Era uma vez o amor em sua primeira vez

Vi você e vi a mim mesmo nessas paragens, construindo nosso depois de amanhã, multiplicando nossas lembranças. Porque o amor deve ser isso mesmo, né? Esse escandaloso milagre da multiplicação. Vi encontros e partidas, esperas, chegadas. Vi nossos enganos, nossa saudade, nossa alegria do encontro seguinte, nossa paixão avassaladora, nosso amor se acalmando e se deitando em nosso colo, sob a sombra de uma tristeza sempre à espreita, uma sensação de que a qualquer tempo a festa acaba.

Ninguém consegue viver de janelas fechadas

Imagine abrir sua janela ao acordar e, do mesmo modo que as lagartas magicamente se borboleteiam pelas paisagens da vida, encontrar uma fruta que se oferece a você. Clama por seu gesto de sorvê-la inteira. Entregando assim sua gratidão a um dos tantos presentes que a natureza diariamente lhe dá, sem exigir nada em troca. Saber receber é uma arte. Abrir os braços, o sorriso, o corpo e o coração e dispor-se aceitar quem estende o afeto a você. Receber exige coragem. Integridade. Desejo. Iniciativa. Transparências do querer genuíno.

10 autores seminais da literatura americana

Tão marcante quanto as alucinações causadas por LSD, cocaína e whisky, quanto as lembranças que voltam em sonhos do orgasmo mais enlouquecedor de todas as orgias já experimentadas, é a influência da literatura americana na mente dos que amam as letras. E tão eclética quanto as nossas experiências mundanas e imaginárias, são os estilos dos autores que formam esse grande barril de produções que vão dos clássicos aos beats, passando pelos mestres dos mistérios e pelos jornalistas-escritores, que nunca sabem se transformam jornalismo em literatura ou literatura em jornalismo…

Eu não mereço ser encoxado

Quando me dei conta, tinha um sujeito bufando atrás de mim, e não era um zagueiro de futebol fazendo uma marcação homem a homem, embora, admitamos, a vida é um jogo escroto. Aconteceu que eu viajava em pé dentro de um metrô lotado quando, sem que eu percebesse — juro por Deus, prezados ateus! — um camarada esfregou-se pra valer na minha mochila de couro de ornitorrinco (suponho que, na confusão do aperto, o folgado supusesse que a tal mochila não era uma mochila, se é que me entendem) ao ponto dele ouvir os sininhos dobrarem e quase acender um cigarro dentro daquele compartimento infernal hermeticamente fechado, o qual os gestores públicos chamam, cinicamente, “meios de transporte em massa”.

A esperança é a primeira que vive

Ah… pessoa amiga! Bom ver você aqui. Andei longe, enfiado em caminhos por onde se encontra tudo menos gente como você, correta, valente, cheia de vida. Andei por baixo, mirando os desenhos e as ranhuras do chão, varrendo as calçadas com os olhos. Parti ladeira abaixo buscando sei lá o quê, fugindo já não sei de quem. Arrastei a alma vazia no asfalto, feito saco plástico levado pelo vento, e caí em tantos buracos quanto os passos que dei, passos maiores que as pernas tomadas de câimbras e ansiedade.

O coração anda molhado. Mas a boca está seca

Muitos de nós vivem com o peito mais encharcado que roupa esquecida na máquina de lavar, com a torneira aberta. Mais inflado que chester do almoço de domigo.Tem afeto chorando lá dentro, declaração de amor enxovalhada. Raiva presa com rolha na garganta. Desejos desnutridos. Saudade e lembranças mergulhadas em um balde de água sanitária. Tudo para esquecer, eliminar manchas de experiências marcantes e sensações da história pessoal.

Não existe nada de óbvio na proibição da ‘cultura do estupro’ em nosso País

A pesquisa do IPEA, infelizmente, revela que o respeito à liberdade sexual da mulher, enquanto patamar inarredável do projeto de sociedade tolerante que o Estado Democrático de Direito visa a edificar, não é “fácil de ver”, não é “fácil de entender”, não é “fácil de descobrir”. Para a maioria da população brasileira, não “salta aos olhos”, não “salta à vista” que uma mulher não merece ser estuprada. Tampouco se pode considerar claro, manifesto, evidente que um dado aparentemente simples — como a roupa que se veste — não justifica a hediondez do sexo forçado, não consentido.

E se o amor pegar você, a culpa é sua

Cuidado. Quando você menos espera, ele vem e acerta você em cheio. Acontece do nada, sem aviso, a cada um de nós. De repente, uma avalanche desaba sobre a sua cabeça. É bom você se preparar. Depois, quando acontecer, não reclame. Sim, porque se o amor pegar você de jeito, a culpa será toda sua. Uma hora vem alguém e entra. Agora mesmo, em algum lugar insuspeitado há pessoas organizando passeatas, manifestações, protestos para bagunçar a ordem sisuda das coisas e esparramar amor pelas ruas.

Os 10 melhores poemas de Mario Quintana

Pedimos aos leitores, colaboradores, seguidores do Twitter e Facebook que apontassem os poemas mais significativos de Mario Quintana. Poeta, tradutor e jornalista, Mario Quintana estreou na literatura em 1940 com o livro “A Rua dos Cataventos”. O poeta também deixou um amplo trabalho de tradução, com destaque para as obras “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust, e “Mrs. Dalloway”, de Virginia Woolf. Em 1980 recebeu o prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra.

