Você, mulher trabalhadora e mãe, que, na ida, pega trem/metrô e, na volta, metrô/trem, me diz: tem mais medo de I.A. ou de que seu filho/sua filha a troque pelo app do Tigrinho? E você, remediada, que trabalha em home office, tem um plano de saúde furreca e um Kwid parcelado em 60 meses, o que você acha pior? Que os filhos da diarista a tenham trocado pelo Tigrinho ou que seus filhos troquem você e Tolstói por Carolina Maria de Jesus. A propósito: quem escreve diários é diarista?
Já parou para pensar que você e a diarista são irrelevantes no século 21? Que, inopinadamente, vocês foram substituídas e agora, nesse momento, estão sendo mantidas em cárcere privado e nem se deram conta? Mas quem é o carcereiro?
Tenho um palpite. Acho que foi o século 21, e especialmente a tecnologia que veio a reboque e, claro, os oportunistas e urubus de praxe. De repente, ou não tão de repente assim — pois já vivemos um quarto do novo século… —, ergueram-se muralhas de ódios estruturais, coletivismo histérico e as subsequentes patrulhas, chancelas acadêmicas e, finalmente, leis que gessaram a todos, e vocês duas, e todos nós, fomos encarcerados achando que era amor, mas era cilada. Um boa-noite, Cinderela arrastado por décadas. Daí que, hoje, o medo, o pânico e a esterilidade pairam no ar — e não são injustificados.
Por exemplo. Você tem medo do Trump porque o maluco tá dizendo que o molho da baiana azedou o Big Mac dele? E se ele meter ketchup no Morro do Alemão e na Maré, no seu cuscuz também, no acarajé e no abará? Tá com medo? Se cuida, Brasil Pandeiro/Fuleiro, porque quem tiver de Nike não vai sobrar. Salve Sganzerla!
E das livrarias que viraram cafeterias, você tem medo? Tem medo de franjinhas e tatuagens da Betty Boop versão Gadu? Tem medo de abaixar o vidro do carro e ser assaltado por uma rima? E de “samples”, você tem medo ou acha que vale o estupro, desde que não sacrifique o matita perê? Estupra, mas não mata? Inclusão acima de tudo, all right ou all left? O que você prefere? Burrice humana ou inteligência artificial?
E você, macho, branco, escroto e misógino, já comprou um cintaralho para salvar seu casamento? Já sacrificou sua identidade no altar sagrado das minorias sem talento que o subjugam? Quantas toneladas de brancos azedos pesam um Lázaro Ramos? Quantos quilômetros de vaginas para escalar a pica colossal da Erika Hilton? Quantos editais Neville D’Almeida vai precisar perder até conseguir uma migalha no butim dos ungidos? Quantos Bergsons vale um Krenak? Ainda é possível escrever, criar, digo, viver, inalar oxigênio e exalar dióxido de carbono sem se autovitimizar e com péssimas intenções? Posso ter quantos gramas de Nabokov em casa? Um artista que não pratica a autocensura ainda tem liberdade de ir à feira e se refrescar com um caldo de cana livremente? Ou é só a cana para o liberticida? E se ele votar no candidato que não seja o único desde 1979? E se não gostar de pets, abominar carnaval e tiver tesão na Michelle?
E se ele, meu querido Macunaíma, você, que é o espírito do século 21 e bordeja sobre as lajes do Morro dos Prazeres e os tripréquis da Timóteo da Costa, e se o inimigo atrever-se a não rezar a novena de dona Canô? Corre o risco de perder a cidadania e até o próprio avatar, como Vandré perdeu? Me diz aí, hein, Macunaíma? Heil Macunaíma!

