Ninguém pode se dizer a salvo da maldade invencível dos tantos lobos em pele de cordeiro que nos encurralam em circunstâncias entre absurdas e perigosas, farejando o sangue quente e doce de suas vítimas por baixo da pele empapada de suor e pânico. Quase nunca conhecemos as intenções de nossos algozes e, assim, desprezamos o grito das evidências que pairam acima do chão duro da realidade que compõe a jornada de todos os seres humanos. Um inimigo oculto mina a paz de um homem comum e sua família em “Morando com o Medo”, um terror sobre vícios da pós-modernidade. Sem pressa, Phil Claydon elabora uma metáfora vívida sobre as misérias que afligem pessoas que se amam, fantasmas a nos cercar dia e noite.
Temores cotidianos
Atropelando consciências, o dinheiro, essa ferramenta essencial para a civilização promete liberdade, mas encarcera; garante autonomia, e logo mostra sua sanha por dominar; ludibria os mais espertos com seu charme monstruoso. O roteirista Gary Dauberman põe na boca de personagens oprimidos por questões demasiado concretas argumentos imbatíveis a respeito das coisas desse plano que assombram como o diabo. John Alexander muda-se com a esposa, Melanie, e Hannah, sua filha do primeiro casamento, para uma casa nova, comprada graças a uma hipoteca de trinta anos. Claydon usa boa parte da introdução para convencer o espectador de que os problemas dos Alexander tem início bem antes da mudança, e de fato parece sempre existir entre eles um mal-estar qualquer. John é um provedor, mas não tem o poder que imagina.
As paredes têm ouvidos
Pouco depois que a família se instala, Hannah sente como se alguém a observasse, e esse é o ponto de partida para um suspense cujo ritmo ganha tal importância que torna-se um elemento por si só. Figuras como um vizinho indiscreto, meio fanfarrão, distraem o público e fazem-no atentar ao que não importa. Nesse ínterim, o diretor aproveita para detalhar a relação de John e Melanie e, naturalmente, o lugar que Hannah ocupa. Michael Vartan, Nadine Velazquez e Erin Moriarty desenvolvem uma química tão estimulante que o tal demônio até murcha — o que não significa que “Morando com o Medo” não assuste.

