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POR EM 16/02/2009 ÀS 09:35 PM

A cena no escuro

publicado em

(Poema inspirado pela peça “Travessia parte II: De tão longe venho vindo”, com o Grupo Teatro Ritual, de Goiânia, explorando linguagens existentes nas fronteiras entre o teatro e a dança. O poema foi escrito às escuras, com pouca ou nenhuma luz, daí o aspecto de penumbra — acredite se quiser, mas consigo escrever ou “voar” no escuro, em meu pequeno bloco de anotações, por isso costumo dizer que tenho brevê de morcego. A peça foi apresentada em 26 de novembro de 2008, e anotei o poema em tempo hábil ou real, no teatro do Centro Cultural de Porangatu. “Travessia parte II” constou da programação do 7º TeNpo – Mostra de Teatro Nacional de Porangatu, realização anual do governo de Goiás. Publico o poema ainda em estado provisório, como forma de experimento, a ver no que resulta levá-lo adiante. Dedico ao Grupo Teatro Ritual e à professora Mazé, da Universidade Federal de Goiás, que esteve presente àquele evento, e, sem ter visto o poema, gostou do título “A cena no escuro” ).

 
 
A palavra é o centro de tudo,
mesmo em silêncio.
A pronúncia que se insere no gesto.
A palavra é o ser que incide e reside nela,
contido nela, para conter-se o sentido,
e assim a palavra
em peso e medida de si mesma,
e assim os seus conteúdos.
 
Gestos são palavras que se movem.
O ser abre os olhos com as pálpebras da palavra,
fala quando pisca, e se anuncia.
O ser é o anunciado no verbo,
o ser das palavras. O ser que ali vem
é o ser que ali vai.
 
O que se articula no ser
senão o que está em si e para fora de si?
O ser é tudo que se extravasa e transborda
pelas bordas de sua vida.
O ser se busca e se leva
com o que, sozinho, é só seu,
até outro ser, até ser outro, até não ser mais.
 
Oriundo do próprio silêncio,
o ser é a lanterna de suas escuridões,
de seus abismos, ele mesmo.
As lanternas do ser não são o ser,
mas apenas as lanternas
de sua possibilidades
e finitudes.
 
Travessia dos começos e do fim,
de onde vem, para onde vai,
esse ser de sombras,
de tão longe vindo?
O ser é o texto de seus desatamentos.
O ser é o que é possível de ser.
O ser que se envolve em seus fios
em si mesmo preso,
até se desatar de si,
até sair-se da névoa
de seu silêncio.
 
O ser é o que se move para se soltar,
até onde ir, até onde não.
Libertação? Incógnita,
esse ser aí,
querendo ser, querendo ir
além de si.
 
Por incompleto e só,
como veio, como sempre foi,
sem saber aonde vai,
e voltando,
porque não se encontrou,
como não se encontra
no mesmo ponto de partida.
 
O ser é uma cena no escuro,
no escuro da cena,
mise-in-scène do eu em si,
sem outra opção de ser
senão a de buscar-se 
onde já não se encontra.
O ser é só uma encenação.
Travessia
de uma noite para outra,
de um dia para outro dia,
por onde as sombras caminham,
como a névoa,
como as nuvens,
como cinzas ao vento.
 
Ora dúbio, ora dividido,
procura-se o indivíduo.
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