“A Piscina de Meu Pai” representa um passo decisivo na trajetória literária de Beto Silva. Em seu novo romance, eleito um dos melhores livros de 2025 em enquete promovida pela “Revista Bula” com artistas, escritores, intelectuais e jornalistas, o autor amplia o alcance de uma obra que já vinha se destacando pela combinação entre humor, mistério e observação aguda do mundo contemporâneo. Se em “Estão Matando os Humoristas” o riso conduzia uma trama policial marcada pelo escracho, aqui o humor permanece, mas dividido com a melancolia, a memória e as fissuras íntimas de um protagonista que revisita o passado enquanto tenta entender o presente.

Tendo como pano de fundo os bastidores da indústria audiovisual, universo que Beto Silva conhece como poucos, “A Piscina de Meu Pai” constrói uma narrativa que vai além da sátira e do entretenimento. O romance investiga relações familiares, frustrações profissionais, afetos interrompidos e o peso de certas heranças emocionais, sem perder o ritmo ágil e a inteligência cômica que marcam a escrita do autor. Nesta entrevista à “Revista Bula”, Beto Silva fala sobre seu novo livro, sua relação com o romance policial, os limites do humor e as transformações recentes da indústria cultural.
Ademir Luiz — Seu novo romance, “A Piscina de Meu Pai”, tem como pano de fundo o mundo dos roteiristas, os bastidores da indústria audiovisual. Você conhece muito bem esse universo. Foi roteirista da TV Pirata, do Casseta & Planeta, de filmes e muitas outras produções. Quanto de sua experiência pessoal você trouxe para o livro? Vou além na pergunta: Guto, o protagonista, é seu alter ego?
Beto Silva — Eu trabalhei por mais de vinte anos na TV Globo como roteirista, além de atuar no Casseta & Planeta Urgente. É claro que eu levei muitas das histórias dos bastidores da TV e do mundo do audiovisual para o livro, casos que aconteceram comigo e que adaptei para as circunstâncias da história do protagonista, histórias que outras pessoas me contaram ou que faziam parte do folclore dos bastidores da TV. Quando eu escolhi esse mundo para ser pano de fundo do romance, eu queria justamente falar de um ambiente que conheci, que vivi bastante. No entanto, a história do protagonista não tem muito a ver com a minha. Na maior parte do tempo em que estive na Globo, fui “dono” de um programa, junto com os meus companheiros do Casseta & Planeta, e, por conta disso, a nossa relação com os chefes era muito diferente da que Guto tem no livro, pois ele é apenas um roteirista de um programa de humor popular e tem que obedecer aos seus superiores sem discutir muito. Guto trabalha como roteirista de um programa de humor popular chamado “Família do Riso” e não está muito satisfeito com o seu trabalho. Gostaria de escrever para outro tipo de programa, de um humor que ele considera mais “inteligente”. Por conta dessa insatisfação, Guto escreve um roteiro para um filme, com o tipo de humor de que ele gosta, para tentar dar um passo à frente em sua carreira. É esse projeto de filme que acaba sendo o estopim de uma reviravolta em sua vida.
Quanto a Guto ser o meu alter ego, o que eu posso dizer é que algumas de suas opiniões sobre o mundo audiovisual podem ser opiniões minhas, aquelas opiniões inconfessáveis que ficam melhor na boca de um personagem, mas nem todas, e eu não vou dizer aqui quais opiniões são do personagem e quais são minhas.
Ademir Luiz — “A Piscina de Meu Pai” é também um tipo diferente de romance policial, assim como “Estão Matando os Humoristas”, que lançou em 2019. Qual sua relação com esse gênero literário? Por que a opção por escrever literatura policial? E como chegou a essa estética em que mistura investigação com humor, que é a marca de sua produção?
Beto Silva — Eu sempre gostei bastante de romances policiais, sou fã de alguns autores desse gênero, desde os mais tradicionais, como Dashiell Hammett ou Raymond Chandler, até alguns nem tão conhecidos assim no Brasil, como Rex Stout ou o italiano Andrea Camilleri. Este último, além de ter tramas policiais intrincadas e bem resolvidas, consegue ser muito divertido. Talvez por conta desse meu gosto pessoal, todos os meus romances até agora acompanhem, de alguma maneira, uma investigação policial, mesmo que eles não sejam típicos exemplares de romances do gênero policial mais tradicional. Eu nunca criei detetives ou policiais durões que correm atrás de bandidos, mas, de alguma maneira, há sempre uma “investigação” em curso, sempre meio confusa, sem muito método, na base do instinto dos protagonistas. O meu livro anterior, “Estão Matando os Humoristas”, era um livro policial, não no seu formato clássico, com um detetive procurando desvendar um crime, mas com um policial “heterodoxo”, já que o detetive era um humorista. Já neste atual, “A Piscina de Meu Pai”, pode-se até dizer que há uma trama policial, mas ela é bem mais tênue. O protagonista, Guto, até tenta fazer uma investigação para descobrir onde está o produtor do seu filme, que sumiu, mas não consegue sair muito do lugar.
Acho que essa “investigação” serve como um fio condutor para a história e ajuda a trama a seguir em frente, prendendo a atenção do leitor. Ao lado da tal trama “meio policial”, eu vou construindo os personagens e vou também colocando cenas engraçadas, tentando fazer o que eu chamo de literatura de humor, um gênero que nem sei se existe e que não é estudado nas universidades, mas cuja ideia básica é contar uma história e, ao mesmo tempo, tirar algumas risadas do leitor.
