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POR EM 29/01/2010 ÀS 03:21 PM

O boom da mídia

publicado em

Emboscada no Forte BraggNada mais chocante do que ser constantemente bombardeado por grupos de imagens. Estas surgem por todos os lados e atingem a todos, como mísseis vindos do céu. Inesperadamente, ouve-se um grande estrondo: Boom!!!! A imagem-bomba explodiu e, agora, pessoas começam a se mover; vão para onde podem ir, mas vão. Correm a contar ao vizinho de prédio, apressam o passo para poderem chegar logo ao trabalho e quem sabe, “dar a grande notícia”, pegam o telefone, mandam scraps pelo Orkut, twits no Twitter , acessam sem parar o Youtube e assim, o míssil continua a explodir em menor escala. A guerra continua e como as pessoas a adoram!!! “Você viu, Maria? As câmeras flagraram aquele político guardando dinheiro na cueca!!! Dinheiro sujo, veja só!!!”, fala algum brasileiro a sua conhecida em algum lugar do país.
           
Com o desenvolvimento da fotografia, da televisão e mais recentemente, da apropriação destes dois recursos pela Internet,  os olhos destes terráqueos vindos do século XX para o XXI, se acostumaram com todas estas produções que cercam suas vidas. Fala-se até, em “poluição visual”, referindo-se às figuras em cartazes espalhadas por vários cantos da cidade. Mas, será que tudo o que se vê realmente condiz com a realidade? “Como não?”, perguntariam os mais fanáticos, sem terem suas razões tiradas. O que talvez, alguns desconhecem, é que com o avanço das tecnologias visuais, desenvolveu-se com elas a chamada “edição”, que nada mais é do que a forma de se ajustar imagens para se obter um resultado mais adequado. Em termos televisivos, por exemplo, novelas, filmes, telejornais e todos os outros tipos de programas utilizam-se deste recurso para dar basicamente, tamanho, forma e velocidades desejados. É uma maneira de se montar tais materiais de acordo com o que for mais relevante, excluindo-se cenas e/ou falas indesejadas ou de pouco valor informativo. Entretanto, este processo pode ter um caráter muito mais malicioso do que se possa imaginar; os interesses institucionais podem ser tão fortes, que muitas vezes acabam sobrepondo-se ao do simplesmente “cortar” os excessos. Este é o tema de “Emboscada no Forte Bragg” (“Ambush at Fort Bragg- When The Mightiest Television Network Meets Up With The Lords Of Testosterone, Someone’s Bound To Get Hurt”- título original) do jornalista e escritor Tom Wolfe.
           
Inicialmente publicado em capítulos na revista americana “Rolling Stone” em 1996, o livro narra uma história ficcional de fortes manipulações de imagem por um programa de televisão, que investigava  um “escândalo” no exército dos Estados Unidos. O enredo até pode ter sido inventado, mas suas características de detalhes são tão imensas que o leitor  consegue visualizar-se sentado em seu sofá assistindo o programa “Dia & Noite”.  Não foi à toa que Wolfe tornou-se o “pai” do New Journalism ou o criador do Jornalismo Literário (estilo de jornalismo que utiliza técnicas narrativas da literatura para abordar fatos informativos). Ele não apenas conta uma história, mas relata-a. Faz isto com uma imensidade de detalhes e com tanta naturalidade que aquele que lê torna-se envolvido na trama e passa a olhar os fatos do ponto de vista dos personagens.
           
A começar pelo título, a história é realmente uma verdadeira “emboscada”. Três jovens soldados americanos (‘Jimmy’ Lowe, ‘Ziggy’ Ziggefoos e Flory) pertencentes ao posto militar situado no Forte Bragg (estado da Carolina do Norte, sul dos Estados Unidos) são acusados de terem assassinado um rapaz (Randy Valentine), companheiro de batalhão, pelo fato de este ser homossexual. Mas a emboscada a que se refere o autor não é com relação ao garoto morto, mas sim, aos três vivos: estes são monitorados por semanas por câmeras escondidas no bar aonde costumavam ir. Os produtores do programa “Dia & Noite” assistiam tudo ao vivo da sala de emissora. Esperavam a hora em que eles comentassem o “assunto”.

