POR EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 08/12/2008 ÀS 06:13 PM
Memórias da poeta russa Marina Tsvetáieva
publicado em livros
A Editora Martins Fontes é responsável por um lançamento espetacular: Vivendo Sob o Fogo (763 páginas), da escritora russa Marina Tsvetáieva, que, sob pressão do stalinismo, matou-se, aos 49 anos, em 1941.
Na verdade, Marina não escreveu nenhuma obra com o título de Vivendo Sob o Fogo. O livro, muito bem organizado pelo crítico Tzvetan Todorov, com tradução precisa e amorosa de Aurora Fornoni Bernardini, contém cartas e páginas dos diários da poeta. Há textos profundamente dramáticos, mas percebe-se a escritora atenta mesmo nos lamentos bem mais pessoais.
O livro não pôde ser trabalhado por Marina, pois morreu no auge do stalinismo, mas, o que poderia parecer defeito, acaba sendo virtude, pois temos a autora em carne viva falando de si, de familiares e da vida sob a ditadura comunista. “Não será exagero ver neste livro sua obra mais acabada”, escreve, no excelente prefácio, Todorov.
Como tenho dúvidas sobre o que disse Todorov, que me parece excessivamente empolgado com o material que organizou, sugiro aos leitores que consultem duas versões da poesia de Marina, feitas a partir do russo por tradutores competentes: Indícios Flutuante — Poemas (Editora Martins Fontes. 208 páginas, R$ 38,30), com tradução de Aurora Fornoni Bernardini, e Marina (Travessa dos Editores, 151 páginas, R$ 28), com tradução de Décio Pignatari.
Um poema, duas traduções
A seguir, transcrevo o poema "À Vida", de Marina Tsvietáieva, com duas traduções, uma de Haroldo de Campos e a outra de Augusto de Campos. Os poemas foram extraídos do livro Poesia Russa Moderna e as duas traduções indicam como um poema pode ser recebido noutra línguas de várias formas.
À VIDA
MARINA TSVIETÁIEVA
Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.
Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cabelo
Árabe — E abre a veia da vida.
[Poema de 1924, tradução de Haroldo de Campos]
À VIDA
MARINA TSVIETÁIEVA
Não colherás no meu rosto sem ruga
A cor, violenta correnteza.
És caçadora — eu não sou presa.
És a perseguição — eu sou a fuga.
Não colherás viva minha alma!
Acossado, em pleno tropel,
Arqueia o pescoço e rasga
A veia com os dentes — o corcel.
Árabe.
[Tradução de Augusto de Campos]
Boxe, a sétima arte
O diplomata Guillermo Rivera, ex-repórter do Jornal Opção, ao voltar de Rabat, capital do Marrocos, traduziu, no avião, um texto da revista "The Economist" sobre boxe. Discordo do texto ao apresentar Muhammad Ali como um homem do poder, pois o boxeador é muito mais do que isto tanto para o boxe quanto para a história dos Estados Unidos. Por certo esqueceram que foi preso por se recusar a lutar no Vietnã.
BOXE
Uma história cultural
Pugilistas e estetas não estão, necessariamente, em cantos opostos. Em uma história do esporte que remonta a Homero, Virgílio e outros fãs antigos de lutas, Kasia Boddy, uma palestrante de Inglês no University College de Londres, examina a estranha atração que o boxe exerce sobre os intelectuais. Ela nos fornece uma leitura prazerosa ao mesmo tempo em que explora como os lutadores profissionais estimulam a imaginação de escritores, artistas e intelectuais.
Alguns dos seguidores mais pretensiosos do esporte são intelectuais franceses. François Mauriac descreveu Georges Carpentier, um campeão mundial da categoria meio-pesado, como sendo "um desses Apollos graciosos, levemente arranhados pela picareta durante o processo de sua exumação", e "o tipo de homem honesto a quem Pascal quereria bem". Jean Cocteau era empresário de um boxeador profissional e, para ele, compôs rapsódias sobre sua "poesia ativa" e sua "sintaxe misteriosa". Jean Genet escreveu poemas para um "boxeador-gatuno" e uma "rosa musculosa".
Os equivalentes norte-americanos desses intelectuais são mais assertivos. Vários deles subiram aos ringues para tentar lutar, mesmo que fosse apenas para participar como sparrings. Rodolfo Valentino foi uma exceção que tentou uma luta verdadeira. O ídolo das matinês dos anos 20 ficou tão enfurecido de ter sido chamado de "esponja de pó-de-arroz" por um jornal de Chicago que desafiou o repórter a enfrentá-lo no ringue. Norman Mailer via o boxe como metáfora para suas ambições de se tornar o campeão da escrita mundial. T.S. Eliot teve aulas de boxe dadas por um ex-pugilista em um ginásio mais ou menos barra-pesada na Zona Sul de Boston. Wyndham Lewis surpreendeu-se quando entrou no estúdio parisiense de Ezra Pound e encontrou o poeta norte-americano usando luvas de boxe e treinando com um jovem esplendidamente em forma, que viria a ser Ernest Hemingway. Os celebrados estudos de Thomas Eakins incluem uma fotografia de jovens de punhos nus lutando em uma floresta que, para Boddy, evocava tanto o classicismo pastoril e o quadro "Déjeuner sur l´herbe", de Manet.
Alguns poucos boxeadores se confraternizavam com a intelligentsia. Gene Tunney contava com George Bernard Shaw, Sherwood Anderson e Thornton Wilder entre seus amigos e agregava às suas conversas palavras como "ineficaz" e "mudanças cosméticas". Muhammad Ali, de maneira mais típica, aceitava a admiração de seus fãs cultos com uma afeição embasbacada. Ele até posou para George Lois como capa da revista Esquire, em pose de São Sebastião, de Boticelli, até que se deu conta, repentinamente, de onde provinha o assunto. "Ei George", ele gritou, "esse cara é cristão!". A sessão de fotos teve de ser interrompida até que Ali tivesse consultado seu líder espiritual muçulmano para saber se as poses seriam apropriadas.
De maneira mais séria, Boddy explora as tensões étnicas no esporte, especialmente entre brancos e negros nos EUA. O racismo já foi escancarado. Quando Jack Johnson, o primeiro negro campeão mundial dos pesos pesados, entrou no ringue em Reno em 1910 para derrotar a mais recente "Esperança Branca", a banda tocou "All Coons Look Alike to Me" ("Todos os Crioulos Parecem Ser Iguais para Mim"). Menos de três décadas depois, as coisas haviam mudado de maneira evidente. Joe Louis, o "Bombardeador Marrom", contou com o apoio fanático de norte-americanos de todas as cores quando defendeu o mesmo título contra o alemão Max Schmeling, em uma luta rotulada como sendo uma competição entre a democracia e o nazismo.
O sucessor deles, Muhammad Ali, um radical que se tornou patriota, tornou-se por completo uma figura do establishment. Ele fez campanha para Ronald Reagan, na eleição presidencial de 1980, e em 1990 voou ao Iraque para tentar assegurar a libertação de reféns norte-americanos aprisionados por Saddam Hussein. O atual presidente George Bush tem sido um apreciador especial dos esforços do ex-campeão para persuadir muçulmanos dos EUA a apoiarem as guerras no Iraque e no Afeganistão e, em 2005, o condecorou com a Medalha Presidencial. Esse cara é, agora, um pilar da sociedade.






