Memórias russas de amor, arte e sangue
Há dois senões editoriais. Stálin, mais uma vez, é grafado sem acento, porque, como o livro foi vertido do inglês, o tradutor (ou a editora) age como mujique, alienadamente. O mesmo ocorre com o nome do poeta Púchkin, que, além de perder o acento, ganhou a grafia típica da língua inglesa, “Pushkin”

O jornalista inglês Owen Matthews é jovem e, em termos de memórias, jovens têm pouco o que contar, exceto no caso de Keats, Büchner, Rimbaud e Radiguet. Owen tem pouco a ver com os quatro, autores que morreram jovens mas nasceram velhos.
Entretanto, surpreendentemente e talvez nem tanto, Owen tem o que contar, e conta, com fervor, dosando emoção e razão no mesmo copo de vida. Seu “A Herança de Stálin — Três Gerações de Amor e Guerra” (Globo, 366 páginas, tradução de Max Altman) é um magnífico livro sobre a vida.
Se contasse apenas sua história, ainda curta, Owen teria escrito um livro talvez bom, mas não tanto. Como sabe que a história de um indivíduo é só dele, mas depende do cadinho de outras vidas, Owen relata a história do avô Boris Bibikov e dos pais, a soviética Lyudmila (Mila) Bibikova e o inglês Mervyn Matthews. Bibikov foi assassinado pela polícia de Stálin, em 1937. Acusação: traição. Qual traição? Nenhuma. Era comunista, dos mais fiéis.
Lê-se “A Herança de Stálin” como se fosse um romance, de certa forma é. Ressalva: o “sangue” revela que, por mais inacreditável que seja, a um passo da ficção, a União Soviética foi, ao lado da Alemanha de Adolf Hitler e da China de Mao Tsé-tung, o pior pesadelo do século 20.
Há dois senões editoriais. Stálin, mais uma vez, é grafado sem acento, porque, como o livro foi vertido do inglês, o tradutor (ou a editora) age como mujique, alienadamente. O mesmo ocorre com o nome do poeta Púchkin (o Carlos Drummond de Andrade dos russos), que, além de perder o acento, ganhou a grafia típica da língua inglesa, “Pushkin”.
Recomenda-se que o leitor do livro de Owen, da equipe da “Newsweek” na Rússia, leia também o magnífico e doloroso romance “Casa de Encontros” (Companhia das Letras, 238 páginas, tradução de Rubens Figueiredo), de Martin Amis.
Se tiver um pouco de paciência, e quem sabe tempo, deve-se ler “Gulag — Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos” (Ediouro, 749 páginas, tradução de Mário Vilela e Ibraíma Dafonte), de Anne Applebaum, que ganhou o Prêmio Pulitzer de 2004. É, sem tirar nem pôr, o melhor livro, “o” livro, sobre o Gulag. Os que falam tão-somente do sofrimento dos judeus, do Holocausto, têm o dever de ler sobre o Holocausto soviético descrito pela competente e rigorosa Applebaum.
Por falar em judeus, Stálin matou milhares de judeus. Como Hitler, Stálin tinha uma implicância especial com os judeus. Era uma de suas paranóias.





