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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:27 PM

Que fazer de Affonso Romano de Sant´Anna?

publicado em

No ano passado, reli, com boa dose de prazer, toda a poesia de Affonso Romano de Sant´Anna, e estou relendo Os Cantos , de Ezra Pound, suficientemente para dizer que, entre uma obra e outra, eu levaria para uma ilha a “excessiva, discursiva, cansativa, confusa, obscura e banal” obra de Ezra Pound

A propósito de Ezra Pound, Eliot escreveu: “Um grande escritor pode ter, numa época, uma influência perniciosa ou simplesmente debilitadora. E essa influência pode ser afetivamente atacada, apontando-se aquelas faltas que não devem ser copiadas e aquelas virtudes que reproduzidas se tornam anacrônicas.”

Escorado nessa premissa, o poeta e professor Affonso Romano de Sant´Anna, no livro de ensaios Que fazer de Ezra Pound  (Imago, 2003), de sua autoria, se nos chega como quem chuta o balde de merda ou o pau da barraca — ou redoma — em que se encontra ninguém menos do que Ezra Poud, o que seria razão “suficiente” para chutá-la — a barraca — e, assim, fazer um saldozinho médio nas esferas da crítica literária, ou nas rodinhas de escribas tomando um cafezinho nalgum bar de esquina metropolitana. De tal sorte, que o nosso Affonso, já de início, manda ver:

“Agora que saiu a tradução de Os Cantos de Ezra Pound (ed. Nova Fronteira, Rio, 1986) torna-se necessário um juízo de valor sobre essa obra, que não apenas os elogios ao volumoso esforço de José Lino Grunewald para pôr em língua portuguesa o que tradicionalmente se considera a obra-prima daquele poeta norte-americano nascido em Idaho em 1885 e que aos treze anos afirmou: Serei poeta. O maior de todos.”

Ao ler isso aí, assalta-me a impressão de que o mestre Affonso, por alguma secreta razãozinha, incrustada no fundo de seu ser, intenta minimizar o “volumoso esforço” de Grunewald, como se a dizer que tal tarefa não se justifica em face do valor da obra poundiana, ou que o tradutor se ocupou de coisa de pouco valor, senão de todo imprestável ou, pelo menos, em sua maior parte, como deixa claro o ensaísta. O tom das expressões “que não apenas os elogios” e “o necessário juízo de valor” meio que acentua a minha impressão, ganhando foro de suspeição ou desconfiança no que estou a ler. Mas isso, certamente, não passa de má-impressão minha, buscando o que não existe justamente onde nada existe; enfim, caçando chifre em cabeça de égua.

“De suas oitocentas e tantas páginas, talvez uma meia dúzia pudesse ser lida com maior interesse. Mas, convenhamos, é um salto muito pequeno em relação à pretensão do autor”. Palavras de Affonso. E aqui, se me permitem a digressão, e sem qualquer intento ofensivo de minha parte, antes por conta de uma associação entre a grafia e uma lembrança do tempo da infância, o nome Affonso, com esses dois efes num sopro de fole, transporta-me de volta à hilária onomatopéia de um peido de burro, consoante as vogais e as consoantes propriamente ditas, e como então se dizia, assim: Afffooooooonnnso! Flatulenta sonoridade. Coisa de meninos, inventando moda, fazendo graça para as pessoas ao redor, ou apenas para si mesmos, uns com os outros, lá entre si. Mas prossigamos com o affonsino ensaio em questão:

“O próprio editor achava esses cantos obscuros e tediosos”, ressalta o poeta- professor Affonso. E vá-se ver, por nossa conta, se o tedioso não era o próprio editor de Pound.

“Pound queria usar a técnica do fragmento — continua Affonso —, fazendo uma montagem de textos alheios e seus. Mas a intenção técnica não basta. A leitura é cansativa, confusa e não produz o efeito desejado.”

Leitura cansativa, mestre? Prazerosa, até mesmo pela confusão — o caos, mestre, o fragmentário caos! E — só para embaralhar as cartas de um jogo —, como assim, que Pound desejava um efeito? De que efeito se está falando? Desde quando um poeta se deixa levar pelo desejo e não pela força da criação? Está bem que criar seja um ato de desejo, então Pound queria o efeito do desejo e o desejo do efeito. Bah!, o que digo eu? O que sei, a fundo, em meio a tanto qüiproquó? Cocoricó! O galo cantou. Dê cá meu cajado, é visto que só estou brincando, e já me vou mijar. Ou melhor, só estou provocando o tédio, exercitando idéias e brincando com o respeitável mestre, quem sabe para com ele aprender algo mais; mas sem polêmica, please, que me vou cansado por demais.

