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POR EM 22/05/2009 ÀS 03:25 PM

Memórias russas de amor, arte e sangue

publicado em

Há dois se­nões edi­to­ri­ais. Stá­lin, mais uma vez, é gra­fa­do sem acen­to, por­que, co­mo o li­vro foi ver­ti­do do in­glês, o tra­du­tor (ou a edi­to­ra) age co­mo mu­ji­que, alie­na­da­men­te. O mes­mo ocor­re com o no­me do po­e­ta Púchkin, que, além de per­der o acen­to, ga­nhou a gra­fia tí­pi­ca da lín­gua in­gle­sa, “Pushkin”

O jor­na­lis­ta in­glês Owen Mat­thews é jo­vem e, em ter­mos de me­mó­ri­as, jo­vens têm pou­co o que con­tar, ex­ce­to no ca­so de Ke­ats, Büchner, Rim­baud e Ra­di­guet. Owen tem pou­co a ver com os qua­tro, au­to­res que mor­re­ram jo­vens mas nas­ce­ram ve­lhos.

En­tre­tan­to, sur­pre­en­den­te­men­te e tal­vez nem tan­to, Owen tem o que con­tar, e con­ta, com fer­vor, do­san­do emo­ção e ra­zão no mes­mo co­po de vi­da. Seu “A He­ran­ça de Stá­lin — Três Ge­ra­ções de Amor e Guer­ra” (Glo­bo, 366 pá­gi­nas, tra­du­ção de Max Altman) é um mag­ní­fi­co li­vro so­bre a vi­da.

Se con­tas­se ape­nas sua his­tó­ria, ain­da cur­ta, Owen te­ria es­cri­to um li­vro tal­vez bom, mas não tan­to. Co­mo sa­be que a his­tó­ria de um in­di­ví­duo é só de­le, mas de­pen­de do ca­di­nho de ou­tras vi­das, Owen re­la­ta a his­tó­ria do avô Bo­ris Bi­bikov e dos pa­is, a so­vi­é­ti­ca Lyud­mi­la (Mi­la) Bi­biko­va e o in­glês Mervyn Mat­thews. Bi­bikov foi as­sas­si­na­do pe­la po­lí­cia de Stá­lin, em 1937. Acu­sa­ção: trai­ção. Qual trai­ção? Ne­nhu­ma. Era co­mu­nis­ta, dos mais fi­éis.

Lê-se “A He­ran­ça de Stá­lin” co­mo se fos­se um ro­man­ce, de cer­ta for­ma é. Res­sal­va: o “san­gue” re­ve­la que, por mais ina­cre­di­tá­vel que se­ja, a um pas­so da fic­ção, a Uni­ão So­vi­é­ti­ca foi, ao la­do da Ale­ma­nha de Adolf Hit­ler e da Chi­na de Mao Tsé-tung, o pi­or pe­sa­de­lo do sé­cu­lo 20.

Há dois se­nões edi­to­ri­ais. Stá­lin, mais uma vez, é gra­fa­do sem acen­to, por­que, co­mo o li­vro foi ver­ti­do do in­glês, o tra­du­tor (ou a edi­to­ra) age co­mo mu­ji­que, alie­na­da­men­te. O mes­mo ocor­re com o no­me do po­e­ta Púchkin (o Car­los Drum­mond de An­dra­de dos rus­sos), que, além de per­der o acen­to, ga­nhou a gra­fia tí­pi­ca da lín­gua in­gle­sa, “Pushkin”.

Re­co­men­da-se que o lei­tor do li­vro de Owen, da equi­pe da “Newswe­ek” na Rús­sia, leia tam­bém o mag­ní­fi­co e do­lo­ro­so ro­man­ce “Ca­sa de En­con­tros” (Com­pa­nhia das Le­tras, 238 pá­gi­nas, tra­du­ção de Ru­bens Fi­guei­re­do), de Mar­tin Amis.

Se ti­ver um pou­co de pa­ci­ên­cia, e quem sa­be tem­po, de­ve-se ler “Gu­lag — Uma His­tó­ria dos Cam­pos de Pri­si­o­nei­ros So­vi­é­ti­cos” (Edio­u­ro, 749 pá­gi­nas, tra­du­ção de Má­rio Vi­le­la e Ibraí­ma Da­fon­te), de An­ne Ap­ple­baum, que ga­nhou o Prê­mio Pu­lit­zer de 2004. É, sem ti­rar nem pôr, o me­lhor li­vro, “o” li­vro, so­bre o Gu­lag. Os que fa­lam tão-so­men­te do so­fri­men­to dos ju­deus, do Ho­lo­caus­to, têm o de­ver de ler so­bre o Ho­lo­caus­to so­vi­é­ti­co des­cri­to pe­la com­pe­ten­te e ri­go­ro­sa Ap­ple­baum.

Por fa­lar em ju­deus, Stá­lin ma­tou mi­lha­res de ju­deus. Co­mo Hit­ler, Stá­lin ti­nha uma im­pli­cân­cia es­pe­ci­al com os ju­deus. Era uma de su­as pa­ra­nói­as.
 

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