Recado a quem já se sentiu só

Uma hora, lá pelas tantas do dia, da noite, da vida, você vai sentir solidão. Acontece com toda gente. Do bebê mais intocado, chorando um instante de falta da mãe, ao velho mais rescaldado remoendo seus mortos, contando suas saudades em fila indiana, todos haveremos de nos sentir sós.O casal na manhã de seu amor havia pouco sonhava uma cerimônia de casamento, escolhia convidados, mobiliava a casa imaginária, batizava seus filhos que ainda virão.

Porque um dia estaremos mais perto uns dos outros

Um dia estaremos mais perto uns dos outros. Não importa quando e nem como. Mas nós seremos mais próximos do que somos hoje. Nesse dia, estaremos para além de qualquer classificação superficial. Seremos mais que certos ou errados, pobres ou ricos, brancos ou pretos ou vermelhos e amarelos, homens ou mulheres, novos ou velhos. Mais que tudo isso, seremos simples pessoas mais próximas.Ainda que distantes na geografia, guardaremos em nós a lembrança ou o desejo do encontro. E o encontro nada mais será que um pedido assentido e sincero de compreensão.

As promessas que eu faria pra ganhar seu coração

Prometo que as ruas serão, de novo, o playground da molecada. E digo mais: no que tange aos logradouros públicos, de maneira geral, prometo que todos os moradores de rua terão uma casa pra morar. Se isso não for possível, nós é que nos mudaremos para as ruas, a fim de finalmente sermos todos iguais perante a lei e a lira. Prometo que os beijos técnicos serão substituídos pelos beijos de língua, doa em quem doer.

Sobre aquelas coisas que a gente sabe mas faz questão de esquecer

Você sabe. Uma paixão não tem hora certa para acender e nem tempo exato de apagar. As crianças de colo não têm vergonha de cair no choro quando sentem tristeza, medo, dor e essas coisas que, por sua vez, não têm problema de aparecer sem avisar. Acredite. Quando você está triste ou está feliz, o clima lá fora nada tem a ver com isso. Na praia também chove, e a chuva está nem aí para as suas vontades. Apesar de toda a nossa empáfia, nossa pretensa segurança e nossas patéticas demonstrações de controle.

Levanta, me serve um café, que o mundo acabou

Não importa o tamanho do regaço, eu vou é torcer pelo meteoro. Há milênios, os micróbios e as tempestades tentam (sem êxito) dar cabo da humanidade. Solidário aos malemolentes esforços da lama, eu aposto no cometa, na inexpugnável e desgovernada pedra fumegante que vai partir o planeta em pedacinhos, resolvendo de uma vez para sempre todos os dilemas do homem, como a fome de amor na África e a epidemia de banha nos Estados Unidos. Unidos venceremos? Às favas! Segue abaixo o melhor dos manuais para se destruir um mundo pior.

Lá vem a vida. Vem seguindo no passo manso das moças

E então meu pai, que andava sumido no tempo, deu as caras numa lembrança. Disseram lá e cá que ele andava com saudade de mim. Saiu voando por cima das casas, feliz e triste, apertando os olhos para ver se me via lá de cima. Ah… meu pai. Aí me deu saudade de você. Mas foi saudade alegre. Saudade da graça das suas piadas sem graça, do perfume barato da sua loção pós-barba, do seu jeito de ver a vida seguindo no passo manso das moças. Aquelas moças da cidade nossa. Deu saudade.

Chega de tanto mi-mi-mi. O amor perdeu, parceiro

Não me venham com essa história de “só o amor constrói”. Ontem mesmo, a balconista da vídeo-locadora em que sou cliente ajoelhou-se no asfalto escaldante — com aqueles joelhinhos bem torneados que até o papa aprovaria — e rezou com fervor ao seu algoz que só o amor construía, e blá-blá-blá, e ti-ti-ti, e assim mesmo levou um tiro na fuça que partiu o seu aparelho ortodôntico de linguinhas cor-de-rosa bem ao meio. Desde então, não consigo mais me imaginar locando os meus tradicionais três filmes tristes da semana sem pagar doze moedas praquela jovem criatura que ria à beça de qualquer coisa que eu falasse, até de política ou de uma sequela sifilítica.

Declaração universal dos direitos e deveres de amar

Então um dia o mundo, ocupado com o que realmente importa, num momento de divina iluminação, há de reunir sem maior espalhafato não uma comissão de notáveis das ciências e da política, nem um séquito de respeitosos acadêmicos e pensadores superdotados, mas uma turma desprendida, formada por pessoas de modos simples, representando diferentes origens, profissões, faixas etárias e níveis sociais variados. Entre essa gente, nada além de dois ou três interesses comuns, coisas como a inutilidade das conversas à toa, a profundidade dos assuntos desconhecidos e, claro, a alegria incomparável de dar e receber amor.

Para Ariano Suassuna, um homem de ideias e sonhos

Nesta terra da saúde que o cabra põe doente, onde morre tanta gente e a vileza nunca para, mulher apanha na cara e homem faz o que quer, um rei meio quixote, meio doutor, desceu da realeza pra ver de perto a pobreza, sentir toda a sua dor. E pra ajudar seu povo de um a um, tirou a coroa e saiu à toa, vestido de pessoa comum. Andando pra todo lado, de jeito santo e letrado, o rei feito andarilho viu o mundo, desceu ao fundo, cada pai e cada filho e cada mãe, ouviu o velho, ouviu o novo com paciência, gente de toda idade, pra entender de verdade a querência de seu povo.

