Os Ditadores — A Rússia de Stálin e a Alemanha de Hitler
Com atraso de cinco anos, a José Olympio lança o excelente “Os Ditadores — A Rússia de Stálin e a Alemanha de Hitler” (840 páginas, tradução de Marcos Santarrita), de Richard Overy. Ao lado do clássico “Hitler and Stalin: Parallel Lives”, de Alan Bullock, de 1991, o livro do historiador inglês é uma das análises comparativas mais percucientes a respeito dos ditadores.
Overy diz que “nem Hitler nem Estaline eram pessoas normais. Tanto quanto se pode perceber, não eram desequilibrados no sentido clínico, por muito tentador que seja presumir que as suas ações monstruosas teriam sido provocadas pela demência. Eram homens dotados de personalidades excepcionais e de uma extraordinária energia política. Em qualquer dos casos, o que os movia era a dedicação sem reservas a uma causa, para a qual, e por diferentes razões, se consideravam os executores históricos. Perante semelhante destino, os dois homens desenvolveram uma morbidez exagerada. Estaline tinha pavor tétrico da morte e à medida que envelhecia receava o que o seu desaparecimento significaria para a revolução que julgava proteger. Hitler também se deixou apoderar pelo medo de não viver o tempo suficiente. ‘Oprimido pelo terror do tempo’, observou Albert Krebs, dirigente do partido em Hamburgo, ‘pretende comprimir o desenvolvimento de um século no espaço de duas décadas’. Eram os dois impiedosos, oportunistas e flexíveis nas suas táticas, e as ações políticas centravam-se sem rodeios na sua sobrevivência pessoal. Ambos foram subestimados, quer por colegas quer por adversários, que não foram capazes de perceber que personalidades tão modestas e discretas, quando em repouso, disfarçavam um núcleo duro de ambições, de implacabilidade política. (...) A singularidade de objetivos e a vontade poderosa demonstradas pelos dois homens ao logo da década de 1920 não os guindou automaticamente à posição de autoridade absoluta que ocupavam nos anos 30. A ditadura não era uma inevitabilidade. Não se sabe bem quando terá Estaline entendido que o seu poder pessoal era um modo mais seguro de preservar a revolução do que uma liderança coletiva — talvez durante os últimos meses de vida de Lenine. (...) O ponto de partida, tanto para Estaline como para Hitler, foi o domínio dentro do seu próprio partido, para só depois virem a reivindicar o poder” (páginas 61 e 62).
Hitler gostava da música do compositor Richard Wagner, mas sua ópera favorita era a “Viúva Alegre”, de Franz Lehar. “Gostava das histórias do Oeste americano do escritor alemão Karl May; entre suas posses secretas, encontradas em 1945 escondidas numa mina de sal, estava uma cópia da canção ‘Na minha banheira sou o capitão’”. Hitler era leitor de Lênin, Schopenhauer, Paul de Lagarde e Houston Stewart Chamberlain. Sobre Stálin, Overy diz: “Não sendo estúpido, Estaline também nada tinha de ‘intelectual’”.
A edição portuguesa, publicada em 2005 (o que prova que Portugal publica primeiro do que o Brasil), saiu com o mesmo título (e subtítulo ligeiramente diferente): “Os Ditadores — A Alemanha de Hitler e a Rússia de Estaline” (Bertrand Editora, 877 páginas, tradução de Victor Antunes. “Estaline” é a grafia de Stálin em Portugal). A capa da edição brasileira é praticamente idêntica à brasileira (as fotografias são ligeiramente alteradas). A edição portuguesa contém excelentes fotografias russas e alemãs; a brasileira optou por ignorá-las. O defeito da edição portuguesa é não ter índice de nomes.





