Programa de leitura 2010
O que intelectuais, escritores, professores e jornalistas lerão em 2010
Ainda não fiz a programação total de livros que espero ler em 2010, até porque alguns previstos para consumo no ano passado continuam num canto da esperança de ser apreciados. Há, também, os lançamentos almejados para os próximos meses e os volumes que tento encontrar, mas continuam no original em outros idiomas e apenas “arranho” em Inglês e Espanhol. Na lista a seguir, que me foi pedida no Twitter, estão apenas os que comprei nesse recesso parlamentar, pois seguramente após a volta dos trabalhos no Senado vai ser difícil visitar demoradamente bibliotecas, livrarias e sebos. Outros aguardam há tempos ainda nas sacolas das lojas.
Fiz uns pequenos comentários sobre as obras que já comecei a ler ou nas quais dei uma folheada mais demorada. Até para não cansar o leitor, evitei citar os livros técnicos, principalmente de Direito, Antropologia e Sociologia. Eles, em geral maioria no rol de qualquer planejamento de congressista dedicado às atividades no Legislativo, são necessários para as argumentações em alguns projetos dos quais sou relator, autor ou de cuja apreciação desejo participar como debatedor. Estão na fila das comissões ou do Plenário, por exemplo, os novos códigos Eleitoral e de Processo Penal, a polêmica das cotas raciais e proposições na área de segurança pública e Educação. Tenho especial interesse em endurecer acerca das drogas, legislando e cobrando do Executivo ações eficientes nas fronteiras, para combater o tráfico. Os três poderes precisam fazer alguma coisa, com rapidez e eficácia, para conter a avassaladora tomada do País pelo crack. É o novo mal do século, devasta os usuários e enriquece os traficantes, sob a vista omissa dos preocupados unicamente em programas obreiros. O governo tanto não se preocupa com as vítimas e seus algozes que se esquece do ataque sistemático aos traficantes e, em vez de construir e equipar unidades de saúde em todo o Brasil para tratamento dos usuários, incentiva o consumo de drogas através da descriminalização total. Espero que sua bancada no Congresso não impeça a tendência, já manifestada pelo presidente Lula e pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, de acabar com a frouxidão beneficiadora de bandidos.
Voltando aos livros, se vai notar uma “preferência” por políticos, com ótima superdose de Nabuco, mas é nada a propósito do ano eleitoral. Há também, e só depois de citar todos percebi, mais história e biografia que literatura, com quase ausência de poesia, salvo raras e excelentes exceções. Tenho muitos livros de versos aguardando ser lidos ou relidos, a maioria de autores goianos, inclusive os que me são gentilmente enviados pelos amigos. Em poucos dias, pedirei um espaço aqui no Opção Cultural para comentar alguns escritores locais cuja produção tive o prazer de conhecer, principalmente os que me deram a honra de participar de evento que promovi na Biblioteca do Senado em agosto de 2009 e será reeditado neste ano. Pode aparecer quem proteste dizendo que literatura não tem pátria, que tanto faz o autor ser asiático ou anicuense igual a mim, mas a separação geográfica não limita pelo território nem discrimina. Não há preconceito. Nada há de errado em citar “os romancistas russos” ou “o conto americano” ou “os escritores goianos”.
Para quem exerce um mandato e procura se dedicar à atividade legislativa sem esquecer da agenda política, é natural que um ano de eleição não tenha exatamente 12 meses para leitura. Quando estiver se aproximando do período eleitoral, vai ser difícil tirar as horas que habitualmente reservo para ler e ouvir som de qualidade, mas ao menos um pouco deve ficar. Na campanha de 2002, quando Goiás confiou a mim o mandato de senador, foi complicado conciliar a agenda de candidato com a leitura e a música, mas mantive um mínimo de dedicação quase diária a ambas. Além do enriquecimento cultural, distancia do estresse e nos impede de esquecer daquilo que a humanidade produz de mais elevado.
Vamos ver se, com alguma disciplina, será possível cumprir em 2010 o calendário de leitura que apresento. O de 2009, como já disse, ficou incompleto. Vou tentar.
1 - “Padre Pio — Sob Investigação — A ´Autobiografia´ Secreta”, de Francesco Castelli
Com a abertura dos arquivos do antigo Santo Ofício até o ano de 1939, determinada em 2006 por Bento XVI, vieram à luz textos completamente inéditos do inquérito formulado por Dom Raffaello Carlo Rossi, bispo de Volterra, a mando de Roma, que se deslocou até San Giovanni Rotondo, no sul da Itália, em junho de 1921, para investigar os estigmas e os milagres atribuídos ao padre capuchinho Pio de Pietrelcino, então com 34 anos e sobre o qual recaíam dúvidas e demonstrações de fé.
Sou devoto do hoje “Santo Padre Pio de Pieltrecino” . Já fui a seu túmulo em San Giovanni Rotondo, aventura qualificada por quem me acompanhava de “roubada”, mas que pra mim foi um dos grandes momentos da vida.
