O Motim do Bounty
Quem gosta de histórias do mar não deve perder “O Motim do Bounty” (Companhia das Letras, 522 páginas), da historiadora e jornalista Caroline Alexander. O livro não cita o filme “O Grande Motim”, de Frank Lloyd, com Clark Gable (Fletcher Christian) e Charles Lawghton (capitão William Bligh) — no que faz muito bem. Porque o filme é um retrato distorcido do que aconteceu no Bounty.
Em 1787, dois anos antes da Revolução Francesa, instigado por sir Joseph Banks, rico naturalista, o capitão (na época, tenente) Bligh dirigiu-se, para uma viagem de dois anos, ao Taiti. Mesmo contra a vontade do Almirantado, que se preparava para a guerra contra os franceses, Banks, com o apoio do governo inglês, deu apoio decisivo à viagem. Os marinheiros iriam ao Taiti para buscar e, depois, levar mudas de fruta-pão para as colônias do Caribe. O objetivo era baratear o custo da alimentação dos escravos.
No filme de Lloyd, Bligh é apresentado como carrasco. Caroline Alexander, na sua criteriosa pesquisa, mostra que o grande marinheiro Bligh era moderno, tinha vocação científica, fazia o possível para alimentar bem seus homens, cuidava da saúde deles e tinha horror a castigo físico, embora eventualmente mandasse chicotear os indisciplinados. Christian, no filme apresentado como herói, não era um oficial disciplinado.
Ao chegar ao Taiti, com as mudas de fruta-pão no navio, Christian lidera uma rebelião. “O que causou o motim no Bounty?”, pergunta Caroline Alexander. “As seduções do Taiti [as belas mulheres], a língua ferina de Bligh — talvez. Mas mais convincentemente uma noite de muita bebida e o orgulho de um homem orgulhoso [Christian], um mau momento em certo amanhecer cinzento, um tropeço momentâneo e fatal no código de disciplina de um cavalheiro — e depois a torrente de consequências a serem suportadas pelo resto da vida.”
Bligh e 18 marinheiros foram jogados ao mar, num pequeno barco, para morrer. Mesmo com pouca comida e num escaler de sete metros, que quase naufragou, o capitão e seus homens navegaram, durante 48 dias, 3600 milhas e sobreviveram. Com o auxílio de moradores de uma possessão holandesa, com apenas algumas mortes (em terra), chegaram à Inglaterra.
Os homens de Christian foram levados para a ilha Pitcairn, onde se casaram e tiveram filhos. Há indícios de que Christian tentou transformar os taitianos em escravos e acabou assassinado. Christian deixou filhos em Pitcairn. Dos amotinados que foram viver na ilha sobrou um marinheiro, John Adams, que imortalizou a história. Os marinheiros que ficaram no Taiti foram capturados e julgados na Inglaterra. Alguns deixaram filhos no Taiti.
O que os filmes (há outra versão, com Marlon Brando e Tyrone Power) não mostram, porque o objetivo é crucificar Bligh, é que, mais tarde, o capitão voltou ao Taiti e levou mudas de fruta-pão.
Os poetas Samuel Taylor Coleridge e William Wordsworth foram amigos dos familiares de Christian. O longo poema “A balada do velho marinheiro”, de Coleridge, ecoa o motim do Bounty.





