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POR EM 01/12/2008 ÀS 08:22 PM

A vida é curta pra ser pequena

publicado em

Chacal é o maior expoente da chamada Poesia Marginal ou Geração Mimeógrafo, movimento que marcou o cenário cultural brasileiro no início dos anos 70. Também fez parte da lendária revista Navilouca e do grupo Nuvem Cigana, que misturava performances teatrais com poesia. Arredio a entrevistas, Chacal afirma que não gosta delas para evitar certas perguntas. Depois de quatro meses de insistência e tentativas em vão, ele aceitou falar, numa entrevista telegráfica, cheia de tiradas satíricas, que sempre marcaram a carreira do poeta

(Entrevista publicada em 2004)


Onde começa a genealogia do poeta Chacal?

Chacal – 24 de maio de 1951, quando nasci.

Por que você não gosta de dar entrevistas?

Chacal – Para evitar determinadas perguntas.

Qual a melhor definição de Chacal: um homem feliz, angustiado, mal-humorado, cheio de amor e compaixão, ou tudo isso ao mesmo tempo?

Chacal – Um cara indefinido.

Com quantos mimeógrafos se fazia um poeta marginal? O que restou dos anos 70?

Chacal – O desejo de se divertir apesar de tudo.

Pós-modernidade é termo ultrapassado?

Chacal – Assim com o pós-passado é ultramoderno.

O poema “Rápido e Rasteiro”, que você escreveu nos anos 70, entrou para a história do cânone brasileiro e está entre os cem melhores do século. Nele você afirma que vai haver uma festa e você irá dançar até o sapato pedir para parar, depois você tira o sapato e dança o resto da vida. Como tem sido a dança entre o Rio de Janeiro, Londres, Amsterdã, Nova York?...

Chacal – É bom saber dançar. Manter um equilíbrio dinâmico.

No início dos anos 80 você morou em Brasília e foi colaborador do Correio Brasiliense. Você escreveu que ficou impressionado com a agitação daquele coletivo de artistas e poetas, unidos por um sentimento de irmandade meio hippie. Qual a diferença entre os marginais de Brasília e os do Rio?

Chacal – Brasília é mais bucólica, mais cósmica. O Rio é megaurbana e praiana. Gosto de céu, da chuva em Brasília.

Quem é o grande poeta brasileiro de todos os tempos?

Chacal – Depende do dia, do poema e do humor.

E os poetas de hoje? Há uma crise criativa?

Chacal – A poesia está em trânsito para outras linguagens. Essa que conhecemos tem que se adaptar a novas formas para chegar ao outro e falar a gíria do momento.

O Paulo Leminski disse "A palavra ‘lúdico' é a chave para a poesia de Chacal". Como era sua amizade com ele?

Chacal – Tive apenas um contato com ele no Circo Voador, em 85. Ele estava apaixonado por uma palavra.

Ainda sobre amizades, fale um pouco do Cacaso.

Chacal – Cacaso era professor na ECO em 1972, e eu, aluno. Fizemos juntos a coleção "Vida de Artista". Ele trazia a tradição, e eu, a invenção. Foi um encontro muito útil.

Como foi trabalhar na Rede Globo?

Chacal – Inumano.

Quais os seus atuais projetos literários?

Chacal – Faço minhas obras quase completas. Espero lançá-las este ano.

Alguns dizem que a Poesia Marginal foi mais o sintoma de uma geração do que uma elaboração da linguagem. Como encara as críticas ao aspecto superficial da Poesia Marginal?

Chacal – Foi a elaboração de uma cultura descartável de prestobarbas, embalagens One Way. As críticas vêm de uma visão acadêmica e sem função na vida de hoje.

Bernardo Vilhena, Charles Peixoto e Ronaldo Santos compunham o grupo Nuvem Cigana, que completou 30 anos em 2005 e que marcou o cenário cultural do Rio de Janeiro em meados da década de 70. Ainda são seus amigos?

Chacal – Estamos voltando a nos reunir.

Em 1994, num festival de poesia falada na cidade Gurupi, no Tocantins, eu vi uma menina de uns doze anos recitando um poema seu. Qual explicação por sua poesia ter chegado tão longe e para uma geração tão diferente da sua?

Chacal – A informação hoje voa. Isso foi antes da Internet. Minha poesia fala para essas pessoas, adolescentes de todas as idades.

Você, ainda garoto, participou da Revista Navilouca. Como foi conviver com Waly Salomão, Torquato Neto, Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari, Lygia Clark, Hélio Oiticica, Ivan Cardoso, Caetano Veloso? A nave era mesmo louca ou o conceito de loucura não se aplica a artistas?

Chacal – Foi uma viagem em torno da linguagem. Meus aqualoucos preferenciais. A loucura é um sopro no ouvido.

O que a Internet fez com a poesia é benéfico?

Chacal – A Internet é benéfica. A poesia, não.

Se pudesse voltar no tempo, o que mudaria na sua vida?

Chacal – Não sei.

A vida é curta pra ser pequena?

Chacal – É.

 

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