“Você disse some e eu somei. Eu disse some e você sumiu”

A matemática do amor e dos relacionamentos em geral é complicada. Cada um de nós tem um jeito único de ver e entender as coisas. Encara as próprias equações e se atrapalha. Quando é pra somar, divide ou multiplica. Faz isso, conforme a quantidade de minhocas passeando nos neurônios recheados de esquisitices. Fato é que mora em nossas cabeças um perseguidor implacável. Ainda que o escondamos. O asfixiemos com as mágoas do coração. Finjamos ser ele nosso melhor amigo. O algoz existe e respira feroz.

Saudade até do que era pra ser e não foi

Minha geração tem um cacoete: quem não morreu ficou velho. Mas não pense que minha geração é dessas que passam pela vida impunemente. Não. Minha geração é bicho feral. Minha geração disse a que veio. Não apenas disse, mas fez o que prometeu fazer: mudar o mundo. Olhe que não é uma tarefinha à-toa do tipo construir uma Transamazônica ou uma Ferrovia Note-Sul, que são obras de vulto, mas têm, até certo ponto, apenas impacto local. A nossa geração é maior: veio para mudar o mundo. E aprontou.

O amor quando acontece, a gente esquece logo que sofreu um dia

Tirou a bala da coxa dela e sentiu que aquele estremecimento interior devia, sim, ser o tal amor à primeira vista. Pensem numa mulher bonita. Imaginem agora que ela flutue, que possua um par de pernas tão gigantescas e acolhedoras que façam com que qualquer sujeito se sinta na obrigação de derrubá-las, como se fosse um avião penetrando nas Torres Gêmeas. Ah… Certa vez, namorei uma trinca de gêmeas siamesas que miavam no quintal dos meus delírios como gatas embriagadas de amor. Uma gozava em falsete, outra fazia a segunda voz, e a terceira não dava um só piu, um ui que fosse: odiava-me.

Carta para alguém que espera

Hoje voltou o frio. Veio como havia muito não vinha. Gelou o ar, esfriou o sofá da sala, resgatou meias, casacos e dores do fundo de uma gaveta que emperra como não quisesse abrir. Chegou sabe-se lá de onde, do pacífico, dos polos congelados, do sul do país. Não importa. Aqui faz frio. Em seu sopro fresco e úmido, esse frio há de aquecer os ímpetos de alguém. Há de animar as almas boas que se reúnem no calor de suas mesas, em volta de suas histórias contadas na fumaça perfumada das panelas bafejando decência. A mim, o frio me reencontra desprevenido e ridículo.

155 mil imagens de obras de arte em alta resolução para download gratuito

O Rijksmuseum, um dos maiores museus da Europa, dedicado à artes e história, disponibilizou para apreciação on-line ou download, parte de seu gigantesco acervo. São aproximadamente 155 mil obras. A coleção de pinturas do Rijksmuseum inclui trabalhos dos principais mestres do século 17. Nomes como Jacob van Ruysdael, Frans Hals, Fra Angelico, Vermeer e Rembrandt fazem parte do acervo e estão disponíveis para download gratuito.

Por mim, linchamos o miserável e depois vamos à missa

“O moleque ter sobrevivido foi obra de Deus”, disse o vendedor de loterias, que era crente feito o cão (se me permitem o chiste herético). Era uma daquelas tardes modorrentas na louca cidade, quando um caminhão desgovernado bateu num caminhão do Governo que bateu numa moto que conduzia um casal que morreu esmagadim na hora sem saber de quê nem pra quê. Não vou aumentar a estória, nem fazer piada com a dor alheia, mas contarei o fato a minha maneira: isto aqui é uma crônica baseada em fatos reais que mais parecem inventados.

Amor de verdade também acaba

Se preocupe não, moça. Não é você. Sou eu. Não tenho jeito pra esse negócio de amor. Acho lindo, acho lindo nas canções que você e eu amamos juntos. Mas na verdade, assim, no tempo duro de um dia depois do outro, o amor toca desafinado para mim, obrigatório, repetido, música com refrão meloso. Não é você, moça. Sou eu. É que eu não tenho muito que dar. Não rendo, não sei telefonar à noite, não sustento conversas sem assunto, diálogos sem tema. Não é você, linda, doce, cheia de graça. Sou eu. Vazio, triste, estranho.

Top 5 de mentiras do país do futebol

Estive pensando, recentemente, em como é verdadeira a frase atribuída a (será que é dele mesmo?) Joseph Goebells, que diz o seguinte: “Uma mentira contada muitas vezes acaba tornando-se verdade”. Isso é parte de todo tipo de imposição de verdade, ideologia — a mais nefasta de todas, como o caso do nazismo. Nem sempre trata-se de uma mentira: às vezes é uma falácia, ou uma “meia verdade”. No Brasil, a mídia se acostumou a reproduzir essas mentiras-falácias-meias verdades e, com tamanha repetição, acabou produzindo mitos relacionados à cultura e à história do país.

Tem gente que confunde alegria com alergia

A princípio parece que um termo não tem nada a ver com o outro. Alegria é sentimento. Alergia é sintoma. Mas na realidade os dois frequentemente se misturam. Ou a gente troca um pelo outro sem se dar conta. Os médicos, muitos deles, correm atrás das causas da alergia, e dizem que ela pode resultar de estados emocionais, aflições, angústias. Podem decorrer de gula extrema por doces, salgados e que tais. Funcionar ainda como uma catarse, se somatizar no corpo.

As histórias de cada um de nós passeiam pela vida afora

Logo no início da sessão ela teve vontade de falar do mar, da selvagem vitalidade que encontrava ao se entregar inteira às espumas. Vontade de esmiuçar as danças sinuosas nascidas das ondas, agitadas como serpentes, os polvos imensos, regentes das profundezas melódicas com seus tentáculos de maestros das águas. Ela quis comentar dos mares antigos, desbravados por navegadores desejosos por lamber novas terras recendendo à coragem e à sabedoria de conchas ancestrais.