Não, definitivamente, a ignorância não é uma dádiva. Não, a fraqueza não é uma desculpa para o erro. O fato de não conhecermos algo não significa que ele não exista. O limite de nosso conhecimento está restrito à informação que recebemos e às experiências que temos durante a vida? O conhecimento é uma questão geográfica? Há uma restrição imposta ao entendimento de um evento, como um crime, por exemplo, que passa, inevitavelmente, pela experiência. É nesse ponto que o romance Catedrais, de Claudia Piñeiro, se insere. Ele trata de um estranhamento crucial: um crime absolutamente cruel, sem precedentes, e um mistério sem solução que assola uma família por mais de trinta anos. Sob várias perspectivas, de pessoas próximas da vítima, relatos sobre o assassinato são feitos ao longo do romance, e o leitor é impelido a desvendar um segredo terrível.

Separados no espaço e no tempo está o conhecimento científico. No passado, à loucura eram atribuídas causas espirituais, divinas ou sobrenaturais. O ponto é que muito do que poderia ser desvendado com um simples conhecimento de medicina, química ou física ficou confinado em uma gaveta por anos, sem que um culpado fosse sentenciado e pagasse pelo crime, apenas porque a resposta para questões sem explicação aparente estava geograficamente distante. A questão do tempo pode ser um motivo tão terrivelmente relevante quanto o espaço. O conhecimento não chega rápido a lugares remotos, e, no passado, não existia compreensão suficiente nem em grandes centros. Assim, a superstição dominou o entendimento. A religião foi a resposta. A solidão e o desalento dos entes queridos fizeram com que vidas inteiras fossem subtraídas de uma normalidade essencial para se dedicarem à obsessão de um conhecimento específico e redentor.
Ana foi, aparentemente, morta, queimada e esquartejada. Os pedaços de seu corpo foram deixados em um lote baldio. Ana foi decapitada. Ela tinha dezessete anos. Para além de o leitor esperar um feminicídio, há questões muito mais profundas e complexas nesse feito escandaloso. O pai, um professor que passa a vida investigando o assassinato de sua filha; a irmã ateia, que questiona a relevância da religião na formação da família; e outra irmã que, de maneira oposta, é uma religiosa rigorosa e convicta compõem o grupo que, junto a um ex-padre e a uma amiga que sofre de uma espécie de amnésia de curto prazo, forma um mosaico complexo que apresenta o evento de forma magistral.
Em relação à mediação imperfeita do conhecimento, é uma pena que a tradução peque pela escassez de rigor. Comete erros imperdoáveis e infantis. Usa expressões como “mas embora”, “subi em cima”, “as provas não provavam”, entre outras. É preciso ler no original para verificar a qualidade literária do texto, já que a história é um primor.
Há, no romance, um dilema persistente entre fé, corpo e desejo. Temas como a servidão a Deus ou a consumação da vontade e a vida comum atravessam as personagens e configuram o dilema do sacerdócio. Até que ponto uma ideologia pode subverter a natureza do corpo? “Apaixonar-se também é uma questão de fé”. Existe maldade nas personagens de Catedrais, mas não há um vilão no sentido estrito. A culpa, herdada e reiterada, estrutura as ações e orienta decisões que se justificam menos pela razão do que pela convicção. Como no livro do Gênese, a expulsão inaugura uma culpa que se prolonga e se atualiza. Piñeiro constrói essa ideia quando diz: “Um sujeito cuja subjetividade permitiu que se convencesse de que estava fazendo o que tinha que fazer”. O romance sugere, assim, que a verdade não é apenas fragmentada, mas também atravessada por sistemas de crença que a moldam e, por vezes, a encobrem.
Marcela, a melhor amiga de Ana, sofre um acidente — que ela mesma narra —, como uma das personagens narradoras que dão sua versão dos eventos, que a desabilita de lembrar de momentos recentes. A última imagem que tem na memória é sempre a de Ana morrendo em seu colo. Marcela, depois de muitos anos de vida, olha no espelho e vê uma senhora que não reconhece. Sua lembrança mais recente é a de uma jovem de dezessete anos e data de muito tempo atrás. Vive com a constante imagem terrível da morte e da dor da perda repentina de alguém que amava profundamente. A personagem é essencialmente complexa e levanta questões importantes sobre o que é a verdade. Piñeiro aciona a questão: “Achamos que nosso objetivo é conhecer ‘a verdade’, mas, na realidade, queremos confirmar a ‘nossa verdade’”. Marcela não se lembra do que vive recentemente, anota tudo e completa as lacunas com “suas verdades”. Essa analogia, com as investigações de um crime e com os buracos na história, integra-se perfeitamente à ideia da impossibilidade espaço-temporal do conhecimento. Alguns detalhes que separam o investigador do total entendimento do crime estão no fato de que não há informação suficiente no momento e no local corretos. O romance demonstra que a verdade não é apenas desconhecida, mas estruturalmente inacessível em sua totalidade.
Claudia Piñeiro mescla literatura policial com suspense e obtém um resultado extraordinário. Assim como as grandes catedrais são estruturas que se destacam na paisagem das cidades e que que nunca se oferecem inteiramente ao olhar, o romance de Piñeiro se sustenta sobre aquilo que permanece inacessível. É uma viagem pela Literatura em suas múltiplas facetas e caminhos, e lembra, com rigor, que a ignorância não é uma dádiva, mas um limite.