Carta aberta a você que ainda acredita no amor

Você sabe que tem gente se matando agora, não sabe? Tem um povo bombardeando outro, crianças apavoradas, mulheres subjugadas. Uns homens soltam bombas, outros prendem o choro. Edifícios desabam fáceis, sob a mira dos mísseis prateados, impecáveis. Famílias se desmancham como papelão na enxurrada, canalhas fogem com o dinheiro do povo. Ódio vira regra, medo se faz prática, desespero se torna música. O sucesso de audiência é a nossa escandalosa miséria de todos os dias.

Rubem Alves me ensinou de tudo. Até a chorar a perda do avô que eu nunca tive

Pois o último sujeito que escolhi para ser o meu avô foi o Rubem Alves. Leio seus escritos imaginando que cada palavra está sendo dita pelo avô que eu nunca tive. Leio como se ouvisse conselhos do meu velho avô, um homem que no meu mundo de fantasia gosta de plantas e de caqui e de ipês amarelos. Quando o via falando bonito na televisão, pensava comigo mesmo: “esse vovô tem cada uma”. Agora, com a partida dele, me sinto tocado por um sentimento que eu desconhecia: a do luto por meu avô.

De tão besta, esta crônica vai ficar sem título

O frisson que aquela mulher provocou nos homens durante a festa de aniversário do Toninho até hoje reverbera no sono e na sina de um quarteto de marmanjos claudicantes à beira da andropausa. Pensem numa mulher tão bonita de fazer gaguejar, de fazer perder a fala, de fazer inflar o falo, de fazer latir um fila, cuja nuca com tez de pêssego levava tatuada a seguinte recomendação em letras cursivas, garrafais: “Sonhe”.

Viva João Ubaldo Ribeiro!

É que tem gente que deixa o mundo melhor, né? Tem gente que abre o riso e o tempo. No meio de tanta bobagem, tanto desgosto, tanto ranço, tanta empáfia, tem gente que faz a vida mais simples em toda a sua complexidade. Tempos difíceis, os nossos. Já faz tempo que é assim. É que a gente aprendeu a levar o carro adiante no tranco. Aprendeu o ritmo louco das coisas, descobriu como faz pra seguir em frente quando sobe e quando desce.

Nem sempre o amor começa numa segunda-feira

É… nem sempre as coisas vão para onde a gente quer. Nem sempre a vida acontece como você e eu desejamos. Nem sempre. Preciso confessar a você que essas velhas certezas só me enchem de novas perguntas. Amigos verdadeiros nunca faltam mesmo? Amor de verdade não acaba? Só uma mãe entende um filho? O perdão é um privilégio das almas elevadas? Quem sabe? É que eu tenho a impressão de que as verdades de cada um nunca foram, assim, tão absolutas, austeras, esbanjando sisudez. As minhas, pelo menos, andam de tênis.

Os 10 mais tristes filmes da história do cinema (um guia básico para homens que precisam aprender a chorar)

Frente ao frisson criado por causa do desmedido chororô da equipe canarinho dentro das quatro linhas, e às centenas de pareceres informais de psicólogos por todo o território nacional, eu achei conveniente compilar e indicar, não somente aos atletas durões desta e de outras Copas que ainda virão, mas aos homens de coração duro, uma lista com os 10 Mais Tristes Filmes da História do Cinema. Companheiros, tranquem a porta da sala, assistam aos filmes, saquem os seus lenços de seda, mas chorem com moderação.

Aperte o “C” para subir ao céu

A família é um mal necessário (esta frase não é minha, mesmo assim achei divertida, embora eu tenha crescido num núcleo familiar confortável e sem turbulências relevantes). Tanto assim que as crianças e adolescentes criados dentro de lares caóticos, onde o autoritarismo e a truculência grassam soltos, prefeririam, quem sabe, não dar qualquer tipo de presente. Aliás, eles certamente se sentiriam presenteados caso o Domingo dos Pais caísse direto numa segunda-feira, para que fossem levados logo cedo às escolas e tivessem um mínimo de paz e sossego.

O amor é um bailarino que convida para a dança

Alguém passou aqui dançando. Você viu? Entrou por aquela porta ali, varreu os cômodos rodopiando a leveza dos anjos, girou sobre os pés deslizando pela casa, como se minha casa fosse um enorme salão no meio do mundo todo e a humanidade, seu corpo de baile. Em sua dança, chegou pisando leve, cantando baixinho como quem reza a Nossa Senhora dos Pequenos Milagres para que o afeto seja nosso eterno ato de contrição. E que entre uma pedra e outra do caminho floresçam mudas de bom dia, boa tarde, boa noite, por favor e obrigado.

Pequenos movimentos das coragens nossas de cada dia

A premência de atos de coragem se manifesta em nossas vidas desde o instante do nascimento. Ambos, o bebe e sua mãe, precisam de imensa determinação e desejo, para trocar, abandonar um ambiente aquoso, seguro e acalentador pela vinda à luz na terra dos homens. Mudar de hábitos, largar ambientes mornos por outros desconhecidos — ainda que anunciem o bônus de certa prosperidade, demanda entrega e decisão.

Oração de boas-vindas a uma criança que chega

Vem, pequeno artista, vem pintar o sete deste lado de cá. Vem que o rumo certinho das coisas carece de desarranjo. Vem mudar os prazos, acelerar o ritmo, parar o tempo. Vem que a vida é agora, e é hora de viver entre nós. Vem encher a casa de visitas e presentes e conversas em voz baixinha para não lhe atrapalhar o sono. Vem lembrar o que de fato importa, que na vida somos todos visitantes afoitos. Vem acordar o mundo em meio à noite e despertar a ternura que resta lá fora.