Uma inglesinha pobre nos trópicos
Um dos casos mais conhecidos de escrita a partir do ponto de vista dos mais pobres no Brasil foi um livro lançado em 1942, com o título de “Minha Vida de Menina”. Uma senhora de 62 anos da então alta sociedade carioca, Alice Dayrell Caldeira Brant publicou os seus diários, sob o pseudônimo de Helena Morley, com as histórias de sua passagem da infância para adolescência em Diamantina, norte de Minas Gerais

Cena do filme "Minha Vida de Menina"
Dizem hoje que a literatura e o cinema brasileiros tratam em demasia de pobres nas favelas e no sertão nordestino. Pouco haveria do universo da classe média na ficção contemporânea produzida no Brasil, de acordo com esse pensamento francamente conservador. Só não acrescentam, todavia, que são pobres representados e inventados por artistas de classe média, pois muito raramente abre-se espaço no campo cultural para autores oriundos das classes baixas. Esse vazio é por vezes ocupado por escritores como Ferréz e Paulo Lins – os modelos recentes para quem cria e vive nas periferias das grandes cidades brasileiras.
Um dos casos mais conhecidos de escrita a partir do ponto de vista dos mais pobres no Brasil foi um livro lançado em 1942, com o título de “Minha Vida de Menina”. Uma senhora de 62 anos da então alta sociedade carioca, Alice Dayrell Caldeira Brant publicou os seus diários, sob o pseudônimo de Helena Morley, com as histórias de sua passagem da infância para adolescência em Diamantina, norte de Minas Gerais. Filha de um inglês explorador de diamantes, ela observa a vida a seu redor na pequena cidade mineira que está em franca decadência pelo esgotamento das jazidas.
A própria história de publicação dos diários daria um romance ou um filme em si. Os escritos de Alice foram organizados pelo marido Mario Augusto Caldeira Brant, alto funcionário no governo Getúlio Vargas e escritor elogiado por Carlos Drummond de Andrade. Como os originais nunca apareceram e podem ter sido até queimados, as lendas correram soltas. Entre os suspeitos de terem mais do que editado o material, estavam Augusto Meyer e Cyro dos Anjos, este o autor da obra-prima na forma de diário ficcional “O Amanuense Belmiro”.
Em conversa com o crítico Alexandre Eulálio, Guimarães Rosa foi enfático a respeito da controvérsia: se houve de fato a reescrita por um adulto, “estaríamos diante de um ´caso’ ainda mais extraordinário, pois, que soubesse, não existia em nenhuma outra literatura mais pujante exemplo de tão literal reconstrução da infância”.
O livro “Minha Vida de Menina” chamou a atenção da poetisa norte-americana Elizebeth Bishop, que vivia no Brasil e traduziu a obra para o inglês. “Algumas páginas me evocavam outras, mais ‘literárias’: Nausícaa lavando suas roupas na praia, talvez com a ajuda suas escravas libertas; trechos de Chaucer; as crianças e campônios poéticos de Wodsworth, ou os pedintes errantes de Dorothy Wordsworth. Desde vez em quando, referências à escravidão me pareciam uma versão jamais escrita – brasileira e feminina – da história de Tom Sawyer e o negro Jim”, anotou Bishop, num belo ensaio em que lembra a visita a Alice Brant e a ida a Diamantina nos anos 1950.
Outro admirador das histórias de Helena Morley foi o pensador francês George Bernanos, que morou no Brasil nos 1940. Nos últimos dez anos, renovou-se o o interesse pelo livro com estudos de alto nível, como o de Roberto Schwarz (no livro “Duas Meninas”, de 1997), e a segunda versão para o cinema em “Vida de Menina” (2004), dirigida por Helena Solberg. A primeira filmagem havia sido de David Neves em 1969, com o título de “Memória de Helena”.
A ousadia maior coube, sem dúvida, a Roberto Schwarz, que comparou as histórias de Helena Morley à Capitu de Machado de Assis. Em meio ao espectro do escravismo e de homens cheios de caprichos, diz Schwarz, as duas meninas surpreendem pelo iluminismo, a clarividência de capturar a história daqueles tempos. “Sem favor, “Minha Vida de Menina” é um dos bons livros da literatura brasileira, e não há quase nada à sua altura em nosso século XIX, se deixarmos de lado Machado de Assis”, diz o autor de “Um Mestre na Periferia do Capitalismo”.





