina de cochilos no sofá fazem de Mort alguém que mal sustenta a própria versão dos fatos, mesmo quando tenta organizar datas de publicação e exemplares antigos para provar que a história era sua. Quando Shooter volta a bater à porta e repete a cobrança, a madeira da varanda, o silêncio do lago e os cômodos apertados deixam de sugerir descanso e passam a carregar ameaça.

John Turturro entende que esse intruso precisa marcar presença antes de qualquer explicação mais detalhada e faz do chapéu, da postura e da voz um conjunto que se impõe na soleira da cabana. Ele ocupa a entrada. Mort responde com papel, memória e tentativas de reconstituir a ordem dos acontecimentos, mas a situação sempre o encontra sonolento, desarrumado e sem firmeza, como se cada prova chegasse tarde demais. Entre o retorno de Amy, a sombra constante de Ted e a insistência de Shooter em cobrar reparação, o cerco toma a casa, o quintal e também o pouco que restou da vida de Mort fora daquele lago.

Lago, janela e ameaça

Há algo cotidiano no modo como o suspense cresce ali, porque Koepp volta o olhar para coisas pequenas e comuns, tentando arrancar tensão de uma mesa, de uma porta, de um corredor curto e da cozinha da cabana. Tudo está perto demais. A câmera retorna aos interiores, ao sofá onde Mort afunda, à janela de onde ele vigia a margem e ao lago coberto por névoa e árvores imóveis, como se o exterior prolongasse a desordem que ele já carrega por dentro. Quando a ameaça alcança o cachorro e a violência deixa de ser hipótese, a história abandona a aparência de simples disputa literária e passa a atingir aquele pequeno espaço que o escritor ainda chamava de seu.

Johnny Depp sustenta esse homem gasto, mais convincente nas pausas, no corpo frouxo e na dificuldade de sair do lugar do que em qualquer gesto mais afirmativo. O cansaço vem antes. Mort não aparece como alguém especialmente admirável ou engenhoso, mas como um sujeito humilhado pelo divórcio, travado diante da página e cada vez menos capaz de separar o que aconteceu do que teme que esteja acontecendo. Turturro vai na direção oposta e faz de Shooter uma presença insistente, que domina a porta, o caminho até a casa e até a conversa mais banal, sempre com a sensação de que conhece uma ferida antiga que Mort prefere não encarar.

Isso ajuda “A Janela Secreta” a não depender só do mistério em torno da acusação, porque o plágio se cola ao orgulho ferido de Mort, à memória do flagrante de Amy com Ted e ao bloqueio que o paralisa naquele refúgio. A casa se fecha. Cada ida à porta, cada tentativa de alinhar papéis, cada pedido de ajuda à autoridade local ou a quem possa investigar o caso reforça a impressão de que ele perdeu o controle sobre a casa, sobre o trabalho e sobre a sequência dos próprios dias. No fim da projeção, fica a imagem daquele homem de roupão, parado junto à janela, diante da água escura.


Filme: A Janela Secreta
Diretor: David Koepp
Ano: 2004
Gênero: Drama/Mistério/Thriller
Avaliação: 4.5/5 1 1
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