“Embora existam belos trechos como o Canto 45, trecho do Canto 13, o curto Canto 120 e pouco mais” — sublinha mestre Affonso, garimpando pepitas de ouro na bateia de Pound. E me pergunto se o crítico se auto-avalia enquanto poeta, de cuja lavra poética — obra completa — bons poemas se mostram e nem tudo é bom. Mesmo o seu mais badalado poema — Que país é esse?—, a meu ver, é melhor na primeira parte, depois perde um pouco a força de impulso, ou de empuxo, conquanto manter-se o fundo político e a crítica social numa asfixiante atmosfera de época — a ditadura militar. Vá la: Affonso Romano de Sant´Anna é um bom poeta mediano.

“A obra sobrenada em frases de poesia nenhuma e de prosa banal. Querendo ser uma epopéia, os textos são uma rala e confusa crônica. Os versos, em geral, não seduzem pelo ritmo, não seduzem pela melopéia, não seduzem pela logopéia ou fanopéia.” — prossegue o mestre, tabulando a zero a poesia de Ezra Pound. Pobre Alphonsus!, diria o poeta Alphonsus de Guimaraens, o Solitário de Mariana (MG), no seu famoso poema A Catedral. “Excessiva, discursiva”, a obra de Pound todavia se sustenta — aí está ela —, inclusive, por conta de seus excessos, mesmo porque não se pode retirá-la de seu lugar. Pode-se afirmar que daqui a mais algum tempo Os Cantos será uma obra relegada ao limbo? Assim, coisas como o nazismo e o extermínio dos judeus também estarão lá, no limbo da memória e da consciência humana? Pouco provável. Nem todas as obras ficam, mas algumas ficam pelo que são, e Os Cantos aí se encaixa, malgrado os resmungos ao seu redor.

“No fim da vida, tendo conhecido a prisão e o hospício, Pound declarou não apenas que ele “estragou” sua obra, mas explicou: “Minhas intenções eram boas, mas enganei-me na maneira de alcançá-las. Fui um estúpido. O conhecimento me chegou tarde demais...Muito tarde me chegou a certeza de nada saber.” Tal declaração, de repente, dá uma dimensão maior ao seu autor. A aceitação de seu “fracasso”, se não transforma sua vida & obra em “êxito”, pelo menos vale como ensinamento para que seus equívocos estéticos e ideológicos (fascistas) não se repitam. Cultuar esses equívocos, em vez de reconhecê-los como o próprio poeta, é perseverar no “erro” e estar, como discípulo, uma vez mais abaixo das lições do próprio mestre.”

Eis aí. Eu não disse que só estava provocando e que aprenderia algo mais com o mestre Affonso? Menos mal que esse “fracasso” aí venha entre aspas, evidenciando que a coisa não é bem assim, ou que o diabo — Pound — não é tão feio quanto se pinta, esteticamente falando. Fracasso? Os Cantos? Olha só o sorrisinho de mofa irônica do anarco diabinho que me acompanha, até porque “tal declaração” de Pound, sobre suas intenções e equívocos, pode ter sido uma forma de corte oblíquo na língua de seus críticos. Vá se saber, a fundo. Os artistas da palavra são dados a subterfúgios, artimanhosos, metafóricos, reticênticos. Pound disse, também, que o que ele tentou e não conseguiu fazer, um brasileiro fez. Referia-se a Gerardo Mello Mourão, com o longo poema Os peãs, cuja primeira parte, num livro de 400 páginas, intitula-se O País dos Mourões.

Ezra Pound

Literalmente, assim falou Pound: “Em toda a minha obra, o que tentei escrever foi a epopéia da América. Creio que não consegui. Quem conseguiu foi o poeta de O País dos Mourões.” Isso aí soa-me um pouco como uma certa modéstia poundiana — senão que seja, com efeito, sinceridade por demais —, sem desmerecer aqui a citada obra de Mourão, que, a meu ver, é de uma rara beleza ao longo de toda a poesia brasileira, e quando tornei público, há alguns anos, que ainda estava à espera — como ainda estou — do verdadeiramente grande poeta brasileiro, é possível que estivesse tomando a obra de Mourão como um ponto de referência ou de partida, num sentido épico. A propósito, por que as editoras brasileiras não dão novas e apuradas edições a esta monumental obra poética do Gerardo? Particularmente, emparelho em minha estante, para infinitas releituras, Os Cantos e Os peãs, que me parece influenciado por nada menos que Os Cantos. Ou não?

Posso me arriscar e comparar dizendo que Os Cantos, deliberadamente, está para a epopéia da desordem, do desconexo, do fragmentário, do labiríntico e do caótico — crendo eu que era exatamente essa a intenção de Pound —, assim como Os Peãs está para inventário e reordenação do cosmo de uma árvore genealógica, os Mourões, com uma certa ênfase testicular e boa dose de testosterona para os machos da casa? Penso que a diferença é que Mourão tratou da ordem interna, familiar, doméstica, enquanto Pound se lançou, até com funestas conseqüências para si próprio, ao largo de uma América essencialmente caótica — a par com as conturbações do mundo —, que ele intentou colocar numa esdrúxula e poética epopéia. Deixa estar, mestre Affonso: Os Cantos, como tal, por bem ou por mal, é a coroa de glória de Ezra Pound, e ninguém conseguirá tirar isso dele.

