Poeta brasileiro quase ganhou Nobel de Literatura
Apesar dos provincianismos, como elogios excessivos, produto do “amiguismo”, a nulidades literárias como José Sarney (“muito bom escritor”) e Paulo Coelho (“um grande escritor”), o livro “Antônio Olinto: 90 Anos de Paixão — Memórias Póstumas de um Imortal” (Editora de Cultura, 317 páginas), de João Lins de Albuquerque, contém histórias magníficas. João Lins esclarece que não se trata de uma biografia, nem, digo eu, de memórias clássicas. Trata-se de uma longa entrevista, com informações às vezes repetidas e ligeiramente contraditórias. Mas isto não importa, pois a obra é mesmo do balacobaco.
O sueco Arthur Lundkvist, da Academia Nobel sueca, contou a Olinto que, leitor da poesia de Jorge de Lima, decidiu visitá-lo no Rio de Janeiro. Conversaram longamente e, em 1950, Lundkvist — “que sabia de cor alguns poemas negros de Jorge de Lima” — revelou ao escritor e diplomata Olinto: “De volta a Estocolmo, conversei com vários acadêmicos e chegamos à conclusão de que poderíamos dar o Prêmio Nobel a Jorge de Lima no fim dos anos 50”. O autor de “Invenção de Orfeu” deveria receber o Nobel em 1957 ou 1958, mas morreu em 1953 (na página 282, Olinto cita, erradamente, 1952 como data da morte).
Em 1958, durante um Congresso de Escritores, Olinto levou o escritor Graham Greene, autor do excelente romance “O Poder e a Glória”, para almoçar com Roberto Marinho, na redação de “O Globo”. Ao saber que o jornal havia sido fundado pelo pai de Marinho, Greene disse: “Ah! É um jornal de família? Tudo o que é de família é sempre bom! Jornais que são vendidos para muitos donos acabam perdendo seu vigor histórico, sua força editorial!”
Greene tornou-se amigo de Olinto, que foi adido cultural em Londres, e o convidava para o lançamento de seus livros. Ao ler o romance “A Casa da Água”, a obra-prima do autor patropi, Greene escreveu-lhe: “Eu não sabia, até ler seu livro, que escravos brasileiros tinham ido para a África depois da abolição”. O autor inglês disse que gostou “muito” do livro.
Ao perguntar qual seria seu próximo livro, Olinto colheu uma resposta curiosa de Greene, católico heterodoxo: “Estou querendo fazer um livro sobre aquele bispo que vocês têm lá no Nordeste do Brasil, o dom Helder [Câmara]. É uma boa figura para ser colocada num romance. Precisava conversar com ele, mas não posso viajar agora, porque tenho que resolver alguns problemas na França”. O livro acabou não saindo. Olinto diz que Greene escreveu “60 livros clássicos”. Um elogio e tanto, mas ingênuo. Evidentemente, o inglês não escreveu 60 clássicos. O próprio Greene desconfiava de várias de suas obras, que julgava não suficientemente trabalhadas, tanto que qualificava-as de puro “entretenimento” (as obras de entretenimento são melhores do que as sérias, exceto o esplêndido “O Poder e a Glória”).
O encontro de William Faulkner e Olinto em Estocolmo, em 1950, é hilariante. “Meu erro foi tentar falar de [André] Malraux e de [Marcel] Proust com Faulkner. Quando associei Proust à sua obra, ficou furioso e foi quase grosseiro: ‘Eu nunca li Proust! Não conheço!’, disse, irado. (...) Descobri que a pior coisa que você pode fazer com um escritor é compará-lo a outro”. Em 1954, Faulkner visitou o Brasil, sempre bêbado (depois de uma carraspana, perguntou o que estava fazendo em Chicago). Ao ser saudado por Olinto, Faulkner disse: “Você, outra vez?” O brasileiro perguntou se o americano havia lido Proust. Faulkner “respondeu telegraficamente”: “Já. É bom!”
