Nigerianos roubam U$ 242 milhões de banco brasileiro
O historiador e jornalista inglês Misha Glenny escreveu um livro muito bom, “McMáfia — Crime Sem Fronteiras” (Companhia das Letras, 440 páginas), no qual o Brasil figura como um dos personagens principais. Não é preciso esquecer as máfias italianas e americanas, mas o pesquisador mostra que há muitas outras máfias no mundo que devem ser conhecidas e, sobretudo, combatidas. Uma delas é a nigeriana.
No capítulo 8, “O teatro do crime”, Glenny conta a história do golpe que um grupo de criminosos nigerianos aplicou no Banco Noroeste, das famílias Simonsen e Cochrane, entre 1995 e 1997. Juntas, foram surrupiadas por africanos espertos em 242 milhões de dólares e só com muito custo conseguiram reaver parte do dinheiro. Na verdade, segundo o livro, conseguiram bloquear a grana. Mas gastaram uma fortuna para tentar retomá-la, pois tiveram de contratar especialistas caríssimos para fazer a operação de “retorno”. Desmoralizado, o banco acabou vendido para o Santander.

Nelson Sakaguchi, vítima de uma fraude monumental
A história do golpe é surpreendente, e começou pelo fax e, depois, pela internet. O executivo Nelson Sakaguchi, responsável pelas operações do Banco Noroeste nas Ilhas Cayman, recebeu um fax de Tafida Williamns (na verdade, Bless Okereke), diretor de Orçamento e Planejamento do Ministério da Aviação da Nigéria. Williams explicou que o governo, que iria construir um novo aeroporto internacional em Abuja, a nova capital, precisava de investimentos.
Sakaguchi, homem do mercado financeiro, farejou uma grande oportunidade de investimentos. Articulou um encontro com Paul Ogwuma, diretor do Banco Central da Nigéria. Os nigerianos informaram que o governo queria 50 milhões de dólares para construir o aeroporto.
Mesmo sabendo que o capital do Noroeste era de apenas 500 milhões de dólares, o brasileiro, impressionado com o esquema, entusiasmou-se e liberou imediatamente 4 milhões de dólares para Emmanuel Nwude, “o mais exímio golpista da Nigéria”. Sakaguchi foi liberando dinheiro, até chegar à fabulosa soma de 242 milhões de dólares. O nome do golpe é “comissão adiantada”, ou 419. Os nigerianos foram pedindo dinheiro, antecipações, e, no final das contas, não havia aeroporto, nem os golpistas eram dirigentes do governo e do banco central da Nigéria.
“Todo mundo concorda que Sakaguchi foi vítima de uma fraude monumental” — uma das cinco maiores do mundo —, "mas ninguém entende como um banqueiro tão experiente caiu no golpe nem por que subtraiu o dinheiro de seu empregador no processo”, escreve Glenny. “Sakaguchi insiste que foi vítima pura e simples de um golpe e que não estava roubando dinheiro do banco. (...) A ingenuidade de Sakaguchi implora credibilidade. Não há provas de que ele estivesse mancomunado com os golpistas — foi uma vítima genuína. Mas estava financiando aquele jogo desvairado com o dinheiro dos outros.”
Sakaguchi assegura que seus patrões sabiam do “negócio”, mas as famílias Simonsen e Cochrane negam e o processaram.
Glenny relata que os nigerianos enviam, todos os dias, milhares de e-mails para pessoas do mundo inteiro com propostas de dinheiro fácil — milhões de dólares — e muitas acreditam, entram em contato e são lesadas. Dificilmente conseguem receber o dinheiro que, na verdade, deram de presente para nigerianos espertos. O e-mail se tornou um poderoso instrumento para os nigerianos arrancarem dinheiro dos incautos. Aliás, pode-se dizer que Sakaguchi, com anos de mercado financeiro, é incauto?
Noutro capítulo, Glenny relata como o delegado Protógenes Queiroz (o mesmo que prendeu o banqueiro Daniel Dantas) desbaratou a quadrilha do chinês Law Kin Chong. Nem mesmo a Polícia Federal em São Paulo foi avisada da Operação Shogun.
