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POR EM 27/10/2008 ÀS 01:55 PM

Saraband, doce-amarga suíte

publicado em


Saraband (2003), palavra usada para denominar o movimento lento de uma suíte musical, é o título do último filme de Ingmar Bergman. Pretensamente a continuação de Cenas de um casamento (1973), aliás ambos foram feitos pra TV, a meu ver aproxima-se mais de Morangos silvestres (1957), na medida em que trata de duas obsessões do diretor sueco, morte e relação pai-filho, do que propriamente de casamentos (ou relações homem-mulher).

Marianne (Liv Ullmann incrivelmente charmosa como sempre, a despeito das várias rugas que agora lhe riscam a face) resolve visitar seu ex-marido ranzinza Johan (Erland Josephson, incrivelmente velho e ainda sublime) na casa de campo em que se “esconde”. Em frente a uma mesa cheia de fotografias velhas, Marianne começa conversando com o espectador, à maneira de Bergman (fico me perguntando se a insistência nesse recurso é produtiva). Johan está mais rabugento do que nunca, não consegue segurar os comentários amargos nem nesse primeiro encontro (minha vida foi uma sucessão de erros, até nosso casamento?, até nosso casamento).

Entre voluntária e involuntariamente, Marianne presencia e participa de um pequeno pedaço da vida atormentada de Johan, seu filho tão-amargo-quanto Henrik (Börje Ahlstedt) e a neta Karin (Julia Dufvenius), único sentido da vida de ambos, Johan e Henrik. Sem qualquer esforço Marianne ganha a confiança de jovem Karin, torna-se uma espécie de avó. E aqui uma queixa: Bergman poderia dar um pouco mais de pistas quanto ao que aconteceu com os personagens, com a mãe de Henrik, por exemplo. Além do mais, em algumas cenas Börje Ahlstedt parece quase tão velho quanto Erland Josephson, tornando quase (quase!) inverossímil que sejam pai e filho. Mas, tudo bem, dá pra relevar isso.

Henrik sufoca a filha de amor após a morte da esposa, amor este que o pai Johan se negou a lhe dar.

Difícil dizer o que é mais nocivo. E impressionante ver Johan pedir notícias (!) das duas filhas pra Marianne, uma das quais internada num hospício e, algumas cenas depois tratar Henrik com um desprezo assustador e confessar pra Marianne que detestava o amor grudento que o filho lhe oferecia quando criança. Mas não chega a ser uma surpresa, vindo de Bergman, como se pode constatar logo no início de seu livro Imagens (Martins Fontes):

“Por toda essa história [Morangos silvestres] perpassa um só motivo, apresentado sob múltiplas e variadas formas: a insuficiência no jogo da vida, o vazio, a ausência de perdão. Ainda hoje não posso avaliar, e naquela altura muito menos, como eu, por meio de Morangos silvestres, estava implorando a meus pais: vejam, compreendam e, se possível, me perdoem.” (pag. 20) (...) “A força motora de Morangos Silvestres é, por conseguinte, uma tentativa desesperada de me justificar perante meus pais que me voltam as costas e a quem dera dimensões desproporcionadas, míticas, tentativa essa que estava condenada a falhar.” (pag. 22)

Tudo isso é muito comovente, até ficamos com peninha de Ingmar. Só que poucas páginas depois ele confessa:

“Vejo-me como um dos melhores artistas do mundo. (...) Mas, francamente , eu estava chegando a uma idade em que o dinheiro já perdera toda importância. Agora vivo só, depois de vários desquites que me custaram bom dinheiro. Tenho muitos filhos que mal conheço, que até desconheço em absoluto [essa é quase uma fala, letra por letra, de Johan]. Meus fiascos humanos são notáveis. Daí me esforçar por ser um artista excelente, que entretém.” (pag. 27)

Pois é. Sem comentários.

A sarabanda tocada por Karin, a pedido do pai, Henrik, é a da suíte pra violoncelo No. 5, de Bach. Belíssima, quase sensual, em suas curvas lentamente harmônicas, abraçando e entregando-se voluptuosas em um incesto permitido com a mão (mãe?) que massageia as cordas do cello em... Opa, exagerei. Até perdi o fio da meada. Ah, sim. Bach. Bergman. Doce-amargo. Na verdade, muito mais amargo do que doce. Está mais pros prelúdios atormentados das suítes 1 e 4 do que pra qualquer das sarabandas de qualquer das suítes pra violoncelo. Desaconselhável a pessoas com propensão à depressão. Aconselhável a quem estiver com a cabeça no lugar e aprecie entretenimento inteligente.

PS: Jurei que não faria isso, não citaria Woody, mas é mais forte do que eu. A cena inicial de
Maridos e esposas (1992), de Woody Allen, é uma quase cópia da cena inicial de Cenas de um casamento (1973).

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