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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:23 PM

A mãe da bos­sa no­va

publicado em

Eli­se­te Car­do­so — Uma Bi­o­gra­fia, de Sér­gio Ca­bral, é pro­du­to de uma pes­qui­sa me­ti­cu­lo­sa, mas a edi­ção da Lu­mi­ar Edi­to­ra é des­cui­da­da. Há vá­rios er­ros (a can­to­ra nas­ceu em 1920 e mor­reu em 1990, mas te­ria si­do en­tre­vis­ta­da em 1893) e al­gu­mas pa­la­vras saí­ram fal­tan­do le­tras, pos­si­vel­men­te por de­fei­to de im­pres­são 

Num pa­ís sem gran­des no­vi­da­des mu­si­cais de qua­li­da­de, o re­lan­ça­men­to do dis­co “Can­ção do amor de­mais”, de Eli­ze­te (Eli­zeth ou Eli­se­te) Car­do­so, que ban­cou a bos­sa no­va, de­ve­ria me­re­cer pá­gi­nas e pá­gi­nas dos jor­nais. O dis­co vol­ta ao mer­ca­do com a ca­pa ori­gi­nal (mú­si­ca: An­tô­nio Car­los Jo­bim; po­e­sia: Vi­ni­ci­us de Mo­ra­es), ago­ra men­ci­o­nan­do Jo­ão Gil­ber­to co­mo vi­o­lo­nis­ta, com tex­to de Vi­ni­ci­us (es­cri­to a mão) e, no can­to di­rei­to, a fo­to­gra­fia de Iri­neu Gar­cia, o jor­na­lis­ta que, do­no do se­lo Fes­ta, ava­li­zou o dis­co.

Gra­va­do em 1958, “Can­ção do amor de­mais” é ti­do co­mo o pri­mei­ro dis­co da Bos­sa No­va, pois Jo­ão Gil­ber­to só lan­çou seu pri­mei­ro dis­co três mes­es de­pois. Na sua es­plên­di­da bí­blia, “
Che­ga de Sa­u­da­de — A His­tó­ria e as His­tó­ri­as da Bos­sa No­va” (Edi­to­ra Com­pa­nhia das Le­tras, 461 pá­gi­nas), Ruy Cas­tro es­cre­ve: “‘Can­ção do amor de­mais’ é o fa­mo­so LP que Eli­ze­te Car­do­so gra­vou em abril de 1958 pa­ra um se­lo não-co­mer­cial cha­ma­do Fes­ta. No fu­tu­ro, iri­am fes­te­já-lo co­mo o dis­co que inau­gu­rou a Bos­sa No­va, por ser to­do de­di­ca­do às can­ções de uma no­va du­pla, Tom [Jo­bim] e Vi­ní­ci­us [de Mo­ra­es] — e, prin­ci­pal­men­te, por­que Jo­ão Gil­ber­to acom­pa­nha­va Eli­ze­te ao vi­o­lão em du­as fai­xas (‘Che­ga de sa­u­da­de’ e ‘Ou­tra vez’), fa­zen­do pe­la pri­mei­ra vez o que se­ria a ‘ba­ti­da da Bos­sa No­va’”. No óti­mo mas ha­gi­o­grá­fi­co “Eli­se­te Car­do­so — Uma Bi­o­gra­fia” (Lu­mi­ar Edi­to­ra, 402 pá­gi­nas), Sér­gio Ca­bral es­cre­ve: “A fai­xa do dis­co que mais re­per­cu­tiu, atra­vés do tem­po, foi ‘Che­ga de sa­u­da­de’, apon­ta­da co­mo a pri­mei­ra gra­va­ção em que se ou­ve a fa­mo­sa ba­ti­da de vi­o­lão de Jo­ão Gil­ber­to, sen­do, as­sim, o pri­mei­ro si­nal da exis­tên­cia da Bos­sa No­va”.

