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POR EM 11/07/2009 ÀS 09:05 AM

O centenário de Ataulfo Alves

publicado em

Para quem gosta de boa música, a eterna, não a dos jabás de algumas rádios e tevês, 2009 é mesmo o Ano Ataulfo. A cristalização das homenagens é o livro Ataulfo Alves — Vida e Obra, do jornalista e historiador Sérgio Cabral

Ataulfo, Roberto Carlos e Caçulinha

Elegante (e magro) como Barack Obama, refinado como Louis Armstrong e genial como Noel Rosa, Ataulfo (ou Ataulpho) Alves nasceu em 2 de maio de 1909, há 100 anos, e morreu em 20 de abril de 1969, há 40 anos. 2009 bem poderia ser chamado de “Ano Ataulfo”. Para quem gosta de boa música, a eterna, não a dos jabás de algumas rádios e tevês, 2009 é mesmo o Ano Ataulfo. A cristalização das homenagens é o livro “Ataulfo Alves — Vida e Obra” (Companhia Editora Nacional e Lazuli), do jornalista e historiador Sérgio Cabral. Não li o livro, que ainda não aparece nos sites das livrarias. Nas entrevistas, o excelente pesquisador conta uma história que, se parece nova, está documentada em pelo menos dois livros: “Ataulpho Alves — Um Bamba do Samba” (edição do autor, 272 páginas, 2004), de Luizito Pereira, e “A Canção no Tempo — 85 Anos de Músicas Brasileiras, Volume 1: 1901-1957” (Editora 34, 366 páginas, 1997), de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello.

O samba “Ai Que Saudades da Amélia”, de Mário Lago e Ataulfo, é considerado uma obra-prima por Jairo Severiano, um dos mais categorizados historiadores da música patropi, autor do seminal “Uma História da Música Popular Brasileira — Das Origens à Modernidade” (Editora 34, 501 páginas, 2008). Severiano e Zuza dizem que se trata de “primoroso poema popular, coloquial espontâneo”. “Escrito por Mário Lago, recebeu de Ataulfo Alves uma de suas melhores melodias, que expressa musicalmente o espírito da letra.” A letra de Mário Lago, compositor inspirado (e pouco comunista, apesar de ter pertencido ao Partidão), é baseada numa história real. Aníbal Alves de Almeida, conhecido como Almeidinha, irmão da cantora Araci de Almeida, é o pai não-intelectual de “Amélia”. 

“Amélia”, segundo Severiano e Zuza, “nasceu de uma brincadeira de Almeidinha, que sempre que se falava em mulher costumava brincar — ‘Qual nada, Amélia é que era mulher de verdade. Lavava, passava, cozinhava...’. Então, Mário achou que aquilo dava samba e fez a letra inicial de ‘Ai Que Saudades da Amélia’”. Os historiadores sustentam que Amélia realmente “existiu e, possivelmente, ainda vivia à época da canção. Era uma antiga lavadeira que serviu à sua família [de Almeidinha]. Morava no subúrbio do Encantado (Zona Norte do Rio) e trabalhava para sustentar uma prole de nove ou dez crianças”.

A versão de Luizito acrescenta mais molho, mas não é muito diferente da apresentada por Severiano e Zuza. Mário conta que, em 1941, enquanto conversava com Ataulfo, Frazão e Orlando Silva, no Café Nice, “o Almeidinha começou a cantarolar a história de uma mulher que era solidária ao seu homem, que passava fome ao seu lado e achava bonito não ter o que comer. Eu e Ataulfo pensamos: isso dá um samba”.

O baterista Almeidinha admirava o desprendimento de Amélia dos Santos Ferreira, empregada de Araci (ou Aracy) de Almeida. A versão de Ataulfo, transmitida por Luizito: “Tínhamos combinado fazer o samba juntos. Eu já tinha a música e pedi os versos ao Mário. Ele escreveu o poema e me deu. Em casa, meti os peitos no samba. Mudei então alguns versos. Não o sentido. Uma ou outra palavra, trocando de lugar uma frase para melhor adaptar minha música”.  

Louis Armstrong, Juscelino Kubitschek e Ataulfo

O relato de Severiano e Zuza: “Com a letra pronta, Mário pediu a Ataulfo Alves para musicá-la. O compositor executou a tarefa, mas alterou algumas palavras e aumentou o número de versos de doze para quatorze. ‘Isso é natural’ — comentava Ataulfo, em depoimento para o MIS do Rio de Janeiro, em 17 de novembro de 1965 —, ‘as composições dos parceiros que são letristas sofrem influência minha, que sou autor de letra e música. Mas o Mário não gostou. E não adiantou dizer que a música me obrigara a fazer as modificações’. De qualquer maneira, como o samba estava bom, ficaram valendo as alterações”.

Luizito registra que Mário atacou, furibundo: “Esse samba não é meu, não escrevi isso. Pode lançá-lo sozinho”. No final de 1941, serenados os ânimos, Mário decidiu “assinar o contrato para a gravação de ‘Ai Que Saudades da Amélia’, “mas”, comunista de “mercado”, “exigiu pagamento adiantado”. Vicente Vitale, apresentado por Luizito como editor-comerciante esperto, aceitou fazer o adiantamento, mas exigiu “a exclusividade da composição”. Mais tarde, Ataulfo lamentou: “A empresa Vitale só quer me dar 10% daquilo que eu julgo com direito, e por isso não recebo um vintém”.

Resolvido o impasse, com Mário aceitando que o samba e a grana eram dele, Ataulfo sugeriu que um cantor famoso gravasse a música. Ninguém queria gravá-la. Alguns disseram para Ataulfo: “O samba é bonito, mas não é carnavalesco”. Outros ficaram com receio: “A música é boa, mas, não sei, é diferente e acho que o povo não gosta disso”. Nem Orlando Silva, o Sinatra da casa grande e da senzala, ousou gravar “Amélia”.

Na falta de um grande cantor, Ataulfo decidiu gravar o samba, no fim de novembro de 1941, com o grupo Academia do Samba e, tocando cavaquinho, Jacob do Bandolim. Lançada em janeiro de 1942, a música fez sucesso, não desagradando homens e mulheres, que entenderam aquilo que Ataulfo disse numa entrevista: “Amélia é compreensão, é ternura, é vida”. Não é um hino à submissão. “Ela simboliza a companheira ideal, que luta ao lado do marido, vivendo de acordo com suas possibilidades, sem exigir o que ele não pode dar”, acrescentou o compositor-cantor. “Amélia”, pontificou Mário, era o “símbolo da mulher brasileira” (um exagero, pois as troianas, e outras, eram tão solidárias quanto).

A mulher do presidente Getúlio Vargas, Darcy, mandou executar a música no Baile de Gala do Municipal. “O cinematografista americano Orson Welles, encarregado de dirigir a filmagem de aspectos da festa, fez questão de conhecer a letra de ‘Amélia’ em versão para o inglês, cantarolando a música durante todo o carnaval”, garaante Luizito.

Indicada para a disputa do melhor samba do carnaval de 1942, “Amélia” enfrentou “Praça Onze”, sucesso de Herivelto Martins e Grande Otelo. As duas músicas empataram, por decisão do público, e levaram a grana do prêmio.
 

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Comentários (2)

  • Valeu! Parabéns pelo texto!

    2 meses atrás por roberto
  • A legenda da foto do Juscelino está errada. Consta Getúlio Vargas...

    2 meses atrás por Roberto

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