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POR EM 02/03/2009 ÀS 07:28 PM

O pensamento é o armazém de tudo que pulsa e arde em nós

publicado em

No próximo domingo, completa 18 anos da morte de Pio Vargas. A carreira meteórica do autor de “Anatomia do Gesto” e “Os Novelos do Acaso” foi interrompida tragicamente, por uma overdose de cocaína, na tarde de 8 de março de 1991. A carta a seguir, escrita em dia incerto de julho de 1989 e dedicada aos muitos amigos, elucida dúvidas sobre a morte do poeta goiano, que foi apontado por Paulo Leminski como um de seus sucessores. O texto foi mantido como foi escrito por Pio Vargas.

 


A CARTA DE DESPEDIDA

Aquino e Gleib! um dia, quando eu estiver distante, lembrem-se que vocês foram a minha família real e absoluta. Em qualquer lugar, estarei sempre do lado de vocês.

As pessoas dizem que sou porra-louca, doido, mas criativo, querem ver:

O Aquino diz que sou paranóico, o mais louco da turma, se é que ela existe! O Bira diz que não sou confiável, porque sou voado, aéreo; diz que sou seu filho mais velho. Grande Bira! O Rogério diz que ainda sou ingênuo, que não sei, às vezes, ressalta, esperar a hora certa; é um dos que mais me incentiva, porém e ainda bem!; O Brandão justifica o nome: é brand-ão! Um gênio da vida que optou pela música, fazendo poesia de tudo e incentivando a todos com sua forma sincera de ser genial. Nunca consegui explicar com palavras o amor que sinto por ele.

A Edilene, minha grande! Infelizmente eu não soube amá-la como merecia; sacrificou muita coisa por mim, sempre conseguindo achar um vácuo no peito para agasalhar o perdão; você será recompensada, Edilene: estou certo de que o mundo (ou o destino?) reserva uma grande e adorável surpresa para você. Vá em frente, “mozim”!

O Viromar, a Dinaídes, a Magda, a Dininha, a Celina, a Tâmara, a Eucione, o Braz, meu mestre, o Delermando, a Abadia, o seu Amaral, o PX, o Omar, o inigualável, a Mary Anne, a companheira que me ensinou a ser Assessor Geral, a Maria Barbosa, a grande benfeitora e companheira das difíceis horas do Fórum e de outros momentos (obrigado pela capa do livro), o Simas, que está sempre para “simas”, o Liah, o inesquecível, o Gomes, o Dacruz, o Hildenor, gente boa até debaixo d'água, ser humano nota 10, a Roseane que sempre me dizia dos meus prêmios com uma ironia incentivadora (obrigado), um ser supremo, há de pagar a todos.