Lan­ça­do em maio de 1958, o dis­co não fez su­ces­so, “não foi se­quer um su­ces­si­nho”, diz Ruy Cas­tro. Eli­ze­te e Jo­ão Gil­ber­to não se en­ten­de­ram. Jo­ão, se­gun­do Ruy Cas­tro, “não es­ta­va gos­tan­do da gra­vi­da­de com que a Di­vi­na tra­ta­va as mú­si­cas, co­mo se fos­sem pe­ças de al­gum re­per­tó­rio sa­cro — tal­vez por­que as le­tras fos­sem de um po­e­ta im­por­tan­te, Vi­ni­ci­us de Mo­ra­es. Jo­ão que­ria que Eli­ze­te as can­tas­se mais pa­ra ci­ma, prin­ci­pal­men­te os sam­bas, e às ve­zes se me­tia a dar pal­pi­tes. Mos­trou-lhe co­mo fa­zia com ‘Che­ga de sa­u­da­de’, atra­san­do e adi­an­tan­do o rit­mo de acor­do com o que acha­va que a le­tra pe­dia, e ten­tou in­du­zi-la a ten­tar al­go pa­re­ci­do. Mas Eli­ze­te não se in­te­res­sou mui­to por su­as su­ges­tões e, pe­la in­sis­tên­cia, deu a en­ten­der que não pre­ci­sa­va dos seus pal­pi­tes”. Há, por as­sim di­zer, cer­ta má von­ta­de com Eli­ze­te, por­que era uma ar­tis­ta tra­di­cio­nal can­tan­do uma mú­si­ca não tra­di­cio­nal. A tra­di­ção às ve­zes re­ve­la o no­vo. O que se­ria da Bos­sa No­va sem uma can­to­ra cé­le­bre co­mo Eli­ze­te? Se Jo­ão Gil­ber­to é o pai da bos­sa no­va, Eli­zeth Car­do­so é a mãe. In­dis­cu­ti­da.

Co­mo não tem má von­ta­de com Eli­ze­te Car­do­so, pe­lo con­trá­rio, tem uma boa von­ta­de não ra­ro ex­ces­si­va, Sér­gio Ca­bral é jus­to: “Pa­ra 12 das 13 fai­xas do dis­co, Eli­se­te Car­do­so te­ve in­ter­pre­ta­ções de­fi­ni­ti­vas e con­sa­gra­do­ras. (...) São mú­si­cas que me­re­ce­ri­am de­pois de­ze­nas de gra­va­ções com mui­tos ou­tros in­tér­pre­tes. Ne­nhu­ma de­las, po­rém, su­pe­rou as que Eli­se­te fez no ‘Can­ção do amor de­mais’ ou em ou­tras opor­tu­ni­da­des, pois a pró­pria can­to­ra achou que po­de­ria can­tá-las me­lhor e can­tou, de fa­to, em dis­cos gra­va­dos pos­te­rior­men­te”.

Me­nos jo­ão-gil­ber­ti­a­no (ma non trop­po) do que Ruy Cas­tro, Sér­gio Ca­bral re­al­ça o ca­rá­ter pre­cur­sor do dis­co de Eli­ze­te Car­do­so: “... a fai­xa ‘Che­ga de sa­u­da­de’, com Eli­se­te, ser­viu co­mo uma es­pé­cie de en­saio pa­ra o ar­ran­jo que Tom Jo­bim es­cre­ve­ria, lo­go de­pois, pa­ra a gra­va­ção de Jo­ão Gil­ber­to, es­ta, sim, a de­fi­ni­ti­va”. Sér­gio Ca­bral apon­ta um pro­ble­ma na gra­va­ção de ‘Che­ga de sa­u­da­de’: “Eli­se­te er­rou a le­tra. Em vez de can­tar ‘pa­ra aca­bar com es­se ne­gó­cio de vo­cê vi­ver sem mim’, can­tou ‘pra aca­bar com es­se ne­gó­cio de ja­mais vi­ver sem mim’ — que não sei co­mo os au­to­res dei­xa­ram pas­sar. O dis­co, ali­ás, só não é per­fei­to por cau­sa de ‘Che­ga de sa­u­da­de’ e do ba­i­ão ‘Vi­da be­la’. Mas é uma ale­gria ou­vi-lo ago­ra co­mo se­rá da­qui a 100 anos. O vi­o­lão de Jo­ão Gil­ber­to tam­bém apa­re­ce, com des­ta­que, em ‘Ou­tra vez’, es­ta, sim, uma ex­ce­len­te fai­xa. Os ar­ran­jos de Tom Jo­bim são de uma cri­a­ti­vi­da­de e de uma de­li­ca­de­za exem­pla­res. Na fai­xa ‘Es­tra­da bran­ca’, em que ape­nas o pi­a­no de Tom acom­pa­nha Eli­se­te, a von­ta­de do ou­vin­te é de aplau­dir de tão bo­ni­ta. E nas can­ções mais len­tas, co­mo ‘Se­re­na­ta do ade­us’, ‘Mo­di­nha’, e ‘Can­ção do amor de­mais’, Eli­se­te ab­sor­veu com ex­tre­ma com­pe­tên­cia e ex­tra­or­di­ná­rio ta­len­to o cli­ma ca­me­rís­ti­co das pró­pri­as mú­si­cas e dos ar­ran­jos”.

