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POR EM 05/06/2009 ÀS 07:33 PM

Quatro comentários breves sobre livros recentes

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"Eles Foram Para Petrópolis" de Ivan Lessa e Mario Sergio Conti e "Literatura Brasileira Modos de Usar" deLu­ís Au­gus­to Fis­cher


Livro mais tedioso do ano


Reli “Ligações Perigosas”, o romance epistolar de Choderlos de Laclos, na tradução magnífica de Carlos Drummond de Andrade. É uma história maravilhosa. Escrita por um cérebro de gênio.

Decidi, então, ler “Eles Foram Para Petrópolis — Uma Correspondência Virtual na Virada do Século”, cartas trocadas entre o intelectueba Ivan Lessa e o jornalista Mario Sergio Conti. Algumas cartas são engraçadinhas, principalmente as do intelectueba, mas quase todas são tediosas. A vaidade dos autores não é a dos gênios, plenamente justificada (só acredito em gente vaidosa e pretensiosa), e sim a dos néscios que querem parecer mais sábios do que o resto (isto mesmo, resto) da humanidade.

O “trabalho” de Lessa e Conti é sério candidato a pior livro do ano. Para melhorá-lo, sugiro outro título: “Eles Foram Para o Inferno e Todos Torcem Para Que Fiquem Por Lá”.

 An­ti­ma­nu­al de li­te­ra­tu­ra

Lu­ís Au­gus­to Fis­cher, crí­ti­co li­te­rá­rio ga­ú­cho de 51 anos, es­cre­veu um li­vri­nho in­te­li­gen­te e po­lê­mi­co: “Li­te­ra­tu­ra Bra­si­lei­ra — Mo­dos de Usar” (L&PM, 143 pá­gi­nas). Quem tem pre­gui­ça de con­sul­tar vá­rios li­vros, ou tra­ta­dos aca­dê­mi­cos, ga­nha­rá mui­to se ler o opús­cu­lo do pro­fes­sor da Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral do Rio Gran­de Sul. Su­as opi­ni­ões são con­tro­ver­sas, mas ele não te­me apre­sen­tá-las.

Ci­tan­do Jo­ão Ca­bral de Mel­lo Ne­to, apre­sen­ta­do co­mo nú­me­ro dois da po­e­sia bra­si­lei­ra (Car­los Drum­mond de An­dra­de é o nú­me­ro um), Fis­cher diz que há dois ti­pos de es­cri­to­res: “... os de cam­bão, que pu­xam pa­ra a fren­te, e os de coi­ce, que pre­fe­rem pa­rar; os pri­mei­ros ou­sam, os se­gun­dos tra­vam. A com­pa­ra­ção ren­de bem, es­ten­di­da so­bre a his­tó­ria da po­e­sia bra­si­lei­ra: di­ga­mos que um Sou­sân­dra­de pu­xa sem­pre pa­ra a fren­te, ao pas­so que um Bi­lac sem­pre tra­va ou pu­xa pa­ra trás”.

Não se pen­se que o li­vro, em for­ma­to de bol­so, é um ma­nu­al, da­que­les que apre­sen­tam ob­vi­e­da­des, con­cei­tos “tra­va­dos”. Na­da dis­so. Mes­mo quan­do é di­dá­ti­co, Fis­cher dis­cu­te a li­te­ra­tu­ra bra­si­lei­ra de mo­do apai­xo­na­do e, co­mo dis­se, po­lê­mi­co.
 


"Um Encontro" de Milan Kundera e “A Arte da Ficção” de David Lodge
 

Kun­de­ra des­ta­ca Gar­cía Már­quez


O tche­co Mi­lan Kun­de­ra, de 80 anos, é, além de pro­sa­dor no­tá­vel, um crí­ti­co li­te­rá­rio do pri­mei­ro ti­me. De­pois de qua­tro anos de si­lên­cio, lan­ça o li­vro “Um En­con­tro”, no qual ana­li­sa a li­te­ra­tu­ra de Dos­toi­évski, Kafka, Cé­li­ne, Beckett, Cur­zio Ma­la­par­te, Gar­cía Már­quez, Phi­lip Roth, Car­los Fu­en­tes.