O inquérito traz conclusões irrefutáveis e o livro, que já comecei a ler, mostra uma face surpreendentemente humana do Santo Ofício, que até então era para mim trevas, preconceitos e perseguições.
2 - “Seis Contos da Era do Jazz e Outras Histórias”, de F. Scott Fitzgerald
Tido por muitos como frívolo, superficial e mal contador de histórias, Scott Fitzgerald, ao contrário, é exímio fotógrafo de seu tempo, em que todos buscaram a riqueza, o poder e uma fulminante ascensão social. Seus retratos das farras, bebedeiras, uso de drogas, modo de se vestir e de viver são impagáveis.
Livro que também já iniciei, emociona muito pelas belas páginas de “O curioso caso de Benjamin Button”, que, adaptado para o cinema, rendeu também um fabuloso e comovente filme.
Melhor, porém, pelas extraordinárias linhas de “As costas do camelo”, uma análise divertida, realista e prática do universo feminino, embora não pareça nada disso. Até agora, o melhor conto do livro.
3 - “O Crime do Restaurante Chinês”, de Boris Fausto
Para quem gosta de Direito Penal, os assassinatos do casal dono de um restaurante chinês e de dois de seus empregados no ano de 1938, em plena capital paulista, se afigura tão misterioso quanto o que aconteceria mais tarde, tendo como vítima Dana de Tefé.
Em meio ao que é hoje já uma rotineira euforia por conta da Copa do Mundo e que naquele ano se realizava na França, Boris Fausto contextualiza historicamente os crimes e traz de volta questões ainda hoje presentes, como racialização, liberdade de imprensa, elite x trabalhadores marginalizados e a discriminação dos imigrantes. Já está separado para leitura imediata.
4 - “Joaquim Nabuco: Revolucionário Conservador (sua filosofia política)”, de Vamireb Chacon
Entre meus ídolos políticos, os dois maiores são D. Pedro II e Joaquim Nabuco. Lançado pelo Senado Federal em 2000 (90º ano do falecimento do grande estadista) esta obra mostra a sólida formação em filosofia política deste fenômeno popular e intelectual que foi Joaquim Nabuco.
Vamireb Chacon mostra os dilemas de Nabuco ao ler inicialmente os grandes historiadores da Revolução Francesa: Thiers, Lamartine, Miguet e Quinet e depois, ao conhecer a Revolução Americana, por meio de seu pai, que lhe ensinou Tocqueville.
Nabuco uniu os conflitos na França e a polêmica nos Estados Unidos e na Inglaterra às soluções mais aceitas pela maioria.
Tornou-se adepto do liberalismo Whig de Gladstone, parlamentarista, monárquico e social.
Tinha razão Gilberto Freyre quando, no centenário do nascimento de Nabuco, em 18 de agosto de 1949, num discurso na Câmara dos Deputados, o chamou de “Revolucionário Conservador”.
5 - “Joaquim Nabuco”, de Angela Alonso
Biografia lançada pela Companhia das Letras em 2007 e reconhecida como sóbria e não fantasiosa, busca realçar o perfil psicológico de alguém com tradição aristocrática e que, ao mesmo tempo, buscava a modernidade política.
Galanteador, viajante, leitor entusiasmado, homem público vibrante e corajoso, questionador das hierarquias sociais e opositor franco e aberto duelando com frequência com autoridades políticas, se fez ativista culto e, sobretudo, produtivo para o país.
6 - “O Abolicionismo”, de Joaquim Nabuco
Lançado em Londres em agosto de 1883 pela tipografia de Abraham Kingdon & Co., custou dois contos de réis ao autor que havia perdido eleição para Câmara dos Deputados em 1881 e sobrevivia na capital inglesa como correspondente do “Jornal do Commercio” e de “La Rázon”, de Montevidéu, além de um emprego inadequado na “Sugar Factories”, companhia ligada à fabricação de açúcar no Brasil.
Luiz Viana Filho a considerava uma obra menor porque achava o “trabalho quase medíocre”, mas o maior historiador vivo do Brasil, Evaldo Cabral de Melo, a trata como “o melhor livro escrito sobre o Brasil no século XIX” e como “um dos textos fundadores da Sociologia brasileira”.
Polêmicas à parte, promete a leitura reflexiva do que Nabuco dizia sobre a escravidão e que é atual para outros temas: “A pátria como mãe, quando não existe para os filhos mais infelizes, não existe para os mais dignos”.
7 - “Joaquim Nabuco — Diários (1873-1910)” — Edição de texto, prefácios e notas, 2 volumes: Evaldo Cabral de Melo
Diários heterogêneos que contêm viagens, observações dos povos que conheceu, suas atividades literárias, a campanha abolicionista, o cotidiano político, a vida privada, a diplomacia, impressões políticas e muito mais.
Diários costumam ser leitura arenosa, mas os de Nabuco prometem o encontro de alguns oásis.