Wolfe demonstra que não há limites para uma grande emissora quando a pauta pode render “explosões” futuras na sociedade. Para conseguir um resultado promissor, um canal de tv não é só capaz de grampear lugares e fazer escutas, mas também de utilizar “iscas” para a sua “armadilha”. No livro, após terem captado falas expressivas (e incriminativas, a princípio), até uma streaper é contratada para “ajudar” os soldados em suas “confissões”. A  famosa apresentadora do programa, Mary Cary Brokenboroug, também surpreende os rapazes com a sua presença no trailer, para onde eles foram atraídos.
           
A edição do material fica a cargo do principal produtor (e idealizador da “emboscada”), Irv Durtscher. Seu talento é tão grandioso que ainda no momento em que Mary Cary tentava arrancar maiores explicações dos três suspeitos, ele já pensava o que fazer com cada dizer. O resultado foi à sobreposição de falas e imagens totalmente descontextualizadas. Enquanto Ziggefoos, o que melhor argumentava, justificava-se, as imagens mostradas simultaneamente a isto eram as de Flory e Jimmy, com suas caras assustadas. Com isto, Irv reforça o tom de “culpa” dos soldados, que estariam “incriminando-se” por si próprios.

O telespectador agora está a par do crime cometido dentro das imediações do Forte Bragg e portanto, passa a saber que existe intolerância contra o homossexualismo por militares. Porém,  ele nunca saberá a respeito dos questionamentos sobre este mesmo tema  feitos por Ziggy: “Quantos amigo mossexual cês tem? Quantos gostaria de vê seu filho virá mossexual? Quantos di ocês qué trabalhá com um mossexual ao lado?”. A cada frase de efeito dita por aqueles garotos caipiras do sul, a cada contorção de face, a cada olhar perturbador, a indignação vai crescendo dentro de todos aqueles que os assistem. Mary Cary Brokenboroug       reforça a dramatização com seu tom de voz sombrio e suas expressões alarmadas.

A “bomba” explodiu. Alguns milhões de americanos estão incrédulos com tudo aquilo. A equipe de televisão sabe que é inaceitável para a sociedade americana, sempre tão evoluída de ideias e de valores, sempre tão pacífica (“gente de bem”, como se diz por aí), a saber de atrocidades do exército (o foco expande-se rapidamente e já não engloba apenas os três soldados suspeitos).

O programa “Dia e Noite” consegue o que queria. Agora, seu material será pautado pelos outros veículos e por mais que a justiça interesse-se em investigar o caso, para o jornalismo ele já está encerrado: James Lowe, Virgil Ziggefoos e Randall Flory são assassinos, praticantes de um crime brutal por puro preconceito. Assim como no livro, na “vida real”, a mídia também cria seus culpados. Quem não se lembra do caso, em 2008, com a garotinha paulista de classe média, Isabella Nardoni, que foi encontrada morta ao despencar de um prédio? Os principais suspeitos, o pai, Alexandre Nardoni e a madrasta Anna Carolina Jatobá são tidos como os praticantes de um crime impensável e monstruoso. Porém, muitos se esquecem que o processo contra os dois, ainda está em andamento e a justiça só dará o parecer final em março próximo, dois anos após o ocorrido. Seja no sensacionalismo de imagens, como o sofrimento das vítimas e demais envolvidos no terremoto do Haiti, na captação de certos ângulos que podem levar a um entendimento diferente do da realidade ou simplesmente, no corte de falas e imagens, o jornalismo cria seus heróis e culpados. E a justiça... Ah, como todos sabem, esta é lenta. Até que se prove o contrário, a imprensa já mudou de enredo e de personagens.

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Comentários (1)

  • Parabéns pela resenha, abrange fatos muito interessantes...

    2 anos atrás por Eleni


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