Ah, estou esquecendo o Altino, o Gilberto gente boa Correia, o Duro Oliveira, gênio, o Mustafé, parceira pela vida afora, o Bolívar que sofreu muito na minha mão, mas nunca conseguiu ficar chateado comigo, o Tião Pinheiro, amigo óbvio, mas sempre distante (um mestre dos bons conselhos), o Luís Augusto, Amaury Gracinha, o Nilton Júnior, que fui conhecendo e amando, o Leminski, que ao lado do Edival, Ruy, Noildo, Bira Galli, me ensinaram tudo de poesia-de-vida (a emoção e tesão constantes, a Mastrela, a Jô e a Heloise, cúmplice de meu sentimento mais desesperado, que todos (quem sabia, é claro!) confundiram com caso, quando na verdade era quase apenas uma vontade louca de me fazer capaz de amar com liberdade real, para dentro do apartamento do meu peito, onde habita um condomínio de ardores, amores e outros odores vitais, o Marconi, com sua inescondível (existe o termo?!) insegurança, que no fundo, a mim pelo menos, só transferia estima, consideração e respeito, o Markão, o Roberto, o Marcelo “Vamoali”, o Ciro Moura, pessoa que sofreu por ser grande demais para este mundo, o Adory, que eu adorava pelo jeito “diferente” de ser sincero, simpático, sensível e correto para consigo mesmo; o Osvaldinho, e seu inevitável para a política, sofrendo pela ingenuidade, vontade de ser grande, e a mistura nem sempre benigna de tudo isso, a Gleib! Que me amava (e ama, estou certo), o Aquino da exata forma que ele é, o Negão (Olivaldo), Vilton, sábio habilmente inseguro e carismático (ressalva: só os amigos sabem que o Vilton é inseguro, mas, como todo sábio, inteligentíssimo), o Valteir, meu inconfessável fã, meu absoluto amigo, meu real correligionário do sorriso sem tréguas (lembra, Valteir?), o Miguel, a “Tiana”, dois seres que aprendi a amar pelas suas indiscutíveis capacidades de superarem a percalços e injustiças, o Rosimar, a Cida e o Magno (cadê esse cara, hein?), a Geisa, a Romilda, a Maysa, que eu adorava, adoro, aliás, pelo jeitão de ser ela mesma, sem enganações, apenas para agradar a sociedade, esse “ser” nojento, abstrato, falso e, é claro, podréssimo!, o Adilon, o Izecias, um sábio ser, a Rosângela, agressivamente simpática e irreverente, a Dell, o Gilmaré, a Velu, poetíssima, o Orley, outro que fui conhecendo e gostando, o “Bechano”, o Batista, outro do largo sorriso, o Marcelo grande “canalha” Heleno, ser humano que será (é, aliás) capaz de multiplicar-se em vários, para ser o poeta do psicólogo, Pedro Humberto, que eu achava (macho, aliás) interior e exteriormente lindo, Star-Chic-Célio, o Pádua, o Reny-tente Cruvinel (...) companheiros de essência musical, o masofi-maluco, um-qualquer-um, parceiro bom e amigo, o Júnior, que mora ao lado de casa, e eu gosto muito pelo seu jeito montesclaríssimo de viver, o João Batista Peres, prefeito, amigo e uma espécie de Pai, com sua sempre leal companheira Cleusa, minha espécie de mãe, certamente, especiais para mim, juntamente com Noildo e Romilda, Alam Pimentel (Alan, é com “n”), o Professor lázaro faleiro, com minúscula, porque ele, com a Dona-Mãe-conselheira-e-confidente Laurinda Barbalho, foram meus mestres dos primeiros e imprescindíveis passos, o Porreta, o “Beat”, o Lázaro, Escultores da Simpatia, o Djalma e seu sorriso constante, abnegado, vivo, ótimo, a Divina e sua mochila (ou melhor, “michila”), a Débora, Renata, Júnior, Hugo e outros, vários outros seres grandes que deles certamente descenderão, o Lindomar e a Sandra, seres inesquecíveis e adoráveis, a Gisele, o José Reis e o Clenardo, que “tentaram” chatear-se (no singular, como é que é isso!?) – as vezes fico encabulado e perco a noção de concordância verbal (e vital, também, o que é pior!), o Braguinha Barroso, o Último Tipo”, ou melhor: “ótimo tipo”, o papõ, simpatia pura, o Lindomar, outra simpatia pura, a Silma, o Donizete, que me conheceu bem, e me ajudou a entender os seres que nasceram para contribuir, doar, ajudar, honestamente, mas de leve, esperto, matreiro, astuto, competente (grande Donizete), a Miriam, confidente, amiga, sempre solidária com meus supostos acertos e severa com meus inúmeros, incontáveis erros, (Miriam, cuida bem do Ruy, porque assim você faz o Gordo-Tupã-Tio-Faustão-e-sobretudo-Guru-de-todos-nós dar sempre mais de sua sabedoria ao necessitado mundo dos vivos, aqui, além, acolá, ou onde quer que seja). Que o Deus-Ruy esteja sempre conosco e nos ilumine nesta constante e cósmica missão de existir).