“Os cartéis de Cali e de Medellín começaram a negociar a expansão global da cocaína com representantes da Irmandade de Solntsevo de Moscou, com traficantes búlgaros e com inúmeros traficantes do Caribe e da América Central” por intermédio das famílias Cuntrera e Cuarana. O fundador do esquema, octogenário, mora, sem ser molestado, no Rio de Janeiro. Os filmes americanos estão certos: criminosos continuam fugindo para o Brasil.
O Primeiro Comando da Capital (PCC) também é discutido por Glenny, mas, nesse campo, seu trabalho de pesquisa é insatisfatório. Contentou-se em colher opiniões de promotores, um juiz aposentado e delegados de polícia e nada conta de relevante.
Há relatos interessantes sobre “ratos” da internet brasileiros e seus asseclas internacionais. Eles roubam milhões de contas de bancos. O brasileiro Kau, especialista em testar segurança de computadores, diz que “o único computador seguro é o que está desligado”.
O intelectual errante
Antes de comprar alguns livros, leio trechos, ou eventualmente o prefácio. Não adquiri "Mínima Mímica — Ensaios Sobre Guimarães Rosa" (Companhia das Letras, 350 páginas), da ótima crítica literária Walnice Nogueira Galvão. Li, na livraria, o ensaio "Um intelectual a contracorrente: Duglas Teixeira Monteiro" (lutei contra meu computador para escrever Duglas, pois, teimoso, corrigia para Douglas).
Trata-se de um texto amoroso a respeito do brilhante sociólogo que escreveu com rara sensibilidade sobre a revolta de Contestado. Mas não apenas a respeito do intelectual. Walnice conta a história do homem, que, a partir de certo momento, passou a usar botinas e ir para o trabalho de bicicleta.
Pesquisador infatigável, Duglas levantava-se de madrugada para assistir cultos evangélicos, pois não se interessava apenas pela teoria — queria ver de perto como se davam os cultos, como as pessoas os praticavam.
O ensaio, sensível e inteligente, vale o livro. Ressalve-se que o livro é sobre Guimarães Rosa.

Jane Austen
A Editora Landmark publica nova tradução de "Orgulho e Preconceito" (400 páginas), da escritora inglesa Jane Austen, com tradução de Marcella Furtado. A edição é bilíngüe, o que é excelente, pois permite que o leitor possa verificar a qualidade da versão e da prosa da autora inglesa.
A tradução de Lúcio Cardoso, publicada pela Ediouro, não é ruim. Mas precisa de uma revisão caprichada, pois há dezenas de erros.
Mundo globalizado
José Luís Fiori é um dos poucos intelectuais brasileiros que tentam escrever livros abrangentes sobre a economia política mundial. Um bom aperitivo é "O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações" (Editora Boitempo).
Biografia do Padre Cícero
Autor de excelentes biografias do marechal Humberto de Alencar Castello Branco, do escritor José Alencar e da cantora Maysa, o jornalista Lira Neto está escrevendo a biografia do Padre Cícero.
O livro terá 550 páginas, com muitas fotografias de época e fac-símiles. Lira Neto conta que teve "acesso a uma ótima documentação".
O livro "O Jovem Stálin" (Companhia das Letras), de Simon Sebag Montefiore, conta que, além de assaltante de bancos — para financiar a luta de Lênin —, o bolchevique era cantor e, durante certo período, esteve encantado pelo esperanto. No poder, baniu o esperando e prendeu quem o estudava.
"Não somos ladrões para sermos algemados", disse Stálin para um policial, antes de chegar ao poder. Ele preferia a companhia de bandidos à de revolucionários, que acha empolados, e levou alguns criminosos para o centro do poder.
O jornalista Allan Kardec envia endereço no qual se pode ler "o livro que, supostamente, foi recusado por todas as editoras: http://www.escandalodomensalao.com.br/.