O po­e­ta e com­po­si­tor Vi­ní­ci­us de Mo­ra­es es­cre­veu, com acer­to: “A di­ver­si­da­de dos sam­bas e can­ções exi­gia tam­bém uma voz par­ti­cu­lar­men­te afi­na­da; de tim­be po­pu­lar bra­si­lei­ro mas po­den­do res­pi­rar aci­ma do pu­ra­men­te po­pu­lar, com um re­gis­tro am­plo e na­tu­ral nos gra­ves e agu­dos e, prin­ci­pal­men­te, uma voz ex­pe­ri­en­te, com a pun­gên­cia dos que ama­ram e so­fre­ram, cres­ta­da pe­la pá­ti­na da vi­da. E as­sim foi que a Di­vi­na im­pôs-se pa­ra uma noi­te de se­re­na­ta”.

Se­gun­do Sér­gio Ca­bral, “foi por cau­sa de sua atu­a­ção” na gra­va­ção das mú­si­cas de Tom Jo­bim e Vi­ní­ci­us de Mo­ra­es “que, seis anos de­pois, o ma­es­tro Di­o­go Pa­che­co a con­vi­da­ria pa­ra in­ter­pre­tar as ‘Ba­chi­a­nas nú­me­ro 5’, de Vil­la-Lo­bos, no Te­a­tro Mu­ni­ci­pal de São Pau­lo e do Rio de Ja­nei­ro” .



O es­pí­ri­to de Po­li­car­po Qua­res­ma


"
Eli­se­te Car­do­so — Uma Bi­o­gra­fia", de Sér­gio Ca­bral, é pro­du­to de uma pes­qui­sa me­ti­cu­lo­sa, mas a edi­ção da Lu­mi­ar Edi­to­ra é des­cui­da­da. Há vá­rios er­ros (a can­to­ra nas­ceu em 1920 e mor­reu em 1990, mas te­ria si­do en­tre­vis­ta­da em 1893) e al­gu­mas pa­la­vras saí­ram fal­tan­do le­tras, pos­si­vel­men­te por de­fei­to de im­pres­são.

Quan­to as gra­fi­as dos no­mes, Sér­gio Ca­bral, meio Po­li­car­po Qua­res­ma, de­ci­diu adap­tá-las. Te­nho por mim que jus­to é in­di­car o no­me com o qual a pes­soa foi re­gis­tra­da. O na­ci­o­na­lis­ta Sér­gio Ca­bral pen­sa di­fe­ren­te. Sua ex­pli­ca­ção: "Op­tei pe­la gra­fia Eli­se­te pe­las mes­mas ra­zões que me le­va­ram a es­cre­ver ´Ari´ — e não ´Ary´ — no li­vro ´No Tem­po de Ari Bar­ro­so´, es­cri­to an­te­rior­men­te pa­ra es­ta mes­ma Edi­to­ra Lu­mi­ar: a lín­gua não po­de ser sub­mis­sa ao ar­bí­trio dos car­tó­rios. An­tes des­te li­vro, as en­ci­clo­pé­dias já ha­vi­am gra­fa­do Eli­se­te, co­mo re­co­men­da o bom por­tu­guês. Creio ape­nas co­la­bo­rar pa­ra que o no­me de­la as­su­ma a sua gra­fia de­fi­ni­ti­va, pois, re­gis­tra­da co­mo ´Eli­zet­te´, as­si­nou al­gu­mas ve­zes ´Eli­ze­te´ e só na se­gun­da me­ta­de da dé­ca­da de 60 o th no fi­nal de Eli­zeth apa­re­ceu na ca­pa dos seus dis­cos".

Ja­cob do Ban­do­lim, no li­vro, vi­ra Ja­có.

Pai de Eli­se­te quis sur­rar o jo­ga­dor Lê­o­ni­das Sil­va

Há his­tó­ri­as mui­to bo­as em "Eli­se­te Car­do­so — Uma Bi­o­gra­fia". Sér­gio Ca­bral con­ta-as com gra­ça.

Eli­se­te Car­do­so fi­cou co­nhe­ci­da co­mo a Di­vi­na e al­gu­mas pes­so­as se dis­se­ram pa­is da cri­a­ção. Sér­gio Ca­bral es­cla­re­ce, com ba­se em de­poi­men­to da pró­pria can­to­ra, que Di­vi­na foi uma cri­a­ção do jor­na­lis­ta e ho­mem de shows Ha­rol­do Cos­ta. De­pois de um es­pe­tá­cu­lo, Ha­rol­do Cos­ta de­ci­diu in­ven­tar que o su­ces­so ha­via si­do tão gran­de que "um gru­po" apa­re­ce­ra "por­tan­do" uma fai­xa que di­zia: ´Eli­se­te, a Di­vi­na". Ha­rol­do ti­rou o Di­vi­na do fa­to de um ami­go, o in­te­lec­tu­al ne­gro Iro­ni­des Ro­dri­gues, cha­mar a atriz Gre­ta Gar­bo de Di­vi­na.

