Colunistas

O amor segundo os cavalos

O amor segundo os cavalos

Aconteceu de manhã, depois de uma noite inteira de chuva, quando toda gente botava a cara de novo na rua para ganhar a vida. Em algum canto escondido do planeta, um homem poderoso e aborrecido com o sinal ruim de sua TV a cabo decidiu dar cabo de tudo: entrou no quartel general a que só ele e outra meia dúzia de deuses tinham acesso e apertou o botão da bomba mais avassaladora já construída. Em questão de segundos, um vírus criado em laboratório a partir do DNA dos quadrúpedes ganhou a atmosfera e envolveu toda a extensão do planeta. Nós, os tão especiais seres humanos, caímos doentes, arrebatados pela névoa sinistra, mergulhados em profundo sono de morte.

Somos feitos de carne. Mas temos de viver como se fôssemos de ferro

Somos feitos de carne. Mas temos de viver como se fôssemos de ferro

O primeiro soco ninguém esquece. Soco no coração, quando a mãe nos abandona sem ao menos terminar uma frase. Cadê o leite, o afago, o mimo. O colo pra se encostar a cabeça. Não há ninguém na casa. Um som surdo de obra na pedreira adiante estupra o vazio dos quatro ambientes ligados à varanda. A lenha está murcha e desalentada no fogão. Você gostaria de aquecer seus sonhos com um mingau de aveia, mas a despensa morre de frio e abandono nas prateleiras.

Revolucionário não rouba; luta pela causa

Revolucionário não rouba; luta pela causa

Há uma parábola amplamente repetida pelos palestrantes motivacionais: Dois pedreiros numa construção levantam paredes. Perguntado a um deles o que fazia e ele respondeu simplesmente que assentava tijolos. A mesma pergunta feita ao segundo, respondeu: construo um templo. O trabalho era o mesmo. Para o primeiro era um serviço ordinário e massacrante: assento tijolos. Para o segundo existia uma grandeza redentora: construo um templo.

Carta de amor ao meu filho pequeno quando a saudade é grande

Carta de amor ao meu filho pequeno quando a saudade é grande

Ah, meu filho! Volte logo. Venha ligeiro dessa viagem inesperada de veraneio. Venha porque o Natal está aí e o Papai Noel já chegou ao shopping. Eu vi. Estive lá ontem batendo perna e tinha um monte de criança e pai e mãe e avó na fila esperando uma foto com o bom velhinho. Tanta gente bonita, filho! Daquela beleza que dá em todo mundo quando sente alegria, sabe? Eu senti também. Só não me achei bonito como todos ali porque faltamos você e eu na fila. E não é para me gabar, não. Mas nós fazemos uma dupla simpática!

Não é nada fácil ser mulher-calendário

Não é nada fácil ser mulher-calendário

Cena de abertura: Mulheres-calendário, com peitos em 3D, sorrisos famintos e bundas mais redondas que abóboras colhidas em generosa chácara. As línguas, parecendo saltar da enorme e coloridíssima peça gráfica, como às de camaleões safados. Nubentes do diabo isso sim, eram as 12 moças que pulsavam naquele calendário, postado em parede-de-honra- nas principais oficinas mecânicas da capital. Uma peça, cuja renda da aquisição pelos donos das oficinas destinou-se a asilos de badaladas atrizes de filmes pornôs na década de 70.

Poesia não enche barriga

Poesia não enche barriga

“Uma mulher que palita os dentes num restaurante não possui a menor credibilidade, muito menos merece um soneto” — pensou cheio de inconformismo, enquanto derramava café expresso no túnel esofágico. Chamou o gerente, reclamou do preço da chuleta, do atendimento do garçom, do calor que fazia ali dentro, da morena que arrancara nacos de carne presos entre os molares, do intestino solto do recepcionista, de qualquer coisa que justificasse o não pagamento da gorjeta pelos serviços prestados.

Pode me cortar! Da vida ficam as melhores cenas

Pode me cortar! Da vida ficam as melhores cenas

Estou me sentindo tão só. Eu vi mais um vídeo na internet que mostra outro homem ajoelhado prestes a ser decapitado. Aquele deserto congelou meu coração. Como na notícia que li sobre as pessoas que choram ouvindo mulheres e crianças sendo enterradas vivas, chorei de angústia e incompreensão. Parece que a humanidade me abandonou. Tentei pensar em outra coisa, mas esse gênero cinematográfico já tinha sido acionado dentro de mim, e, das prateleiras da minha memória, as histórias de terror começam vir à tona.