Tanto Faz: um clássico dos anos 80
Originalmente publicado em 1981, “Tanto faz” é o retrato de uma geração que experimenta seus limites num cotidiano desregrado e hedonista
Um exercício de liberdade, na forma e no conteúdo. Assim pode ser definido o romance “Tanto Faz”, de Reinaldo Moraes, lançado em 1981 pela mítica coleção Cantadas Literárias, da Editora Brasiliense.
O economista Ricardo de Mello consegue uma passagem para Paris, e mais importante — uma bolsa. Vem daí a plena liberdade do protagonista de “Tanto Faz”: ele escolhe avacalhar com a pesquisa para a qual está sendo pago e torrar tudo numa pretensa vida de dandy na capital francesa.
Ricardo não está à procura de nada no país estrangeiro: não é seu passado que ele deseja restaurar, não acredita piamente que a Cidade Luz lhe despertará a veia artística, não crê que possa se encontrar por lá. Nada disso. Está ali apenas para curtir.
Embora a ação ocorra na década de 70, o romance não aborda a conturbada época de tensão política e social senão de raspão, preferindo se dedicar ao desbunde. Ricardo faz um balanço bem realista de sua posição sobre os conflitos de 68: “a gente ficou de fora da briga. A nossa adesão à esquerda era só teórica e emocional; picas de práxis”. Até mesmo a idéia mítica de um Rio de Janeiro dourado da bossa nova, dos mineiros ensinando aos nativos o que era ser carioca, do cinema novo — tudo isso é desmentido por uma personagem: “Esse nem eu conheço. O Rio que a classe média vive agora é o Rio dos assaltos e das longas filas nos postos de gasolina”.
Como não possui uma trama, “Tanto Faz” se concentra nas aventuras etílicas e sexuais de Ricardo, que coleciona amantes e conversas de bar com a mesma desenvoltura. Há boas sacadas: “a adolescência é um equívoco: o corpo certo na idade errada”. Muitas teorias podem soar machistas, mas nem por isso deixam de ser deliciosas. No fundo, Ricardo é um romântico: “a cidade me excita todos os dias, como uma nova namorada”, para depois dizer que “toda cidade é cruel, em qualquer estação, sem mulher”, e terminar exaltando o sexo oposto: “Loves comes with silent feet. Bico de peito, calcanhar, grelo, cotovelo: tudo é sublime no corpo da amada. Até aquele pentelho que enrosca no dente e faz cosquinha na gengiva da gente”.
Maturidade?
Chama atenção o fato de o personagem principal ter 30 anos. Embora o livro pertença a um universo adolescente — repleto de gírias, descolado —, em que pese as atitudes muitas vezes irresponsáveis e imaturas de Ricardo de Mello, o alter ego de Reinaldo Moraes está menos para Arturo Bandini do que para Henry Chinasky — não por acaso, Moraes traduziu “Mulheres”.
Há em Bukowski uma desilusão alojada na alma de seus personagens: tudo o que vier, será aceito. Ricardo não é completamente partidário da Postura do Homem Gélido (“tanto faz”, leremos repetidas vezes), mas tem seus momentos à la velho Buk — de certo modo, Ricardo também está nas brechas do sistema.
Suas crises de angústia até ocorrem, porém não duram muito, varridas para debaixo do tapete, afinal tem um som de festa lá fora e nada melhor do que mulheres, drogas e bebidas para esquecer dos problemas.
A maturidade de Ricardo está mais para certo cansaço existencial do que para os dilemas de personalidade típicos da adolescência — em contraponto a um companheiro de geração de Reinaldo Moraes como Caio Fernando Abreu, que fez da busca da identidade um dos temas principais de sua obra.
Com cerca de 70 capítulos para suas 150 páginas, “Tanto Faz” se move com liberdade pelo espaço (Paris, São Paulo), pela memória e pelo tempo (lembranças da adolescência, de amores antigos) e também pela criatividade no uso da linguagem, que usa neologismos (“sniflamos”, “escadarrolando”, “pénabundeou”), gírias, (“palha”, “transação”) e palavras do inglês e do francês. As referências musicais, que vão desde o rock até a bossa nova, passando pelo jazz de Charlie Parker, também povoam o texto, assim como as cinematográficas: os roads movies de Wim Wenders, os clássicos franceses e as aventuras de Bogart e Bacall.
É mais um walk on the wild side do que une saison en enfer. Descobrir qual parte da estrutura de “Tanto Faz” deve a James Joyce, Oswald de Andrade, João Antônio, Machado de Assis, é assunto para estudiosos. Melhor é curtir esse estilista da prosa meio bossa nova meio rock’n’roll e se entregar ao ócio e ao prazer da leitura. Ricardo recomendaria essa atitude, de copo na mão, recitando um verso qualquer de Drummond em seu studiô parisiense. Que tal este: “Se procurar bem você acaba encontrando./Não a explicação (duvidosa) da vida,/Mas a poesia (inexplicável) da vida”.