O Vagão, carinhosamente, e Wagner Luz, indiscutivelmente criativo e plural, que eu nunca pude, mas principalmente não soube retribuir seus inúmeros e eternos “favores”. Wagner, um dia a gente se encontra, numa melhor, juntamo-nos ao Donizete, o do Bar, seu amigo, para realizarmos a imprescindível (adoro esta palavra – é um dos meus arquissemas para textos em prosa) obra, ou missão, sei lá, de ser feliz, o Antônio Barreto, mineiro tranqüilo, que sabe que é sábio, mas não faz questão de'arrotar; ensina com a palavra, a quietude agressiva de suas metáforas absurdas, abstratadas (eu quis dizer abs-tratas), mas tudo bem! e necessárias para abs-tração dos vivos (eu disse “tração”), quer dizer: para se ordenhar o leite nas rés da existência, o Paulo, sempre Leminski, mestre dos mestres, pai de todas as minhas certezas e dúvidas poéticas, o pai-tudo, o multi-total, no mais absurdo (de novo) significado destas expressões, o Wertemberg, o Altino, o Delgado (costumo chamá-lo carinhosamente de “intestino delgado”, pela sua mais completa incompetência para ser grosso), o Coelho Vaz, sempre tranqüilo e amigo, com uma sinceridade que não se revela a qualquer um, o Iury (nunca escrevi este nome corretamente) Gordinho, poeta correto para consigo, em sua duradoura amizade. Meu cobrador de iniciativas!

Tem mais — Tem muito mais, porque de repente descubro que o bloco acabou e eu ainda estou começando a contar os amigos, meus incontáveis amigos. Engraçado: de repente me dou conta da minha facilidade de fazer amizade. Tem até um caso da minha “briga” com o “Piolho”, Erivaldo inintendível Nery, que depois (passa a escrever no verso, do fim para o início) por um pedido de desculpas seu, espalhou que eu o havia assediado para solicitar-lhe gentilmente perdão. E mais: que de presente eu lhe dera um livro meu, das edições “Porranenhuma” (não deixem que ela morra, por favor), autografado... É certo que, ao contrário do Drummond, eu sempre gostei de dar autógrafo. E ao contrário do Gilmaré, eu gosto de pedir perdão. E como gosto. Sim, porque o perdão não repara o erro, mas restaura a certeza de que é possível acertar da próxima vez. Sempre há próximas vezes, em tudo, todos e... chega! Usei uma reticência, coisa que detesto, mas me perdôo. E por falar em auto-perdão (não sei se é separado ou junto, pô!), digo-lhes ainda, e veementemente, que é necessário, essencial até, o perdoar-se constantemente. Exatamente porque, conforme digo no poema “Plural de Enigma”, “é preciso perdoar-se, antes que seja aberto o leque sem retorno da sentença”. Pedir desculpas a si mesmo é admitir a existência do outro, o radicalmente outro, que habita seu mais íntimo labirinto de emoções e sentimentos.