Jo­vem, Eli­se­te apai­xo­nou-se pe­lo jo­ga­dor de fu­te­bol Lê­o­ni­das da Sil­va, o in­ven­tor da "bi­ci­cle­ta". O jo­ga­dor foi le­vá-la em ca­sa, de au­to­mó­vel (ca­so ra­ro, na épo­ca), e o pai per­gun­tou:

— Vo­cê veio de au­to­mó­vel?

Eli­se­te res­pon­deu:

— Bem... eu... quer di­zer...

— (gri­tan­do) Quem era aque­le ca­ma­ra­da? Quem era?

— Le­ô­ni­das.

— Que Lê­o­ni­das é es­se?

— Le­ô­ni­das da Sil­va, o jo­ga­dor de fu­te­bol.

— Quem? Não é pos­sí­vel! Não é pos­sí­vel! Vo­cê vai me pro­me­ter uma coi­sa: nun­ca mais vai en­con­trar com es­se cri­ou­lo, en­ten­deu?

Se­ri­a­men­te apai­xo­na­da, Eli­se­te fin­giu que acei­ta­va a or­dem do pai, mas con­ti­nuou na­mo­ran­do com o cra­que da se­le­ção bra­si­lei­ra de fu­te­bol.

"In­for­ma­do da opo­si­ção pa­ter­na, Le­ô­ni­das pas­sou a en­ten­der-se com Eli­se­te atra­vés de có­di­gos es­pe­ci­ais. Pas­sa­va pe­la ca­sa de­la e da­va três bu­zi­na­das. Ela saía e o en­con­tra­va na es­qui­na se­guin­te.

Jai­me Mo­rei­ra Car­do­so não era bo­bo e des­co­briu que o na­mo­ro con­ti­nu­a­va. Ame­a­çou sur­rar Eli­se­te com va­ra mar­me­lo. Ao sa­ber que o Fla­men­go jo­ga­ria com o Amé­ri­ca, num cam­po pró­xi­mo de sua ca­sa, "Jai­me anun­ciou que es­ta­ria no es­tá­dio pa­ra dar uma sur­ra em Le­ô­ni­das, em ple­no gra­ma­do e na fren­te da imen­sa tor­ci­da que, cer­ta­men­te, ocu­pa­ria as ar­qui­ban­ca­das do es­tá­dio da Rua Cam­pos Sa­les. Se­ria uma sur­ra da­que­las, pa­ra que ele nun­ca mais na­mo­ras­se a sua fi­lha. Eli­se­te de­sa­bou nu­ma cho­ra­dei­ra da­na­da, tão pre­o­cu­pa­da com o ve­xa­me que es­ta­ria pa­ra acon­te­cer. Ima­gi­na­va o pai [um mu­la­to de 1,90m] in­va­din­do o cam­po de jo­go pa­ra agre­dir o jo­ga­dor a pau­la­das, nu­ma ce­na que, cer­ta­men­te, en­vol­ve­ria os de­mais jo­ga­do­res, o ár­bi­tro da par­ti­da, tor­ce­do­res e po­li­ci­ais. Um es­cân­da­lo! Cho­rou tan­to que fez Jai­me mu­dar de idéia:

— Tra­te de ir à pa­da­ria e te­le­fo­nar pa­ra aque­le cri­ou­lo, pa­ra aque­le ca­fa­jes­te, di­zen­do pa­ra ele su­mir da sua vi­da.

— Mas es­tou de ca­mi­so­la!

— Vá as­sim mes­mo e man­da aque­le mo­le­que pa­ra o di­a­bo que o car­re­gue!

Cho­ran­do mui­to e mor­ren­do de pai­xão e de cons­tran­gi­men­to, foi ao te­le­fo­ne e co­mu­ni­cou a Le­ô­ni­das que o ro­man­ce che­ga­ra ao fim".

Em­bo­ra ti­ves­se ci­ú­me da fi­lha, Jai­me era mu­lhe­ren­go, não con­se­guia sus­ten­tar a ca­sa e, de­pois, aban­do­nou a fa­mí­lia. Eli­se­te co­me­çou a tra­ba­lhar aos 10 anos, co­mo ba­bá, e de­pois nu­ma cha­ru­ta­ria.