Leio, com raro prazer, uma das dessas maravilhas que encontramos nos sebos: "Antologia da Poesia Francesa — Do Século IX ao Século XX" (Editora Record, 462 páginas). As traduções são do especialista Cláudio Veiga, que tem o nome destacado na capa, tal a qualidade de seu trabalho, no qual une competência e sensibilidade.
Alguns dos poetas traduzidos: François Villon ("Balada dos Enforcados"), Louise Labé ("Foi predito"), Racine ("Pranto de um cristão"), André Chénier ("A Poesia"), Lamartine ("O Livro da Existência" Victor Hugo ("Mors"), Gérard de Nerval ("Artêmis"), Alfred de Musset ("Tristeza"), Baudelaire ("Spleen"), Mallarmé ("Brisa Marinha"), Verlaine ("Arte poética"), Rimbaud ("Aurora"), Jules Laforgue ("Pôr-de-sol de inverno"), Paulo Valéry ("Cemitério marinho"), Apollinaire ("A linda ruiva"), Saint-John Perse ("Neves III"), Henri Michaux ("Sai da parede uma cabeça"), René Char ("À saúde da serpente"), Yves Bonnefoy ("Envelhecemos...").

Nas resenhas do livro "Stasilândia — Como Funcionava a Polícia Secreta Alemã" (Companhia das Letras, 375 páginas), de Anna Funder, não vi nenhuma referência ao livro "O Homem Sem Rosto — Autobiografia do Maior Mestre de Espionagem do Comunismo" (Editora Record, 430 páginas), de Markus Wolf com Anne Anne McElvoy.
Não entendo os motivos da omissão, pois Markus Wolf, além de criar ou recriar a espionagem da Alemanha Oriental, é um dos forjadores do eficiente sistema secreto da Cuba de Fidel Castro. Um dos segredos da eficiência do serviço secreto cubano é a tecnologia e a disciplina alemãs.
O livro de Wolf, apesar de sua vaidade extremada, talvez daí seu sucesso como espião, é um retrato impagável da espionagem stalinista. Como se sabe, os modestos e os não-vaidosos costumam ser ineficazes, pois não têm pretensões.
Leio no site www.boxergs.com.br a lista dos maiores boxeadores do século 20. Robert Cassidy elaborou a lista a partir da opinião de quatro grandes treinadores.
Gil Glancy diz que o maior boxeador do século foi Willie Pep (nada sei a respeito). Angelo Dundee prefere Muhammad Ali. Lou Duva fica com Sugar Ray Robinson. Emanuel Steward repete Dundee.
Cassidy lista também a principal luta em que os quatro trabalharam. Clancy diz que a luta do século ocorreu entre Joe Frazier e Muhammad Ali. "Foi o evento esportivo do século", afirma.
Dundee escolhe a batalha do Zaire, entre Muhammad Ali e George Foreman.
Duva escolhe a peleja entre Evander Holyfield e Buster Douglas. O primeiro carrasco de Mike Tyson, o sujeito que provou que era possível vencer a fera, foi derrotado por nocaute por Holyfield.
Steward cita a luta entre Hilmer Kenty e Ernesto Espana. Ele cita também as guerras entre Thomas Hearns e Marvin Hagler. Escrevi guerras, porque foram verdadeiras batalhas. Hearns e Marvelous são autênticos samurais dos tempos modernos.
O poeta Carlos Willian Leite, editor do Opção Cultural, está lendo "Carlos Gracie — O Criador de uma Dinastia" (Editora Record, 560 páginas), de Reila Gracie.
Se tivesse certeza de que viveria pelo menos 101 anos, e lúcido, arranjaria dois ou três dias e leria o livro sobre o grande Carlos Gracie.
Como não tenho certeza que chegarei aos 60 anos, dou apenas uma nota sobre o livro que conta a história do pai "jiu-jítsu brasileiro" (para ser franco, nem sei o que isto quer dizer). "O Criador de uma Dinastia" é do tipo de livro que não li, não lerei, mas gostei.