Pausa: ô canetinha ruim, nossa senhora da penha! Pelamor de deus, quê que isso!. Puta merda? Ave-maria, pelamãe do Guarda! E chega de reclamação! Vamos continuar, eu escrevendo e você lendo. Eu (é do livro Grünewald) escrevivendo pelo texto afora e você vendo morrer a cada frase essa inútil e desesperada vontade de querer ser importante. Sim, porque quem escreve à mão só quer mesmo ser melhor que muita gente e muita coisa também é claro! Dela há pouco de perdão, mas o escrever em si é um ato de incessante busca de perdão, sobretudo se considerarmos que quando escrevemos algo em nós parece de repente aliviar. Escrever é viajar quieto, é ir longe sem mover-se, é voltar sem nunca ter ido, é sair sempre de onde supostamente se está para os mais extasiantes e estranhos lugares, ocasiões e situações. Escrever, enfim, é subir como que, desce, sabendo que a superfície enigmática do papel é, a um só tempo, labirinto, exílio, certeza, solidão e desafio. Absoluto desafio. Um desafio que não se abala jamais, porque é perceptível, mas intocável, sem ser matéria (matéria sólida, como insistiria Ruy Jr., o guru) e intocável, porque imóvel, insensível (ainda que não concorde Aquino, o João, meu irmão, e os outros irmãos, os “campos”) e inteiriços em sua formação solidamente visível. Mas, o mais complicado é que o pensamento, que engana quem o vê abstrato, é o mais concreto dos sentidos humanos. O pensamento é, definitivamente, o sexto sentido. É o que incomoda, tortura, propõe, realiza, espera, vai, fica, sente absurdamente, enfim! O pensamento é o armazém de tudo que pulsa e arde em nós. Por isso, pensar é sofrer, com prazer, embora, ou não, sei lá: neste momento não penso em quase nada, porque medito (e me dito!) e tudo. E meditar é o fardo leve do pensamento. É a oportunidade de sermos o que podemos e o que queremos ser, sem nenhuma interferência, exterior, óbvio.

Mas, eu falava dos amigos, os que conquistei ao longo dos poucos anos de estrada e arte.

Então vamos lá:

Tem o Ulisses Aesse, com sua pose sutilmente professoral, o Tagore Biram e sua necessidade mal-resolvida de ser sempre o melhor, o que, no caso dele, é uma virtude, já que é lhe (existe esta combinação gramatical, hein Braz!) impossível ser de outro modo, então isso lhe transfere autenticidade e força de vida. O que me preocupa é que ser o melhor é um gesto de absurda solidão, pois, infelizmente, o mundo está avassolaradamente recheado de gente pior, inferior, medíocre, que nos governam. É por esse motivo que eu repito sempre, desde que ouvi pela primeira vez de um lábio iluminado, a frase: “a inteligência sempre serviu à mediocridade”. Não é sem razão, então, que os nossos, imerecidos mas eleitos, governantes, tentam, e na maioria das vezes conseguem, cooptar os inteligentes para assessorias e cargos de baixo calão (ou melhor: baixo escalão). Prosseguindo, tem o Sr. Eli, da lanchonete, que parece dar de comer ao mundo inteiro, tal a bondade de seu proprietário, a Maria José, que não perde nunca a elegância, sentimental e gestual, o Mário, o Eudaldo, “Seu Braz”, abnegados seres, que trocaram a tranqüilidade de serem apenas mais alguns funcionários públicos, para se dedicarem exclusivamente ao registro dos momentos, para os outros sempre importantes, para eles importantíssimos. Nunca perdem a posem nunca fazem cena, nunca reclamam, sempre fazem. E fazem bem – fazer bem para eles é uma questão de “vídeo” ou morte. Seres nota mil. A turma do cinema, sempre com o maior cartaz: projetando uma novidade que Goiânia, infelizmente, ainda não descobriu na sua totalidade. A equipe que trabalhou comigo na Caixego, em todas porque passei, também me vem à mente. E eu recordo cada um, na sua característica pessoal e intransferível e identificadora.
 

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Comentários (2)

  • Pio, um Sonido eterno!.....

    11 meses atrás por Ruy
  • Por conta de um projeto que está em vias de acontecer e que envolve a obra de Pio Vargas, fui procurar conhecê-lo e ler a sua poesia. Junto a esse encontro deparei-me com uma porção de depoimentos de pessoas que com ele conviveram. Essa carta, como muita coisa que li dele, comovem pelo que dizem, pela imensa humanidade que demonstram e pela forma como isso acontece: sanguínea, visceral, adoravelmente sincera. Tá ai um sujeito que eu queria ter conhecido, e que de certa forma todos podemos e devemos conhecer através de sua poesia.

    2 anos atrás por Carlos Augusto Silva


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