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POR EM 14/01/2010 ÀS 10:59 AM

Traumas argentinos

publicado em

Duas Vezes JunhoUm recruta do exército argentino encontra um caderno anotações aberto em seu local de trabalho, uma prisão. As primeiras palavras do diário dão o tom do ambiente: “A partir de que idade se pode comesar a torturar uma criança?”. A frase com o erro de ortografia (começar com “s”) chama a atenção do narrador e joga luz naquele universo em que não só as palavras estão deformadas. O tempo da narrativa é a Argentina de junho de 1978, em plena euforia da Copa do Mundo, que foi capitalizada por uma das ditaduras mais carniceiras e neoliberais da História da América Latina.

O início do romance “Duas vezes junho” (2002), de Martín Kohan, coloca o leitor dentro do universo de brutalidade e de silêncios. Não se trata de saber apenas como se tortura uma criança, mas como é possível contar uma história dessas. O autor adota o ponto de vista do torturador dos porões, sem no entanto buscar o revisionismo histórico para justificar ideologias de direita e criminalizar quem foi torturado. A escrita de Kohan mergulha na escuridão de quem usa a violência para supostamente controlar a “desordem” e acaba recorrendo às mais bárbaras violações. Os capítulos são todos bem curtos e construídos na forma de contraponto, intercalando, por exemplo, uma conversa entre os soldados e as precauções que devem ser tomadas para não matar a prisioneira que acabou de dar a luz a uma criança. Este bebê é o motivo da pergunta inicial, sobre a idade em que se pode começar a violar uma pessoa. O estado de saúde da torturada leva o narrador a procurar por Buenos Aires seu superior para saber os próximos procedimentos: deveriam matá-la ou mantê-la viva. O dia dessa bsuca é o de um jogo da Copa do Mundo de Futebol de 1978.

Kohan escolheu justamente o dia da única derrota do time da Argentina. A cidade vazia e o clima de luto após o jogo são uma das coisas mais impressionantes da literatura recente produzida na América Latina — sobretudo a que aborda o trauma histórico das ditaduras. A segunda parte do romance avança até junho de 1982, em mais uma Copa do Mundo e com o fantasma da Guerra das Malvinas, um dos muitos delírios das ditaduras latino-americanas. Ambos eventos estão contaminados pela euforia dos grandes acontecimentos e expõem as cicatrizes em carne viva.

A ficção de Kohan participa da construção desse arquivo para manter a memória dos tempos sombrios. Ele escreveu ainda “Ciências morais” (2007) e “Museo de la revolución” (2006), que são mergulhos neste mundo da violência total. São os registros fundamentais para um país que resiste a se lembrar da experiência ditatorial. Basta lembrar que, neste mês, o governo argentino publicou um decreto para abrir os arquivos de 1976 a 1983. Aqui, no Brasil, a casa está pateticamente caindo com a mera proposta da Comissão da Verdade para esclarecer os anos de 1964 a 1985. 

A literatura argentina tem inúmeros romances que enfocam os anos da ditadura. Tomás Eloy Martinez vem realizando a genealogia dos autoritarismos (“Romance de Perón” e “Santa Evita”) e a representação dos desaparecidos políticos (“Purgatório). Ricardo Piglia escreveu “Respiração artificial” em 1980, que é uma tentativa de capturar as várias maneiras de contar a História. O clássico de Piglia está sendo relançado no Brasil. Também publicado por aqui, há o livro de Luis Gusman, “Villa”, a história de um médico na passagem do peronismo ao golpe militar de 1976.

As ditaduras latino-americanas não foram a solução para impedir a instalação de governos socialistas na região. Foram projetos de reforma das sociedades em direção ao capitalismo e ao controle dos comportamentos das pessoas — a moral dos bons costumes. Os interrogatórios para caçar os comunistas evoluíram para a destituição de sujeitos, como aparecem em “Duas vezes junho”. De um choque elétrico, passa-se a perguntas sobre qual o momento permitido para torturar uma criança. O personagem criado por Kohan conclui que é a partir do peso de cinco quilos — o que salva o bebê Guillermo.

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