Há quem veja reflexos dos ensinamentos de Pound no rigor poético de João Cabral de Melo Neto. Está dito que “o texto literário tem uma data de publicação, mas não morre, nunca se torna ultrapassado” (Celina Bruniera,  UOL Educação). Leio isso e penso nos cantos de Ezra Pound. Sem dúvida que o fascismo de Pound é um caso à parte, a ser esmiuçado em profundidade, e quem se habilita? Ezra Pound é reconhecido por muita gente abalizada, sendo apontado como poeta, ensaísta de grande erudição e um dos expoentes do movimento modernista da poesia do início do século XX. Isso deveria bastar, não fosse agora o instigante ensaio do professor Affonso Romano de Sant´Anna, cuja leitura indiquei ao poeta Carlos Willian e ele também estranhou o tom — “arrogante” — do autor. Vai ver, Carlos Willian, estamos equivocados e pagando mico, muito “abaixo das lições do mestre”. Acha que devemos comprar um desconfiômetro?

Em que pese a pertinência dos argumentos do mestre Affonso, penso que Os Cantos é um prumo pênsil na poesia moderna, um monumento de consagração do desconexo, (uni)verso desconjuntado de seu eixo, e, contudo, móvel. Eppur si muove, como diria Galileu. Uma obra para fruição da desordem do caos “ordenado” por Pound. A obra e o homem. Ezra Pound é o nome, e o nome é o cara. Imperfeito, Os Cantos? Longe de mim, para justificar Pound e seus “pecados” poéticos, lançar mão do refrão pelo qual errar é humano; por certo que o certo é não persistir no erro — persistir é burrice —, como é certo, sim, atentar-se para as “faltas que não devem ser copiadas e aquelas virtudes que reproduzidas se tornam anacrônicas”, como afirma Eliot e o professor Affonso utiliza em seu ensaio. Mas, olha só, que coisa curiosa, a título de reflexão: Deus, o Verbo, criou o homem, e se arrependeu, depois, de havê-lo criado (está escrito). Contudo, não reparou a sua obra, nem a destruiu, como seria de se esperar. O criador não conjugou o verbo no modo mais-que-perfeito. E assim os homens são os cantos defeituosos de Deus. E Deus preservou o homem, este que, hoje, por si mesmo se destrói. Pobre homem! Pobre Alphonsus! “Ó Bartleby, ó humanidade!” (Herman Melville). Já publiquei, em livro, que perfeito é o pássaro, voando em círculos.

Também ensaísta, Ezra Pound publicou Arte da Poesia (edições Cultrix, no Brasil), e vale a pena ler de novo alguma coisa do que ele ensina, como, por exemplo, isto: “Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se aos obstáculos da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas.”

Sintomático, isso aí, poderia dizer mestre Affonso, olhando de esguelha para Os Cantos. Certo é que essas recomendações de Pound são pertinentes no Brasil — para ficarmos só em casa —, onde muita gente equivocada ou ignorante — pretensos ou pseudopoetas, e até professores universitários —, escreve longos e indigestos textos em prosa, inclusive ensaios, divide-os em forma de versos e publica em livro como sendo poesia. Fala, Goiás!

O que fazer de Affonso Romano de Sant´Anna?  Poeta critica poeta, mas então não se deve também começar por criticar a própria obra?  No ano passado, reli, com boa dose de prazer, toda a poesia de Affonso, aproveitando as edições de bolso da L&PM, e estou relendo Os Cantos — tenho duas edições diferentes, da mesma editora —, suficientemente para dizer que, entre uma obra e outra, eu levaria para uma ilha a “excessiva, discursiva, cansativa, confusa, obscura e banal” obra de Ezra Pound. A ir-se por aí, só falta dizer que Os Cantos é uma obra aleijada. Talvez seja por isso mesmo, por tudo que ela é e sempre será, inclusive pelo que ela possa levar-nos a refletir por conta dos equívocos ideológicos de Pound — seu lado fascista —, que o fizeram cair em desgraça, contaminando a sua poesia; talvez seja por tudo isso que a obra Os Cantos tem uma data de publicação, mas não morre, nunca se torna ultrapassada, antes se coloca como um perene objeto de estudos mais aprofundados. Da mesma forma, o poema Que país é este, de Affonso Romano, pelo que representa em termos de época — com a sua data de publicação — e pelo que o poema implica de histórico e verdadeiro, sobretudo para os que estiveram por lá, in illo tempore — nos anos de chumbo —, e atestam o que o poema diz. Ainda assim, entre os poemas reunidos de Affonso Romano de Sant´Anna e Os Cantos de Ezra Pound, fico com estes e vou cantar em outra freguesia.

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