Em 1950, em Estocolmo, na festa do Nobel, Olinto conversou com o poeta T. S. Eliot, americano que se tornou inglês. “Só achou graça e sorriu quando lhe disse que até a poesia de língua inglesa de poetas africanos seguia seu estilo. Ficou admirado quando destaquei que essa influência era visível em poemas de Okeigbo e Wole Soyinka.”
Quando Olinto perguntou de onde vinha a força emocional de sua poesia, Eliot disse: “A força emocional de minha poesia é americana. Se tivesse nascido na Inglaterra, minha poesia não seria o que ela é”.
Casado com a escritora Zora Seljan, ex-mulher do cronista Rubem Braga, Olinto foi levado a uma reunião de comunistas, mas, não suportando a mediocridade dos reds, caiu fora. Seu relato: “Diante de um comentário sobre a sujeira do banheiro no local das reuniões, o secretário procurou, indiretamente, ofender-me. Disse: ‘Aqui, quem limpa privada é professor e escritor, e quem escreve documentos é operário. Assim funciona o PC’. Depois dessa, e não sendo masoquista, nunca mais voltei a essas reuniões. A primeira experiência foi dura demais!”. Não há como discordar. Olinto morreu aos 90 anos, em setembro de 2009.
O dia em que Roberto Campos fez John Kennedy rir
Antonio Olinto relata outro encontro com Graham Greene. O autor de “Nosso Homem em Havana” pergunta: “Esse escritor, Machado de Assis, do qual vocês falam tanto, é mesmo bom? Que obra dele me indica?” O autor brasileiro emprestou-lhe uma cópia de “Quincas Borba” em inglês. Greene leu e comentou: “Mr. Olinto, Machado de Assis, realmente, é muito interessante! E eu não sabia que os brasileiros tinham a coragem de dar seus nomes aos seus próprios cães. Acho isso genial! Ignorava que os brasileiros amassem tanto seus animais a ponto de batizá-los com seus próprios nomes. Os ingleses deviam fazer o mesmo! Aprender isso com os brasileiros”. Olinto nota que Greene “era muito divertido nas suas observações”. Mas, no caso, seria verdadeiro? Os brasileiros davam seus nomes aos animais? Até quando? Hoje, pelo menos, não dão mais, ou pelo menos a maioria não dá. Meus cachorros têm nome de gente — Kirilov (personagem de Dostoiévski), Sartoris (personagem de Faulkner), Frida (a superestimada pintora mexicana) e Meg (wippet adotada) e vou adotar um pincher, a quem darei o nome de Gigante. Mas não têm meu sobrenome, Fagundes de França Belém. Pensando bem, vou seguir a recomendação “de” Greene. Nossas gatas são chamadas de Mila e Pereba (quando adotada, era uma pereba ambulante; hoje, como me segue o tempo todo, chamo-a de “gachorro”, mistura de gato com cachorro).
Pedro Nava é, sem dúvida, o maior memorialista brasileiro (seus livros foram relançados pela Ateliê Editorial, dirigida pelo goiano Plínio Martins). Mas Olinto tem razão ao dizer que “Lanterna na Popa”, de Roberto Campos, são memórias de excelente nível. Só não são mais respeitadas e lidas porque Campos, o Bob Robarchev Field, era de direita e autores de direita são “esquecidos” pela máfia esquerdizante que domina cadernos culturais e, mesmo, algumas editoras.
Sobre Campos, que foi colega de Olinto no seminário, deram aulas de latim juntos, o escritor diz: “Uma vez, durante a crise dos mísseis russos em Cuba, Kennedy perguntou-lhe como se sentiu em Washington, no alvo de tiro dos projéteis soviéticos. E completou, com certa ironia: ‘Se ocorrer uma catástrofe, pelo menos posso esconder-me nos subterrâneos de Camp David... E o senhor, embaixador?’ Roberto Campos não titubeou: ‘Eu me refugiarei na adega da Embaixada do Brasil, presidente. Acredito no provérbio francês que diz: ‘Entre a calamidade e a catástrofe, há sempre lugar para uma taça de champanhe’. Kennedy deu uma gostosa gargalhada e pediu a um de seus assistentes para anotar a piada. Roberto Campos era um mestre na arte das réplicas”.