Ao ou­vi-la, na dé­ca­da de 1950, no Bra­sil, a can­to­ra fran­ce­sa Edith Pi­af le­van­tou-se e cum­pri­men­tou a co­le­ga bra­si­lei­ra: "C´est mer­veil­leu­se! C´est mer­veil­leu­se!" Sér­gio Ca­bral re­la­ta "que, sem sa­ber o que res­pon­der", Eli­se­te "abriu o ber­rei­ro". Foi cha­ma­da de ma­ra­vi­lho­sa por Edith Pi­af, elo­gi­a­da por Sa­rah Vaug­han e can­tou pa­ra Lou­is Armstrong e Nat King Co­le.

"A mai­or can­to­ra de sua ge­ra­ção"


No li­vro "
Uma His­tó­ria da Mú­si­ca Po­pu­lar Bra­si­lei­ra — Das Ori­gens à Mo­der­ni­da­de" (Edi­to­ra 34, 501 pá­gi­nas), o crí­ti­co e his­to­ri­a­dor Jai­ro Se­ve­ri­a­no es­cre­ve (pá­gi­na 294): "Em­bo­ra sem ja­mais ter al­can­ça­do o grau de po­pu­la­ri­da­de de Dal­va [de Oli­vei­ra] e Ân­ge­la [Ma­ria], Eli­zeth Car­do­so (Rio de Ja­nei­ro, RJ, 11 de ju­lho de 1920 — 7 de maio de 1990) foi uma can­to­ra mai­or — a mai­or de sua ge­ra­ção, na opi­ni­ão de mui­tos, que a cha­ma­ram de Di­vi­na. Do­na de uma sen­su­al e me­lo­di­o­sa voz de con­tral­to, qua­se ´mez­zo so­pra­no´, cu­ja qua­li­da­de era re­al­ça­da por uma téc­ni­ca apu­ra­da, Eli­zeth can­tou de tu­do, po­den­do-se clas­si­fi­car seu re­per­tó­rio co­mo uma sín­te­se do que se fez de me­lhor na mú­si­ca po­pu­lar bra­si­lei­ra de seu tem­po, com uma im­por­tan­te fa­se de­di­ca­da ao sam­ba-can­ção, ini­ci­a­da com ´Can­ção de amor´ (de Cho­co­la­te e Ela­no de Pau­la, 1950), o gran­de su­ces­so que a re­ve­lou. Is­so po­de ser apre­ci­a­do em sua vas­ta dis­co­gra­fia de mais de cin­qüen­ta LPs, na qual se des­ta­ca es­pe­ci­al­men­te um ál­bum que re­gis­tra o re­ci­tal re­a­li­za­do pe­la can­to­ra, o Zim­bo Trio, Ja­cob do Ban­do­lim e o con­jun­to Épo­ca de Ou­ro, no dia 19 de fe­ve­rei­ro de 1968, pro­du­zi­do pe­lo Mu­seu da Ima­gem e do Som, na épo­ca sob a di­re­ção de Ri­car­do Cra­vo Al­bin. Di­ri­gi­do e ro­tei­ri­za­do por Her­mí­nio Bel­lo de Car­va­lho, o es­pe­tá­cu­lo co­briu trin­ta anos de mú­si­ca bra­si­lei­ra, com Ja­cob e o Épo­ca de Ou­ro re­pre­sen­tan­do a tra­di­ção, o Zim­bo Tri­bo, a mo­der­ni­da­de, e Eli­zeth atu­an­do co­mo tra­ço de uni­ão en­tre as épo­cas fo­ca­li­za­das. Com sua ver­sa­ti­li­da­de, a Di­vi­na can­tou na oca­si­ão um re­per­tó­rio que ia de Pi­xin­gui­nha, Ary Bar­ro­so, No­el Ro­sa, Ores­tes Bar­bo­sa e o pró­prio Ja­cob a Tom Jo­bim, Vi­ni­ci­us de Mo­ra­es, Ba­den Powell, Chi­co Bu­ar­que e Mil­ton Nas­ci­men­to, en­tre ou­tros".

Ao vi­si­tar o Bra­sil, Car­men Mi­ran­da ou­viu Eli­zeth Car­do­so e, já nos Es­ta­dos Uni­dos, re­ve­lou ao ex-na­mo­ra­do Aloí­sio de Oli­vei­ra: "Co­nhe­ci no Rio de Ja­nei­ro uma mu­la­ta que can­ta pra chu­chu. Cha­ma-se Eli­se­te Car­do­so".

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