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POR EM 22/05/2009 ÀS 06:28 PM

Sete pecados geniais

publicado em

O Pecado Genial serve para proteger os interesses e o espírito livre do pecador. Não é específico, como não matar ou não roubar. Muda segundo a estação e a necessidade. E mesmo o número de sete é maleável, serve apenas como licença poética e referência cabalista

 

...O Homo Sapiens é o único animal que sente culpa. Grande parte de seus esforços evolutivos foram gastos na arte de criar, hierarquizar e desenvolver motivos para se sentir culpado. Via de regra o agente causador da culpa é o pecado. Sejam mortais, veniais ou capitais. Cada qual com sua especifica carga religiosa, sexual ou ética. E seu devido peso nos diversos tribunais pós-morte. Estes pecados podem ser frutos de tentação, curiosidade ou impulsão, não importa; a questão é que produzem culpa e culpados. E desta combinação se pensa extrair a ética.
   
 Acho, porém, que o fator negativo de um pecado depende muito do ponto de vista pelo qual é encarado. Os pecados de Pandora, Prometeu, Adão e família, Judas Escariotes e mesmo de Lúcifer, foram, em um sentido metafísico, partes de planos maiores. Do mesmo modo, sempre procurei imaginar quais pecados foram cometidos pelas figuras colocadas no limbo por Dante. Com certeza pecados dignos dos homens brilhantes que foram. Geniais pecados, pensei. Principalmente porque preservaram suas consciências.
    
Acredito que pecar é um direito do ser humano. Manipular o pecado é um direito do ser humano bem pensante. Por isso criei o que chamei de os Sete Pecados Geniais, como forma de defender-me contra a lógica pobre da culpa. Faço o errado se tornar correto, apoiado em três simples motivos: acredito, desejo e mereço. O Pecado Genial serve para proteger os interesses e o espírito livre do pecador. Não é específico, como não matar ou não roubar. Muda segundo a estação e a necessidade. E mesmo o número de sete é maleável, serve apenas como licença poética e referência cabalista.
    
O Primeiro Pecado Genial surgiu de uma moeda, inspirado em uma das mais antigas e infalíveis trapaças já criadas. E é dono de uma estória. Quando de minha chegada na Universidade passei a dividir meu quarto com um animal ruivo e alienado que, estranhamente, cursava Letras Latinas. Chamava-o de Kafka devido a seu aspecto geral lembrar o de um inseto daninho. Resignado, convivi com ele por um ano, acreditando na máxima biológica de que o homem pode adaptar-se a tudo. Isto não aconteceu. Passado os primeiros meses continuou sendo uma tortura ouvir sua voz rouca e fanhosa repetindo diariamente que seu maior sonho era terminar a leitura do “El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha”, no espanhol arcaico original. Fechar com estrondo a última página do último volume e bradar que, enfim, era uma criatura completa, já tendo um filho concebido, uma árvore plantada e um caderno de sonetos escrito, na adolescência. Poderia morrer como um homem completo. Pois, afirmava Kafka, pressentia que morreria tão logo completasse a fatídica, porém, estimulante missão de ler o estupendo calhamaço de Cervantes. Mal poderia ele imaginar o quanto eu torcia para que sua profecia se cumprisse. Não se passava um dia sem que eu lhe perguntasse em qual capítulo estava. Mas, para meu desespero, o inseto lia de modo tão lento e desastrado que julguei ser ele o único ser vivo na natureza a possuir tempo de vida cumulativo e não retroativo.
    
Posso garantir que o que aqui afirmo não consistia em simples destempero de minha parte. Kafka cultivava o hábito de esquecer-se de minha existência. Costumava trancar a porta do alojamento e desaparecer, com a única chave disponível, invariavelmente deixando-me trancado. Do lado de dentro ou do lado de fora. Horas depois retornava, pedindo desculpas, exibindo um ar grotescamente ingênuo. E havia mais: Kafka cuspia no chão. Kafka sofria de sonambulismo. Kafka comia porcamente. Kafka colecionava lixo e, finalmente, Kafka e suas roupas cheiravam naftalina.
    
Problemas burocráticos e de espaço físico no Parthenon impediram minha troca de dormitório. Passei então a tramar um modo caseiro de extermínio. Descartada a possibilidade de homicídio, restou-me a opção da fraude. Felizmente, o indesejável cobiçava dois objetos de minha posse: um belo relógio de corrente trabalhado em ouro e uma centenária ampulheta árabe de bronze. O primeiro sem engrenagens e o segundo sem areia, mas ambos dotados de enorme valor simbólico. Costumavam ocupar lugares de honra no acervo do principal museu de meu burgo natal. Nada mais natural do que incluí-los no plano.
    
Alimentei a cobiça de Kafka até fazê-lo aceitar participar de um aparentemente ingênuo jogo de moeda, regado a álcool. Nas primeiras jogadas perdi meus dois objetos. Sentido-se com sorte, e já devidamente bêbado, Kafka aceitou apostar sua vaga no quarto contra a posse de minha alma. Para evitar dúvidas fiz com que ele próprio jogasse, não sem certa dificuldade motora, a moeda escolhida, aparentemente ao acaso, dentre várias, para resolver a disputa. Escolhi coroa, caiu coroa. Não houve discussão, o infeliz não poderia negar o que fez com as próprias mãos.
    
Naquela noite dormi vingado. Sonhei com um inseto sendo esmagado por uma gigantesca moeda de face dupla. Ambas coroa. Portanto, deste modo nasceu o conceito do Primeiro Pecado Genial: não hesite em subestimar, se você tem certeza da tolice de seu adversário.
    