Co­men­tá­rio pu­bli­ca­do no “Cla­rín” diz que Kun­de­ra com­pa­ra a ar­te de Ba­con, “cu­jos re­tra­tos ‘ques­ti­o­nam os li­mi­tes do eu’, com a li­te­ra­tu­ra de Beckett. Mas per­gun­ta se as idéi­as de Beckett não “aca­ba­ram por ma­tar sua cri­a­ção”. In­fe­liz­men­te, a pu­bli­ca­ção ar­gen­ti­na não am­plia a dis­cus­são.

“Cem Anos de So­li­dão”, do ca­na­lha (de gê­nio, es­pé­cie de Cé­li­ne da es­quer­da) Gar­cía Már­quez, é vis­to por Kun­de­ra co­mo o “fim do gran­de ro­man­ce”. Su­as pa­la­vras: “Te­nho a im­pres­são de que es­te ro­man­ce, uma apo­te­o­se li­te­rá­ria, é às ve­zes um ade­us di­ri­gi­do à era do ro­man­ce”.

Kun­de­ra afir­ma que “os pro­ta­go­nis­tas dos gran­des ro­man­ces não têm fi­lhos. Ape­nas 1% da po­pu­la­ção não tem fi­lhos, mas ao me­nos uns 50% dos gran­des per­so­na­gens no­ve­les­cos sa­em do ro­man­ce sem ha­ver re­pro­du­zi­do”. “Nem Pan­ta­gru­el nem Dom Qui­xo­te ti­ve­ram des­cen­dên­cia. Nem Val­mont, nem a mar­que­sa de Mer­teu­il, nem Wer­ther. To­dos os pro­ta­go­nis­tas de Stendhal ca­re­cem de fi­lhos, co­mo os de Bal­zac e Dos­toi­évski. E, no sé­cu­lo que aca­ba de ter­mi­nar, Mar­cel Proust e to­dos os gran­des per­so­na­gens de Mu­sil”, es­cre­ve o au­tor de “A In­sus­ten­tá­vel Le­ve­za do Ser”.

Há pou­co tem­po, dis­se­ram que Kun­de­ra ha­via, co­mo “agen­te co­mu­nis­ta”, de­nun­ci­a­do an­ti­co­mu­nis­tas. Uma men­ti­ra de per­nas cur­tís­si­mas, por­que Kun­de­ra é um crí­ti­co vis­ce­ral do to­ta­li­ta­ris­mo es­quer­dis­ta.

Da­vid Lod­ge ana­li­sa “La­ran­ja Me­câ­ni­ca”

As re­se­nhas qua­se sem­pre bri­lhan­tes de Da­vid Lod­ge sa­em em li­vro: “A Ar­te da Fic­ção” (L&PM, 245 pá­gi­nas). A es­cri­to­ra A. S. Byatt diz, com acer­to: “Os tex­tos de Lod­ge são úte­is, des­pre­ten­si­o­sos, aces­sí­veis. ‘A Ar­te da Fic­ção’ é um li­vro pa­ra se con­sul­tar mui­tas e mui­tas ve­zes”. Dis­cor­do de que se­jam “des­pre­ten­si­o­sos”, por­que, em ter­mos de li­te­ra­tu­ra, só de­vem ser le­va­dos a sé­rio tra­ba­lhos pre­ten­si­o­sos. Lod­ge exa­mi­na o ro­man­ce “La­ran­ja Me­câ­ni­ca”, de An­thony Bur­gess: “O lei­tor so­fre uma es­pé­cie de con­di­cio­na­men­to pav­lo­vi­a­no, mas com um re­for­ço po­si­ti­vo (a pos­si­bi­li­da­de de acom­pa­nhar a his­tó­ria) em vez de pu­ni­ções. A lin­gua­gem es­ti­li­za­da man­tém os cri­mes he­di­on­dos que são des­cri­tos a uma cer­ta dis­tân­cia es­té­ti­ca e evi­ta que fi­que­mos mui­to cho­ca­dos — ou mui­to em­pol­ga­dos — com a vi­o­lên­cia”. 

 
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