Certa vez, quando trabalhava em “O Globo”, Olinto ligou para escritores e perguntou quais eram as dez palavras mais belas da língua portuguesa. Guimarães Rosa, sempre criativo, disse que era “murucututu”. “Não é uma beleza de palavra, Olinto?”, disse Rosa, diante da surpresa do amigo. “É uma coisa fantástica. São cinco ‘us’, numa só palavra.” Olinto não sabia o significado da palavra e Rosa explicou: “Ah! É uma corujinha amazônica. Uma beleza! É tão bonitinha que muitos amazonenses conservam-na dentro de casa! Nenhum país tem uma palavra tão bonita como essa, Olinto, coloque a minha ‘murucututu’ em primeiro lugar na sua lista”.
Jorge Amado, irreverente, disse que a palavra mais bonita era “safado” (que vem de Safo, a poeta grega). A redação de “O Globo” e Roberto Marinho vetaram a publicação. Olinto ligou para Amado e pediu outra palavra. O escritor baiano escolheu “lupanar”. “Pior ainda!”, lamentou Olinto. “Lupanar” é até bonita, mas “safado” é de um mau gosto atroz. Por que não luar ou solidão, duas palavras belíssimas?
A palavra mais bonita da língua portuguesa, para Olinto, é “alegria”. Mas a palavra vitoriosa, com certa justiça, foi “saudade”.
Em Londres, Olinto viu “uma casa em cuja fachada estava escrito: ‘Alegria’. Não pensei duas vezes, resolvi tocar a campanhia. Apareceu em seguida um inglês, que disse: ‘Eu morei no Brasil um bom tempo e achava a palavra ‘alegria’ tão bonita que, quando voltei, resolvi decorar a entrada da minha casa com ela!’”
Ary Barroso, o compositor, começou a vida como pianista de cinema mudo. Trabalhou num cinema do pai de Olinto. Aos 14 anos, era um mestre. E foi goleiro do time Aimorés Futebol Clube, de Ubá (terra natal de Olinto), “mas sem tirar os óculos, sobretudo na hora dos pênaltis”.
O crítico Wilson Martins escreveu sobre a literatura do autor de “O Rei de Leto” e “Trono de Vidro”: “Antonio Olinto introduziu em nossa ficção a temática africana, (...) não o romance dos escravos que vieram para o Brasil, mas o dos seus descendentes, que, regressando aos territórios ancestrais, lá implantaram um prolongamento da civilização brasileira. Nessa linha de inspiração, ‘A Casa da Água’ é não só o ponto alto da sua bibliografia, mas, sem dúvida, uma das obras-primas do romance universal”.
Uma curiosidade: “O nome de outro livro” de Olinto, “‘Copacabana’, de 1975, batizou uma praia no Mar Negro por iniciativa do governo romeno, em vista do sucesso que ele alcançou nesse país”.
Olinto fala também de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meirelles (muito bem apresentada), João Cabral de Melo Neto, Augusto Frederico Schmidt, Rachel de Queiroz, Guimarães Rosa, Erico Verissimo (visto como proustiano), Jorge Amado, Euclides da Cunha, Vinicius de Morais, escritores africanos, com amplo conhecimento de causa, e Proust e André Gide. Conta histórias sobre Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e Tancredo Neves.
O poeta goiano Luiz de Aquino é citado no livro. Embora o sumário seja relativamente esclarecedor sobre as principais personalidades citadas, uma das falhas editoriais é a falta de um índice de nomes. O leitor é obrigado a produzir seu próprio índice onomástico.