A partir deste dia Kafka tornou-se uma figura folclórica no campus. Era o ruivo que dormia nos bancos, na grama ou sob os carros estacionados. Contudo, mais de uma vez foi obrigado a expulsar de minha propriedade Kafka e sua amante, uma acadêmica de matemática baixa e franzina
    
Os outros pecados surgiram em uma seqüência natural.
    
O Segundo Pecado Genial consiste na mais básica lei de sobrevivência acadêmica: sempre que preciso, use o recurso do blefe. Para o estudante universitário construir sua imagem muitas vezes será necessário discorrer sobre autores que não leu e teorias que não conhece. Nestes casos, que, em verdade, não são raros, é preciso blefar de forma convincente ou, ao menos, saber ludibriar o interlocutor de modo a fazê-lo pensar que não está sendo claro em suas colocações ou pior, que não conhece o assunto tanto quanto você. Este pecado, contudo, encerra duas regras. A primeira é nunca divergir de um especialista e a segunda é evitar ir longe demais em uma polêmica, existem caminhos que não têm volta. É preciso blefar com sabedoria.
    
O Terceiro Pecado Genial evoca que: o plagio é aceitável, mas deve ser usado como último recurso e limitado aos autores obscuros. Portanto, em casos extremos é permitida a permutação de vários textos alheios, visando a criação de um texto ‘frankenstein’ original e impossível de ser detectado enquanto objeto criminoso. Este pecado nasceu de um pensamento que ocorreu-me nos umbrais da Torre Cega de Babel. Refleti: tenho tantos livros e tão pouco tempo. O estudante universitário não raras vezes é sobrecarregado com tarefas e leituras inúteis, que lhe são sugeridas ou impostas pelos mestres. Com o bom uso da falácia, da retórica e da escrita pode-se perfeitamente fingir que se cumpriu as tarefas desagraveis, sobrando assim tempo para o real aprendizado e, se for o caso, a leitura dos clássicos realmente indispensáveis, muitas vezes ignorados nas bibliografias curriculares.
    
Da mesma forma, o Quarto Pecado Genial protege o direito ao tempo. Anuncia que: o ócio é permitido, desde que sirva a sua evolução pessoal. O ócio grego. Muitas vezes uma atividade social ou esportiva soma mais ao aprendizado de um estudante do que o cumprimento de certas formalidades acadêmicas, tais como participações teoricamente obrigatórias em congressos vazios, debates inúteis e aulas sonolentas.
    
O Quinto e curto pecado apregoa que: não hesite em julgar. Uma das mais antigas inclinações do homem é a de ordenar, hierarquizar os elementos de seu mundo. Constitui um de seus direitos inalienáveis criar juízos acerca de outros homens, das artes, da filosofia, da política, do esporte e da religião. Da mesma forma, possuem o direito de ignorar uns, idolatrar outras e odiar outros homens. Sem a livre faculdade do julgamento não existe opinião, o que faz com que imediatamente não exista discussão e, tampouco, progresso. Eu, pessoalmente, não me furto de praticar este pecado. Posso mesmo confessar que professo o vício da feitura de listas julgadoras. Tento fazer o mundo caber em um papel. Não é necessário lembrar que você é responsável por suas escolhas.
    
O Sexto Pecado Genial avisa que: o orgulho é uma arma poderosa. O homem deve aprender a superestimar a si mesmo. Não apenas em um sentido de massagem ao ego e sim como combustível a superação dos próprios limites, que uma vez ignorados podem ser melhor transpostos. Sejam de ordem física, mental ou intelectual.
    
O Sétimo e último pecado versava sobre uma faceta do capitalismo: prostituir a cultura é um recurso degradante, mas aceitável. Pode servir a um escritor de talento que é obrigado a compor vulgares contos eróticos para sobreviver ou a um músico erudito que toca em bares de periferia, igualmente movido pela necessidade imediata. Mas o motivo da inclusão deste pecado em minha seleta lista foi outro muito mais relevante. Surgiu de forma curiosa e criminosa. Não consistiu em um simplório blefe ou em um irrelevante plágio; mas em uma verdadeira teia de relações sociais ilícitas.
    
Trabalhando na Torre Cega de Babel, em pouco tempo conheci os bastidores da Biblioteca. Tive acesso a seus segredos e a seu mercado negro. Existia entre as estantes um velado comércio silencioso de papel. O chamado Tráfico de Papiros: que em resumo seria a venda de livros velhos para fumantes de moita marijoana. Após um rápido embate ético optei por participar do jogo. Não tanto pela emoção quanto pelo lucro.
    
Tudo funcionava de forma simples. O interessado discretamente fazia o contado e apresentava o pedido. Determinava o número de páginas que desejava e, se fosse o caso, o livro de seu interesse. Usando de seus privilégios de movimentação dentro da biblioteca o bolsista resgatava o pedido, desmagnetizava o papel, impedindo assim sua detecção na saída, e realizava a entrega o mais rapidamente possível. O preço era determinado pelo valor e a idade da obra a ser mutilada. Havia a preferência pelos volumes mais antigos. Segundo os consumidores, o acumulo de poeira, substâncias químicas e o desgaste natural proporcionado pela ação do tempo, emprestava ao papel antigo um sabor todo especial. Desta forma, a sessão de obras raras era a mais visada. Via de regra, por uma questão de segurança, os grandes autores não eram importunados. A maior parte dos pedidos recaiam sobre poetas menores, cujo único mérito que possuíam era o de terem vivido há mais de cem anos. Por serem obsoletos, e, portanto, ignorados, a direção da biblioteca jamais investigou seriamente o desaparecimento destas páginas e o tráfico sobrevive ainda hoje; não sem lucro para muitos membros do alto escalão administrativo. (...)
 

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