Quatro comentários breves sobre livros recentes

"Eles Foram Para Petrópolis" de Ivan Lessa e Mario Sergio Conti e "Literatura Brasileira Modos de Usar" deLuís Augusto Fischer
Livro mais tedioso do ano
Reli “Ligações Perigosas”, o romance epistolar de Choderlos de Laclos, na tradução magnífica de Carlos Drummond de Andrade. É uma história maravilhosa. Escrita por um cérebro de gênio.
Decidi, então, ler “Eles Foram Para Petrópolis — Uma Correspondência Virtual na Virada do Século”, cartas trocadas entre o intelectueba Ivan Lessa e o jornalista Mario Sergio Conti. Algumas cartas são engraçadinhas, principalmente as do intelectueba, mas quase todas são tediosas. A vaidade dos autores não é a dos gênios, plenamente justificada (só acredito em gente vaidosa e pretensiosa), e sim a dos néscios que querem parecer mais sábios do que o resto (isto mesmo, resto) da humanidade.
O “trabalho” de Lessa e Conti é sério candidato a pior livro do ano. Para melhorá-lo, sugiro outro título: “Eles Foram Para o Inferno e Todos Torcem Para Que Fiquem Por Lá”.
Luís Augusto Fischer, crítico literário gaúcho de 51 anos, escreveu um livrinho inteligente e polêmico: “Literatura Brasileira — Modos de Usar” (L&PM, 143 páginas). Quem tem preguiça de consultar vários livros, ou tratados acadêmicos, ganhará muito se ler o opúsculo do professor da Universidade Federal do Rio Grande Sul. Suas opiniões são controversas, mas ele não teme apresentá-las.
Citando João Cabral de Mello Neto, apresentado como número dois da poesia brasileira (Carlos Drummond de Andrade é o número um), Fischer diz que há dois tipos de escritores: “... os de cambão, que puxam para a frente, e os de coice, que preferem parar; os primeiros ousam, os segundos travam. A comparação rende bem, estendida sobre a história da poesia brasileira: digamos que um Sousândrade puxa sempre para a frente, ao passo que um Bilac sempre trava ou puxa para trás”.
Não se pense que o livro, em formato de bolso, é um manual, daqueles que apresentam obviedades, conceitos “travados”. Nada disso. Mesmo quando é didático, Fischer discute a literatura brasileira de modo apaixonado e, como disse, polêmico.

"Um Encontro" de Milan Kundera e “A Arte da Ficção” de David Lodge
Kundera destaca García Márquez
O tcheco Milan Kundera, de 80 anos, é, além de prosador notável, um crítico literário do primeiro time. Depois de quatro anos de silêncio, lança o livro “Um Encontro”, no qual analisa a literatura de Dostoiévski, Kafka, Céline, Beckett, Curzio Malaparte, García Márquez, Philip Roth, Carlos Fuentes.
Comentário publicado no “Clarín” diz que Kundera compara a arte de Bacon, “cujos retratos ‘questionam os limites do eu’, com a literatura de Beckett. Mas pergunta se as idéias de Beckett não “acabaram por matar sua criação”. Infelizmente, a publicação argentina não amplia a discussão.
“Cem Anos de Solidão”, do canalha (de gênio, espécie de Céline da esquerda) García Márquez, é visto por Kundera como o “fim do grande romance”. Suas palavras: “Tenho a impressão de que este romance, uma apoteose literária, é às vezes um adeus dirigido à era do romance”.
Kundera afirma que “os protagonistas dos grandes romances não têm filhos. Apenas 1% da população não tem filhos, mas ao menos uns 50% dos grandes personagens novelescos saem do romance sem haver reproduzido”. “Nem Pantagruel nem Dom Quixote tiveram descendência. Nem Valmont, nem a marquesa de Merteuil, nem Werther. Todos os protagonistas de Stendhal carecem de filhos, como os de Balzac e Dostoiévski. E, no século que acaba de terminar, Marcel Proust e todos os grandes personagens de Musil”, escreve o autor de “A Insustentável Leveza do Ser”.
Há pouco tempo, disseram que Kundera havia, como “agente comunista”, denunciado anticomunistas. Uma mentira de pernas curtíssimas, porque Kundera é um crítico visceral do totalitarismo esquerdista.
David Lodge analisa “Laranja Mecânica”
As resenhas quase sempre brilhantes de David Lodge saem em livro: “A Arte da Ficção” (L&PM, 245 páginas). A escritora A. S. Byatt diz, com acerto: “Os textos de Lodge são úteis, despretensiosos, acessíveis. ‘A Arte da Ficção’ é um livro para se consultar muitas e muitas vezes”. Discordo de que sejam “despretensiosos”, porque, em termos de literatura, só devem ser levados a sério trabalhos pretensiosos. Lodge examina o romance “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess: “O leitor sofre uma espécie de condicionamento pavloviano, mas com um reforço positivo (a possibilidade de acompanhar a história) em vez de punições. A linguagem estilizada mantém os crimes hediondos que são descritos a uma certa distância estética e evita que fiquemos muito chocados — ou muito empolgados — com a violência”.