8 - “O Terror”, de David Andress
Um dos temas que me fascinam é o “terror” dentro da Revolução Francesa. Explico: após cortar muitos pescoços, Robespierre perde o próprio. Por quê? Extremamente radical, não percebeu que atormentar a todos leva invariavelmente à união dos adversários. Enquanto pensava em guilhotinar Fouché, o monstro moral, este se articulou e acabou degolando “o incorruptível”.
O autor, professor de história europeia moderna na Universidade de Portsmouth mereceu do “The New York Times” uma crítica favorável por ter uma “narrativa densa, perspicaz e bem escrita”. Vou devorar suas 517 páginas.
9 - “O Jovem Stálin”, de Simon Sebag Montefiore
Já li o livro anterior “A Corte do Czar Vermelho”, que revela, documentalmente, a vida quase maldita daqueles que cercavam Stálin e que morriam ou eram degredados por nada. Hilariante quando na 2ª Guerra os alemães chegam à porta de Moscou e são derrotados. O governante achou que seu exército não resistiria e se refugiou numa de suas “propriedades” rurais, local onde foi encontrado pelos seus, que foram lhe dar a boa nova. Stálin achou que era o contrário e se amedrontou a ponto de revelar confusão mental. Trágico quando sacrifica a todos. Monstruoso quando leva a morte para milhões de camponeses que comiam casca de árvores e eram vitimados pela fome, pelos soldados e pelos fanáticos. Espero a mesma densidade do outro livro que mostra a (de)formação e as atividades do jovem monstro.
10 - “Dicionário Lula: Um Presidente Exposto por Suas Próprias Palavras”, de Ali Kamel
Kamel já fez um livro espetacular, “Não somos racistas: uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor”, mostrando os perigos da racialização no Brasil, as mentiras contadas sobre nossa formação étnica e muito mais. Agora, disseca o universo lulista através de seu cotidiano, dos seus discursos, do seu vocabulário. Confesso que é uma temática extremamente chata e que a leitura já foi iniciada e interrompida várias vezes. Mas, afinal, vou ler os discursos do Lula...
Sobre alguns outros livros, já adquiridos e que pretendo ler, não foi possível fazer sequer uma análise sucinta. Como na lista das obras acompanhadas de comentário, esta também está sem ordem de preferência, apenas seguindo a pilha de volumes à espera:
1 - “Carlos Castelo Branco — O Jornalista do Brasil”. Entrevista exclusiva a Carlos Chagas organizada por Pedro Jorge de Castro sobre o analista que fez história na cobertura política no País.
2 - “Moscou 1941 — Uma Cidade e seu Povo na Guerra”, de Rodric Braithwaite.
3 - “A Guerra Particular de Lênin”, de Lesley Chamberlain.
4 - “Viagem aos Planaltos do Brasil”, de Richard Burton.
5 - “Machado de Assis, Um Gênio Brasileiro”, de Daniel Piza.
6 - “Gomorra”, de Roberto Saviano.
7 - “Sartre, Uma Biografia”, de Annie Cohen-Solal.
8 - “João Paulo II — Biografia”, de Bernard Lecomte.
9 - “Sir Richard Francis Burton”, de Edward Rice.
10 - “Adeus, Columbus”, de Philip Roth.
11 - “O Artista Inconfessável”, de João Cabral de Melo Neto.
12 - “Emily Dickinson: Alguns Poemas”.
13 - “Elza, A Garota”, de Sérgio Rodrigues.
14 - “Primeira Poesia”, de Jorge Luis Borges.
15 - “O Som e a Fúria de Tim Maia”, de Nelson Motta.
16 - “Os Cantos”, de Ezra Pound.
17 - “A Cidade e os Cachorros”, de Mario Vargas Llosa.
18 - “A Capital da Solidão”, de Roberto Pompeu de Toledo.
19 - “Forças Armadas e Política no Brasil”, de José Murilo de Carvalho.
20 - "Vinho e Guerra", de Don e Petie Kladstrup.
21 - “Cartas a Lucílio”, de Lúcio Aneu Sêneca.
22 - “Jorge de Lima — Poesia Completa”.
23 - “Planalto — Memórias”, de Afonso Arinos de Melo Franco.
24 - “El Caudillo Leonel Brizola — Um Perfil Biográfico”, de FC Leite Filho.
25 - “Parceiro da Glória”, de David Nasser.
26 - “Padre Cícero — Poder, Fé e Guerra no Sertão”, de Lira Neto.
27 - “A Assembleia Constituinte Goiana de 1935 e o Mudancismo Condicionado”, de Jales Guedes Coelho Mendonça, meu amigo e colega de Ministério Público.
28 - “Ouvintes Alemães! — Discursos Contra Hitler”, de Thomas Mann.
29 - “1989: O Ano que Mudou o Mundo”, de Michael Meyer.
30 - “A Música do Cinema — Os 100 Primeiros Anos”, de João Máximo.
31 - “Cole Porter, Uma Biografia”, de Charles Schwartz.





