O biógrafo que nasceu em Marte
Poucos países têm uma música tão multifacetada quanto o Brasil. Uma lista mínima: Chiquinha Gonzaga, Noel Rosa, Villa-Lobos, Bidu Sayão, Carmen Miranda, Elizeth Cardoso, Ary Barroso, Ataulpho Alves, Francisco Alves, Orlando Silva, Mário Reis, Pixinguinha, Dorival Caymmi, João Gilberto, Tom Jobim, Elis Regina, Gal Costa, Roberto Carlos, Caetano Veloso e Chico Buarque. Ao ler a introdução do livro “Nem Vem Que Não Tem — A Vida e o Veneno de Wilson Simonal” (Globo, 390 páginas), do jornalista Ricardo Alexandre, fica-se sabendo que os artistas citados não têm a mínima importância. Leia a barbaridade que Ricardo Alexandre escreveu sobre Wilson Simonal (página 11): “Talvez o mais completo, certamente o mais simbólico artista que o Brasil já viu — e que, de repente, não quis mais ver”. Na página 30, num acesso de loucura e estultice explícitas, o biógrafo sugere que Simonal é o ponto de chegada da Bossa Nova e do rock’n’roll tropical.
Ricardo Alexandre deve ter nascido em Marte, com mestrado em Vênus e doutorado na Lua. Wilson Simonal não é tão ruim quanto passou a pintar a esquerda, que o acusa de ter dedurado colegas, mas não é, nem de longe nem de perto, “o mais completo artista que o Brasil já viu”. Não tenho simpatia por delatores, mas, se Simonal entregou a esquerda, contribuindo para evitar a instalação de uma “ditadura contra o proletariado” no país, perdoo-o, desde já — sem nenhum receio de patrulhamento bestialógico da esquerda. Agora, em termos de arte, conceitos como esquerda e direita nada têm a ver com qualidade estética. Chico Buarque é de esquerda, de uma esquerda mais festiva do que efetiva, mas suas músicas não resultam de uma visão estreita e unidimensional do mundo. É provável que a esquerda, ao adotá-lo por completo, nem tenha entendido direito suas músicas complexas. O escritor francês L. F. Céline era fascista, mas escreveu uma das prosas mais revolucionários, em termos estéticos, do século 20. O James Joyce francês, se há, é Céline, não algum autor do Nouveau Roman.
O problema de algumas biografias é que seus autores se apaixonam tanto pelo objeto de estudo que, ao perder o distanciamento, produzem verdadeiras hagiografias. O ponto de partida de Ricardo Alexandre, tomar sucesso como qualidade, com permanência na história da música, é equivocado. Mas estou apenas no começo da leitura. Até onde li, nada de luminoso.





