Os sonhos são as únicas coisas capazes de tornar o existir mais suportável e menos infame. Que grande revolução haveria de se dar nos povos do mundo inteiro se cada um tivesse sonhos grandiosos o bastante para serem perseguidos sem folga, até que, por fim, saíssem do baço plano das ideias e passassem à vida como ela é, o que, evidentemente, só seria possível se fôssemos todos dignos desses sonhos. Michael Podchlebnik (1907-1985) tinha o sonho de fugir de Chełmno, um dos mais de quarenta mil matadouros de gente que Hitler manteve em rigoroso funcionamento ao longo dos seis anos pelos quais se arrastou a Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945. Podchlebnik, um dos protagonistas de “O Mundo Vai Tremer”, fez concreto esse desejo de vida sobre a morte, e inspira Lior Geller a contar parte dessa história. Americano de origem israelense, Geller sabe que os detalhes que cercam o Holocausto são tão sombrios e tão cheios de incontáveis desdobramentos que não raro qualquer tentativa de cristalizá-los num filme acaba parecendo uma megalomania leviana e acintosa; contudo, “O Mundo Vai Tremer” é de tal forma cuidadoso e preciso que não se pode ficar-lhe indiferente.
Engrenagem diabólica
Em 1º de setembro de 1942, as tropas de Hitler invadiram os territórios ocidentais da Polônia, e não tardou para que o caos se instalasse. Em pouco tempo, a Alemanha conseguiu transferir judeus das cidades para as guetos, e daí para os Konzentrationslager, os campos de concentração, sob a promessa de que lá seriam mais bem-tratados. Numa das primeiras cenas, o diretor-roteirista conta a verdade ao mostrar os prisioneiros sendo levados para veículos cujo cano de descarga era acoplado às carrocerias, mecanismo que foi aperfeiçoado e deu nas câmaras de gás. Podchlebnik aparece junto com Solomon e Wolf a receber ordens de Lange, comandante de Chełmno, que supervisiona as execuções e despacha os homens para uma clareira perto da floresta, onde eles cavam fossas. Geller e o coeditor Tal Keller capturam cada movimento na fisionomia dos atores, que sempre dão um jeito de ressaltar a desesperança dos forçados. O diretor trabalha a oposição entre os dois grupos, primeiro fixando-se em Lange, com David Kross do outro lado da trincheira defendida em “O Leitor” (2008), de Stephen Daldry, e depois em Lenz, o psicopata de Michael Epp. Podchlebnik enfrenta os dois, e Jeremy Neumark Jones costura as várias subtramas, em especial a que desemboca na saída de Chełmno, atravessando o rio Narew, e na denúncia do que tiveram de passar ao rabino Schulman, de Anton Lesser. Em junho de 1942, a BBC se interessou pelo caso e levou ao ar a primeira matéria sobre o Holocausto. O mundo tremeu, sim, e a humanidade jamais foi a mesma.
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