Uma grande biografia de T. S. Eliot
Leio a magnífica biografia “” (Fondo de Cultura Económica, 377 páginas, tradução de Tedi López Mills), de Peter Ackroyd. O corpo das letras, muito miúdo, atrapalha mais do que a língua espanhola. Mas a riqueza de informações reunidas pelo autor apazigua, em parte, o nosso desejo de conhecer o “americano tranquilo”, revolucionário como poeta e conservador como homem.
Ackroyd conta a fabulosa história de um avô de Eliot, William Greenleaf Eliot. Embora fosse um homem frágil fisicamente, William construiu uma igreja, unitarista, fundou três escolas, uma universidade, um fundo de assistência para indigentes e uma comissão sanitária.
Grandemente influenciado pelo avô, Eliot disse que William governava, mesmo da tumba, a vida do filho e a dos filhos do filho. “Eliot sempre esteve possuído pelos mortos e esta possessão foi algo que aprendeu a sentir desde muito jovem”, escreve Ackroyd. Mais tarde, Eliot rompeu com a religião do avô e se tornou católico fervoroso, mas não rompeu com a história da família — oriunda da Inglaterra e, segundo sua mãe, também da França.
O cultor de Eliot está acostumado com sua poesia refinada e complexa, mas há outro Eliot, igualmente sofisticado, mas menos complicado. “Os Gatos” (Companhia das Letras, 112 páginas) é uma pequena obra-prima, deliciosa e extremamente bem-humorada, com tradução precisa e inventiva de Ivo Barroso. O livro havia sido publicado pela Editora Nórdica, com a mesma tradução, há mais de dez anos. Tem sido apresentado como infanto-juvenil. É parcialmente verdadeiro, pois os poemas podem ser compreendidos por crianças e adolescentes — foram escritos para crianças (tanto que usa, e bem, jogos de palavras, brincadeiras) —, mas tenho a impressão que agrada muito mais aos adultos. Trata-se de uma edição bilíngue.
Eliot, para feito de comparação, é o Carlos Drummond de Andrade da poesia americana (e até inglesa), mas quem mais se aproxima dele no Brasil é mesmo o cerebrino João Cabral de Melo Neto. Ao lado de João Cabral, Eliot é o mais cerebral dos poetas. É desses poetas que muitas vezes são mais iluminados, para o leitor, pela crítica do que por sua própria poesia.





