O lado predador de cada um vive à sorrelfa, arreganhando os dentes, mostrando as garras e ansiando por uma oportunidade para dar o bote, desconsiderando princípios, normas, códigos de conduta e farejando caminhos para burlar a lei. O monstro que criamos para justificar nossa indignidade vem à luz com espantosa fluidez, e esse personagem se assenhora de tudo quanto houver de ainda são, afinando-se a nossos propósitos mais concretos. Quanto mais queremos dominá-lo, mais ele se nos mostra selvagem, cobra que agasalhamos em nosso seio, nos enfeitiça e nos rasga a carne, inoculando na veia o mal que nos há de derruir. A força de “Relay: Contrato Perigoso”, porém, está em convencer o público de que o suposto vilão é, na verdade, alguém à procura de um outro caminho, e quando ele aparece, muitas perguntas têm, afinal, sua resposta. Especialista nessas histórias sobre infortúnio e redenção, David Mackenzie compõe um filme saboroso, até nas quadras mais tensas, prezando pelo apuro estético e a exposição de um protagonista complexo, que veda conclusões precipitadas.
Negócios escusos
Da mesma forma que a vida prepara suas armadilhas e impõe seus caprichos, também subverte seus próprios planos, fazendo com que destinos que pareciam traçados que mudem de uma vez por todas. Ashraf teve de aprender a se virar desde cedo, e também por essa razão não é exatamente bom em confiar nos outros. Ele perambula por Nova York à noite, levando e trazendo recados de gente metida em toda sorte de tramoias a fim de mediar possíveis acordos. Ash usa uma geringonça pré-histórica à qual acopla um telefone de última geração e segue trabalhando madrugada adentro em casa, sem a sombra de amigos nem parentes. Suas noites têm sido ainda mais atribuladas desde que aceitou interceder em nome de Sarah Grant, uma bioengenheira que descobre efeitos colaterais devastadores no grão criado pela empresa onde atuava, que o põe no mercado assim mesmo. Ash entra na equação como um advogado informal de Sarah, e o que vem na sequência não seria nada muito diferente do que John Madden faz em “Armas na Mesa” (2016), por exemplo, não fossem o empenho e a química de Riz Ahmed e Lily James. Os dois promovem o longa a um suspense policial quase distópico sobre vencer estruturas invencíveis, encabeçadas por mafiosos do colarinho branco e sua insaciável fome de poder.

