Marcelo Yuka: um pedaço da música brasileira morreu

Marcelo Yuka: um pedaço da música brasileira morreu

Houve um tempo em que O Rappa era a banda mais importante do Brasil. A afirmação parece esdrúxula hoje, para quem testemunhou a gradual perda de relevância do grupo no decorrer do terceiro milênio. O Rappa encerrou suas atividades em 2018, rachado, perdido entre estrelismos e batalhas internas, e apenas os fãs mais renitentes devem ter se dado conta. Entretanto, houve um tempo  —  e lá se vão quase 20 anos  —  em que O Rappa tinha algo muito importante a dizer, não só para seus fãs mais renitentes, mas para toda a sociedade brasileira. Essa importância foi se apequenando (junto com o apequenamento popular de todo o pop rock brasileiro, mas essa é outra história) a partir da saída de Marcelo Yuka, em 2000. A banda sobreviveu, provou que ainda era capaz de fazer hits, mas aquela sensação de ser “o grupo certo, na hora certa, no lugar certo” se perdeu.

O Rappa se tornou a banda mais importante do Brasil em 1999, ao lançar “Lado B Lado A”, seu terceiro álbum, o último de estúdio ainda com Yuka. Era a coroação de um período do pop nacional em que era possível ousar no discurso e no som, e ainda manter um formato acessível, pronto para consumo de massa. Chico Science & Nação Zumbi, Racionais MC’s e Planet Hemp, Mundo Livre S/A (e outros) desbravaram o caminho, O Rappa fechou a década com a síntese virtualmente perfeita. Metáfora e caricatura da desigualdade brasileira, a cidade do Rio de Janeiro era retratada de forma sagaz e inquisitiva, capturando o sotaque, os perrengues, a corda-bamba de se viver na periferia. Rock pesado, reggae, dub e funk eram costurados na trilha sonora na medida exata, formando um som fácil de escutar e que ficava melhor ainda com o encarte do disco na mão, prestando atenção às letras.

E as letras eram, em sua maioria, de Yuka, baterista e porta-voz da banda e que já demonstrara talento como cronista nos dois álbuns anteriores. Mas versos como os de “Tribunal de Rua”, “O que Sobrou do Céu” e “Minha Alma” bateram fortíssimo, ainda mais nos ouvidos cariocas, ainda mais para quem conhecia aquela realidade de perto. Eu morava em uma das “comunidades do Engenho Novo” (na verdade, perto de algumas delas) no verão de 2000, quando “Lado B Lado A” estourou de vez. Eu estava no show de lançamento do disco, no Canecão, em 1999. E vi mais uma boa meia-dúzia de apresentações ao vivo naquele período, inclusive o histórico e zoadaço show com o Asian Dub Foundation. Aquelas músicas todas, infelizmente, não envelheceram depois de quase duas décadas, porque morar na periferia no Rio de Janeiro não deixou de ser uma barra pesadíssima.

O Rappa era o grupo certo, no momento certo. Aí tudo deu errado. Yuka tornou-se vítima da violência insensata que ele tanto condenou em suas letras e em seu discurso humanista. Perdeu sua mobilidade, teve de abandonar seu instrumento e teve de enfrentar uma dificílima adaptação, física e mental, à nova realidade. Num lance no mínimo controverso, foi expulso da banda que ajudara a criar e da qual era o motor criativo. O Rappa não seria mais o mesmo sem ele e ele não seria mais o mesmo sem O Rappa. E aí o momento certo já tinha passado.

Como sua ex-banda, Yuka prosseguiu, aos trancos e barrancos. Expôs seu drama pessoal com extraordinária franqueza, sem esconder a amargura, mas evitando a autocomiseração. Intensificou seu ativismo, que atingiu o ápice com sua entrada como vice na campanha de Marcelo Freixo à prefeitura do Rio, em 2012. Musicalmente, não encontrou mais o ímpeto e a sincronicidade que exibia nos dias d’O Rappa. Quem encontraria? O cara levou uma vida até 2000, uma vida que foi literalmente metralhada, e precisou, antes de mais nada, reaprender a viver.

Um dia antes de Yuka sofrer um AVC do qual não se recuperaria, eu  — matutando na cama antes de dormir  — , me perguntava o que ele estaria deixando de dizer para o Brasil de 2019. E a falta que uma figura como ele  —  espirituoso, antenado, realista, inteligente  —  já estava fazendo no debate sobre os rumos desencontrados de nossa nação. Quem procura por vozes politicamente relevantes na música popular hoje precisa se contentar com ídolos revelados há 50 anos… ou bater palma para Roger & Lobão dançarem. Yuka, em plena forma, seria o homem ideal para fazer a crônica do Rio de Janeiro das UPPs fracassadas, da política do abate, das mil e uma oportunidades desperdiçadas com Copa do Mundo e Olimpíada.

Mas ele se foi. Nem chegou a ver o começo da “nova era” anunciada em Brasília, um dia antes de ele entrar em coma. Valeu a pena? Apesar de tudo, valeu a pena, ê-ê. Descanse em paz.

Marco Antonio Barbosa é jornalista, edita o Telhado de Vidro e o projeto musical Borealis. Twitter: @BartBarbosa