Ademir Luiz — O humor de “Estão Matando os Humoristas” é escrachado. Muitas cenas e diálogos lembram a dinâmica rápida dos esquetes do Casseta & Planeta, incluindo a apresentação e construção dos personagens. “A Piscina de Meu Pai”, apesar de também ser muito engraçado, tem um subtexto melancólico, usando a piscina do título como símbolo de memórias, da relação entre Guto e seu pai. Podemos dizer que, depois de mostrar competência como narrador, você decidiu testar novos caminhos na literatura, tanto em termos de estilo quanto no aprofundamento psicológico dos personagens?
Beto Silva — “A Piscina de Meu Pai” é narrado na primeira pessoa; é o protagonista, Augusto Albuquerque, o Guto, quem conta a sua história. Ele não narra apenas os fatos da aventura por que passou, não conta objetivamente apenas o que lhe aconteceu; ele insere suas opiniões, seus sentimentos, conta histórias e resgata suas memórias. Revela como a ideia de produzir um filme com uma história de sua autoria, com a pretensão de melhorar a sua vida profissional, acabou por se tornar um ponto de inflexão em sua vida, mexendo com o seu presente, o seu futuro e, principalmente, com o seu passado. O fato de Guto ser um roteirista especializado em comédias marca o tom de sua narrativa; ele é um humorista, não abre mão de exercer a sua verve mesmo quando está contando uma história que tem contornos trágicos. Ele usa o humor para falar de seu trabalho na televisão, para opinar sobre o mundo do audiovisual e para contar as suas aventuras amorosas, mas, de vez em quando, dá umas escorregadas e fica melancólico, principalmente quando trata de paternidade, já que teve problemas de relacionamento com o pai e, por ser um pai separado, tem dificuldades na criação do filho. Quando Guto faz descobertas desconcertantes sobre o seu passado, ele chega ao desespero, mas logo respira fundo e volta a tentar ser engraçado.
Ademir Luiz — Você colocou “influenciadores digitais” como personagens ironizados na narrativa do romance. Considerando toda a sua experiência na indústria cultural, qual é o peso real dessa atual dinâmica de mercado, que parece confirmar a frase “antes a pessoa era famosa porque era especial, enquanto hoje a pessoa é especial porque é famosa”?
Beto Silva — Todo artista foi influenciado por alguém. Mesmo pessoas de profissões que não são do ramo artístico têm as suas influências. É claro que eu fui influenciado por vários humoristas. Sempre que me perguntaram quais eram as minhas influências, eu falei de Monty Python, Woody Allen, Mel Brooks, da galera do Pasquim, Millôr Fernandes, Jaguar, Ziraldo, Stanislaw Ponte Preta; sempre citei todos esses caras como meus influenciadores. Mas, apesar de terem me influenciado e de terem influenciado muitos outros humoristas, nenhum deles se dizia influenciador. Eles eram humoristas, comediantes, jornalistas, atores, escritores, um monte de coisas, mas nunca influenciadores. Influenciar era uma consequência da maestria de seus trabalhos, não era um fim em si.
Hoje em dia, a coisa não funciona mais assim. O cara é influenciador porque influencia e influencia porque é influenciador. O sujeito tem milhares ou até milhões de seguidores nas redes sociais por conta de algo inusitado que fez, por ser um ex-BBB ou ex-Fazenda ou simplesmente porque filma tudo o que faz, mostrando a sua vida desde a hora que levantou até a hora que vai dormir, não largando o celular nem para ir ao banheiro ou fazer sexo, ou, principalmente, nessas horas! Esses famosos das redes sociais são cobiçados por conta de seus zilhões de seguidores e acabam influenciando o mundo da televisão. Eu procurei colocar essa “modernidade” na história de Guto, principalmente nos bastidores de sua vida profissional na televisão. Esse fenômeno é algo mais recente, uma novidade destes tempos de redes sociais. Quando eu trabalhava na área, não havia redes sociais e, portanto, não rolava essa influência dos influenciadores na TV.
Ademir Luiz — O humor tem limites? E a literatura? Há temas que não devem ser abordados?
Beto Silva — Einstein disse que o espaço é curvo; portanto, não tem limites. Se o espaço pode ser infinito, por que o humor ou a literatura têm que ter limites? Para mim, quem deve estabelecer o limite do humor não é o Estado, o governo ou qualquer autoridade. No caso do humor, é o próprio humorista quem deveria saber até onde pode ou quer ir. Quando a sociedade estabelece esse limite, a chance de se cair na censura e em decisões autoritárias é enorme. Os humoristas devem saber até que ponto vale a pena brigar por suas piadas polêmicas ou por suas teses; eles devem saber se aguentam a discussão e as consequências, se conseguem dormir em paz depois de contar uma piada controversa, devem ter em mente qual é o nível de reclamações que conseguem sustentar, como vão reagir se forem cancelados, o que fazer se perderem público ou, o pior que pode acontecer a um humorista, se perderem a graça!
Isso também vale para a literatura.
Ademir Luiz — A “Revista Bula”, a partir de uma enquete com escritores, intelectuais e jornalistas, apontou “A Piscina de Meu Pai” como um dos melhores livros lançados em 2026. Como recebeu esse reconhecimento?
Beto Silva — Eu adorei! Fiquei muito contente com essa indicação e agradeço aos que votaram em mim, esperando que usem com sabedoria a “ajudinha” que receberam.

