Desenho de  Wendy MacNaughton
revista bula

compartilhe



últimos comentários

últimas no twitter

  • O Evangelho Segundo Lennon e McCartney | Revista Bula http://t.co/H7JjAESE
    7 horas atrás
  • @fpulcineli Número cabalístico: 5.000
    8 horas atrás
  • Casos de divã, se resolvem no divã...
    10 horas atrás
  • RT @screamyell Esse twitter novo é genial, mas ao contrario
    10 horas atrás
  • RT @revistaabsurda Para comemorar o #CorruPTosDay, o PT manda prender 150 PMs grevistas.
    10 horas atrás

parceiros

  • twitter rank


sugestões de livros

  • e eventualmente nojentas de casais escatológicos

sugestões de filmes

POR EM 25/02/2010 ÀS 04:11 PM

O maior julgamento literário da história do sertão

publicado em

Grande Sertão: VeredasNo romance “Grande Sertão: Veredas” (Nova Fronteira, 552 páginas), de João Guimarães Rosa, há pelo menos sete grandes personagens: a Linguagem, o Sertão, Riobaldo Tatarana (o tradutor do Sertão e pactário com o Diabo), Diadorim (o duplo), Joca Ramiro (o homem fantasmal, o mito), Hermógenes (pactário com o Diabo) e Zé Bebelo. Deus e o Demônio são coadjuvantes. Um dos trechos mais admiráveis é o julgamento de Zé Bebelo, então bate-pau do governo, pelos jagunços.

O valente e palavroso Zé Bebelo pede para ser julgado e Joca Ramiro, chefão da jagunçama, aceita e convoca os “jurados” Sô Candelário, Hermógenes (pactário com o demo), Ricardão, Titão Passos e João Goanhá. “Reunidos no meio do eirado, numa confa”, o grupo começa o julgamento. “Zé Bebelo não estava aperreado. Tomou corpo, num alteamento — feito quando o perú [Guimarães Rosa prefere com acento] estufa e estoura — e caminhou em direitura.”

“‘Lhe aviso: o senhor [Zé Bebelo] pode ser fuzilado, duma vez. Perdeu a guerra, está prisioneiro nosso...’ — Joca Ramiro fraseou.” Zé Bebelo repostou: “Se era para isso, então, para que tanto requifife?” Sem perder a paciência, Joca Ramiro insistiu: “O senhor veio querendo desnortear, desencaminhar os sertanejos de seu costume velho de lei”. Zé Bebelo manteve a verve: “Velho é, o que já está de si desencaminhado. O velho valeu enquanto foi novo”.

Joca Ramiro não se deu por vencido: “O senhor não é do sertão. Não é da terra”. Zé Bebelo atacou com mais prosa: “Sou do fogo? Sou do ar? Da terra é é a minhoca — que galinha come e cata: esgaravata!”

Como a conversa não atava nem desatava, Joca Ramiro começou o julgamento. Hermógenes não mediu palavras: “Acusação, que a gente acha, é que se devia de amarrar este cujo, feito porco. O sangrante... Ou então botar atravessado no chão, a gente todos passava a cavalo por riba dele — a ver se vida sobrava, para não sobrar! (...) Cachorro que é, bom para a faca. (...) Dele é este Norte? Veio a pago do Governo. Mais cachorro que os soldados mesmos... Merece ter vida não. Acuso é isto, acusação de morte. Diacho, cão!” Zé Bebelo defendeu-se: “Porque acusação tem de ser em sensatas palavras”. Hermógenes ficou uma fera: “Meu direito é acabar com ele, Chefe!” O tutúmumbuca Joca Ramiro discordou: “Mas ele não falou o nome-da-mãe”. O narrador, Riobaldo, acrescenta: “Só para o nome-da-mãe ou de ‘ladrão’ era que não havia remédio”.

Sô Candelário, homem bravo, disse que ele e Zé Bebelo deveriam resolver a pendenga a faca. Joca Ramiro não deixou: “Agora é a acusação das culpas. Que crimes o compadre indica neste homem?” Sô Candelário deu seu voto: “Crime?... Crime não vejo. (...) Veio guerrear, como nós também. Perdeu, pronto! A gente não é jagunços? A pois: jagunço com jagunço — aos peitos, papo. Isso é crime? Perdeu, está aí feito umbuzeiro que boi comeu por metade... Mas brigou valente, mereceu... (...) o que acho é que se deve de tornar a soltar este homem”.

Ricardão, amigo e guru de Hermógenes, votou pela pena de morte: “... Zé Bebelo veio caçar a gente, no Norte sertão, com mandadeiro de políticos e do Governo, se diz até que a soldo... A que perdeu, perdeu, mas deu muita lida, prejuízos. (...) Dou a conta dos companheiros nossos que ele matou, que eles mataram. Isso se pode repor? E os que ficaram inutilizados feridos, tantos e tantos... (...) A gente não tem cadeia, tem outro despacho não, que dar a este; só um: é a misericórdia duma boa bala, de mete-bucha, e a arte está acabada e acertada”.

Defensor de Zé Bebelo, Riobaldo interrompe a história e pergunta: “Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado. (...) Lei é lei? Loas! Quem julga, já morreu. Viver é muito perigoso, mesmo”.

Na vez de julgar, Titão Passos segue os passos de Sô Candelário: “Este homem não tem crime constável. (...) Ah, eu, não. Matar, não”. João Goanhá segue Titão Passos: “... meu voto é com o compadre Sô Candelário, e com meu amigo Titão Passos, cada com cada... Tem crime não. Matar não. Eh, dia!”.

Democrático, o chefão Joca Ramiro abre espaço para os jagunços falarem. Riobaldo fala: “... A ver. Mas, se a gente der condena de absolvido: soltar este homem Zé Bebelo, a mãzavias, punido só pela derrota que levou — então, eu acho, é fama grande. Fala de glória: que primeiro vencemos, e depois soltamos. (...) Melhor é se ele der a palavra de que vais-s’embora do Estado, para bem longe, em desde que não fique em terra daqui nem da Bahia...”. Zé Bebelo aprovou: “Tenho uns parentes meus em Goiás... (...) A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do sertão é tomando conta dele a dentro”. Joca Ramiro diz: “Se eu consentir o senhor ir-se embora para Goiás, o senhor põe a palavra, e vai?” Zé Bebelo: “A palavra e vou, Chefe. (...)... pelo quanto tempo eu tenho de estipular, sem voltar neste Estado [Minas Gerais], nem na Bahia? Por uns dois, três anos?” Joca Ramiro: “Até enquanto eu vivo for, ou não der contra-ordem”. Mais tarde, Hermógenes mata Joca Ramiro. Zé Bebelo volta ao sertão e comanda, entre outros, os jagunços Riobaldo e Diadorim.

 

Bookmark and Share

Comentários (2)

  • as primeiras edições, com os desenhos do poty, eram muito mais legais!

    10 meses atrás por raphael
  • Grande Sertão é um livro único. A nova edição é imprescindível para os fãs de Rosa.

    2 anos atrás por Marco Antônio


*Obs — todos os comentários são moderados.
Não é aceito nenhum tipo de script ou formatação, caso queira adicionar um link apenas cole o endereço normalmente.

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2009 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — editorial@revistabula.com


renovatio