Colunistas

Poesia não enche barriga

Poesia não enche barriga

“Uma mulher que palita os dentes num restaurante não possui a menor credibilidade, muito menos merece um soneto” — pensou cheio de inconformismo, enquanto derramava café expresso no túnel esofágico. Chamou o gerente, reclamou do preço da chuleta, do atendimento do garçom, do calor que fazia ali dentro, da morena que arrancara nacos de carne presos entre os molares, do intestino solto do recepcionista, de qualquer coisa que justificasse o não pagamento da gorjeta pelos serviços prestados.

Pode me cortar! Da vida ficam as melhores cenas

Pode me cortar! Da vida ficam as melhores cenas

Estou me sentindo tão só. Eu vi mais um vídeo na internet que mostra outro homem ajoelhado prestes a ser decapitado. Aquele deserto congelou meu coração. Como na notícia que li sobre as pessoas que choram ouvindo mulheres e crianças sendo enterradas vivas, chorei de angústia e incompreensão. Parece que a humanidade me abandonou. Tentei pensar em outra coisa, mas esse gênero cinematográfico já tinha sido acionado dentro de mim, e, das prateleiras da minha memória, as histórias de terror começam vir à tona.

Sobre os patetas e sua arte de caminhar para trás

Sobre os patetas e sua arte de caminhar para trás

Isso, criatura. Fure mesmo essa fila. Passe em colossal descaramento à frente de todos que aqui esperávamos a vez honestamente. Muito bem! Uma salva de palmas para o cidadão ali, tão certo de sua soberania sobre todos os outros. Bravo! E que bela buzina a sua, cavalheiro que afunda com generosidade a mão no volante e os pés no acelerador, alardeando a superioridade de sua máquina entre os outros carros tão lentos e sua mania de obedecer os limites de velocidade e outras regras da convivência civilizada.

O amor é a arte de se agarrar na vida

O amor é a arte de se agarrar na vida

Você pode fazer o que quiser com isso. Guarde, jogue, passe adiante, sorria, chore, avise a polícia, reflita, esqueça. Não importa. É urgente dizer que eu tenho amor por você. Tenho, sim. Não vai aqui nenhum pedido de reciprocidade, namoro, casamento. Nada disso. É só a minha necessidade teimosa de dividir o que eu sinto. Confesso. Eu até ensaiei no espelho para lhe fazer essa declaração com um certo jeito, mas resolvi ir direto. Sem rodeios e astúcias. Quem tem amor não perde tempo com bobagem. Eu amo e pronto. Amo! Tenho uma vontade grandiosa de trabalhar e construir e ter uma vida boa nesse mundo por onde você anda.

Eu sofro de mimfobia. E você?

Eu sofro de mimfobia. E você?

Está na hora de colocar em pratos limpos tudo o que a gente guarda e esconde em nossa cozinha mental. Fobia é medo, terror, perna bamba, paralisia muscular repentina. E por aí segue lista da diversificada sintomatologia. Pra que negar. Eu sofro de mimfobia e morro de medo dos outros que moram dentro da minha cabeça e cutucam minhas ações e decisões, presentes ou futuras. E você?

Lista dos sonhos que nunca envelhecem

Lista dos sonhos que nunca envelhecem

Fazer um recall da Big Bang. Disputar o céu com os pássaros usando apenas as minhas asas de cobra. Morrer pela boca num beijo bem velhinho dormindo num dia de domingo e despertar no paraíso com a cabeça repousada no colo da vovó com Deus uma mulher (que surpresa incrível!) a coar o café. Enterrar pessoas só de brincadeirinha única e exclusivamente na areia. Construir castelos na praia sem ter medo da maré.