O Brasil ficou mais pobre, morreu Antonio Candido

O Brasil ficou mais pobre, morreu Antonio Candido

Se o Brasil tem poucos leitores, teria certamente menos, caso Antonio Candido não tivesse existido em nossa história

Antonio Candido foi mais que um crítico literário e sociólogo. Mais até que um político no sentido pragmático da palavra, já que, mesmo sem se candidatar para cargos públicos, sempre militou, lutou e influenciou os rumos do pensamento brasileiro sendo um professor.

Antonio Candido foi e é um paradigma para qualquer professor de literatura que mereça, de fato, essa honrosa alcunha. Não falo de mestres sabidos ou leitores enciclopédicos. Falo aqui de pessoas dedicadas ao conhecimento da literatura e, principalmente, ao esforço de fazer com que ela seja mais bem compreendida. Não como um privilégio, mas como um direito fundamental do homem. Não há aula minha em que Antonio Candido não tenha aparecido, nesses 15 anos de sala de aula.

O esforço de seus textos, desinibidos em demonstrar sua paixão pelo que escreve, sem deixar de lado o rigor técnico e a apreciação histórica, mostraram-me, desde cedo, que a literatura só pode ser oferecida aos alunos por quem a conhece e a ama. Um burocrata jamais será um verdadeiro professor de literatura. Pode ser um literato, mas não um professor. E Candido era um professor. Parafraseando Chico Buarque, que em sua música “Paratodos” se refere a Tom Jobim como o seu maestro soberano, Candido é o meu Antonio Brasileiro, o meu maestro soberano.

Candido me mostrou que ensinar datas, fatos, cronologias é importante, embora o fundamental seja apresentar para o outro o “prazer do texto”. Seus ensaios, profundos, ricos, exatos, eruditos, somam todos esses adjetivos sem jamais ser pomposos, belicosos, desrespeitosos com aqueles com os quais discorda. Candido tem a elegância dos que sabem dizer seus saberes não para exibi-los, mas para compartilhá-los. Formou uma geração inteira de professores e de leitores, de Norte a Sul. E se o Brasil tem pouca gente a ler, teria certamente menos, caso Antonio Candido não tivesse existido em nossa história.

Alguns o acusam, ressentidamente, ou ingenuamente, de não fazer crítica literária, mas sim “sociologia da literatura”. Só quem não leu seu livro “Na Sala de Aula” pode afirmar tal inverdade. O texto literário era a sua forma de agir, o método de expor suas ideias. Não adjetivava sem justificar, exemplificava todas as afirmações que tecia. Jamais se isolou nas torres estéreis do culto ao sintagma ou às consubstanciações estilísticas. Jamais se esqueceu de que a Literatura foi feita para ser, primeiramente, apreciada, e não estudada. Escreve-se poemas, contos, romances e peças de teatro para que sejam lidos, e só porque são ou foram lidos é que são estudados. Portanto, a Literatura e a Sociedade estão intrinsecamente aglutinadas. Vê-las de forma separada é uma opção contrária ao que faz dela um direito, um lazer, um ato lúdico para comover, fazer rir ou chorar. Pensar.

O texto “O direito à Literatura” deveria ser a primeira página de todos os manuais didáticos. Deveria estar emoldurado nos gabinetes de todos os professores universitários, assim como nas salas das comissões de pesquisa. Também deveria constar como objeto obrigatório de reflexão antes de pareceres personalistas que insistem em misturar o público com o privado nas universidades.

Candido incomoda aos elitistas, mas só porque esses querem ser incomodados por ele, pois ao seu lado, na minha formação, Roland Barthes, muitas vezes hermético, convive bem com ele, formando o professor que se esforça, tenta traduzir o saber dos jargões teóricos ao iniciante da graduação, ao adolescente não leitor, mostrando que, caso tenham aptidão para a leitura, há um mundo esperando por eles. Caso não tenham aptidão, vão se manter afastados do mundo dos livros, mas respeitando-o, entendendo sua contribuição para tudo: o país, o Estado, a cidade, a sua rua, a sua casa, os seus sentimentos. Esses indivíduos, alheios à arte literária, se tiveram em seu caminho professores de literatura éticos e generosos, saberão que seus sentimentos são universais, e aqui ou acolá são vivenciados por tudo o que é coisa humana neste planeta.

No dia primeiro de fevereiro deste ano de 2017 eu estive com Antonio Candido. O encontrei no cruzamento da Rua Pamplona com a Alameda Santos, em São Paulo. Ao chegar em casa, escrevi, em meu perfil do Facebook, a respeito da experiência:

Meu encontro com Antonio Candido

Acabo de me encontrar com o Antonio Candido no cruzamento da Rua Pamplona com a Alameda Santos. Mesmo tendo mais de 90 anos, estava autônomo e sereno. Quando voltei rápido para tirar uma foto junto a ele, já estava dentro do táxi. Mesmo assim eu me abaixei, disse firme o seu nome. Ele me olhou um pouco assustado. Eu disse: “Só queria pegar na mão do senhor e lhe agradecer”. Ele falou: “Desculpe, mas não estou lhe reconhecendo”. Eu respondi: “O senhor não me conhece. Sou professor de Literatura. Li tudo que o senhor publicou. Leio seus livros desde o início da minha formação e queria agradecê-lo por tudo o que o senhor fez pela Literatura Brasileira. O senhor é um grande Mestre”. Ele sorriu verdadeiramente. Agradeceu. Tinha um semblante altivo e ao mesmo tempo extremamente simples. Apertamos fortemente as mãos um do outro, e ele foi embora.

Obrigado, sempre, mestre.