A generosidade de Boechat contada por seus colegas jornalistas

A generosidade de Boechat contada por seus colegas jornalistas

Jornalista da Band fica para a história da comunicação marcado pelo zelo extremo com a informação, ao ouvir do mais humilde ao mais poderoso da mesma forma

Jornalista tem de ser emissário da notícia, não a própria. Quando passa de fio condutor a fonte da mensagem, geralmente tem alguma coisa errada.

Ricardo Eugênio Boechat foi prova disso nesta segunda-feira. Da pior forma. Sua morte trágica — mais uma entre tantas deste início de ano tão difícil — se deu quando ele, aos 66 anos, estava no auge de uma carreira já tão protagonista no jornalismo brasileiro.

E a comoção gerada, pode ser explicada só pela tragédia em si? Quando se vê o choque produzido em seus colegas jornalistas — alguns ainda mais famosos do que ele —, fica claro que não. Boechat era especial no meio da imprensa.

E especial também para quem o ouvia. Não foi à toa que, logo depois do anúncio de sua morte na colisão do helicóptero em pane com um caminhão no Rodoanel paulistano — ele era passageiro da aeronave pilotada por Ronaldo Quatrucci —, taxistas formaram comboios e fizeram buzinaços em homenagem ao jornalista.

Uma movimentação tão espontânea quanto simbólica que deve ser puxada pela memória toda vez que alguém falar uma bobagem como “o rádio está morrendo”. Diga isso a esses profissionais do volante que ligavam o som do carro só para tocar notícia tendo Boechat de maestro, às 7h30 da manhã. Ele mudou a forma do veículo, impondo seu estilo único e híbrido, com opinião forte e clara, ironia fina e humor escancarado — não por outro motivo, sua parceria com Zé Macaco Simão pegou tão bem. A cara do povão.

Na TV, mesmo apresentando o telejornal do horário mais nobre e sisudo, conseguiu inovar, encontrando o “onde” e o “como” encaixar seu estilo sarcástico de fazer doer em quem deveria doer. O Jornal da Band virou referência para muita gente por causa disso. Alguns apresentadores/jornalistas nos vidram os olhos, outros não nos causam impacto, ainda que também sejam competentes. Você podia “gostar” ou “não gostar” dele, mas Boechat era daquele primeiro time. Ninguém diria que viveu a maior parte de sua trajetória no jornalismo impresso.

Colegas

William Bonner, o número 1 do jornalismo da Rede Globo, resumiu o que era o Careca, como o conheciam nas salas de redação. “O Boechat foi um colecionador de prêmios e um colecionador de amigos. Acho que esse é um resumo pertinente para o que representou para todos nós, jornalistas”, disse em seu perfil no Instagram, acrescentando que ele deixa em todos uma “tristeza avassaladora”, principalmente por conta do difícil momento para o jornalismo profissional na atualidade.

O adjetivo mais usado pelos colegas para falar de Ricardo Boechat foi “generoso”. Ancelmo Gois, que herdou dele a coluna mais importante do jornal “O Globo”, contou sobre o dia em que se encontraram na padaria para um café da manhã no qual Boechat repassaria algumas dicas ao novato. Ficaram no bate-papo até 5 da tarde. É raro esse tipo de gesto, resumiu o próprio Gois.

Outra história, esta pinçada do Twitter, mostra o comportamento que o principal âncora da Band deu a um calouro de uma turma de Jornalismo pouco antes de entrar. Era uma gravação para um trabalho de faculdade, mas o tratamento que lhe dedicou foi exatamente o que Boechat esperava de cada um de seus entrevistados. O nome disso é empatia; o sobrenome, generosidade.

E a última questão do garoto naquela entrevista foi que mandasse uma palavra em forma de conselho para o grupo de futuros colegas. Boechat olhou para a câmera e disse: “Envelheçam!”.

Sim, jornalistas. Envelheçam. Envelheçamos. E que a generosidade se porte como o melhor dos vinhos nessa caminhada do tempo. Generosidade com seu público-leitor e com a notícia. Ela torna o riso fácil, deixa a alma leve e compensa uma série de defeitos. Boechat certamente os tinha, mas o que fica para a história da comunicação é o zelo extremo ao ouvir do mais humilde ao mais poderoso, na composição da pauta do dia. Em tempos difíceis, onde as fake news devastam informações e reputações, isso não é pouco.

Elder Dias é editor-chefe do Portal Estádio das Coisas.
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