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POR EM 30/03/2009 ÀS 04:36 PM

Mais que apenas um jogo

publicado em

Todo sábado pela manhã a direção do presídio permitia, burocraticamente, que os presos reclamassem e fizessem suas reivindicações. Eles podiam reclamar da comida, do frio das celas, dos abusos dos guardas... A direção anotava e ficava por isto mesmo. Um dia, começaram a pedir pra jogar futebol. Depois de muita insistência, conseguiram o sábado à tarde para jogar

Um dos chavões sobre a esquerda brasileira é que ela não era unida nem na prisão. Bem, parece que isto não é só um defeito de brasileiros. Na Robben Island, ilha símbolo do regime racista sul-africano conhecido como apartheid, os presos políticos de diversas facções também não se bicavam, nem na hora do futebol. Futebol na Robben Island? Por acaso presos políticos negros de cabelos pixaim podiam jogar bola, sem serem incomodados pelos guardas “brancos de olhos azuis”?

E não é que podia? Claro que não foi fácil, os presos tiveram que reclamar muito para conseguir este direito e contaram com a ajuda fundamental da Cruz Vermelha Internacional. Esta história é contada por Chuck Korr e Marvin Close em “More Than Just a Game: Soccer v Apartheid” (editora Collins, 2008), que traduzo livremente para: “Mais Que Apenas um Jogo: Futebol X Apartheid” e pode vir a ser um best-seller em 2010, quando a Copa do Mundo será jogada naquele país que foi banido do futebol pela FIFA em 1964, e assim permaneceu por quase 30 anos, quando a democracia finalmente nasceu na África do Sul.

C. Korr e M. Close concentram-se principalmente na história de quatro homens presos na ilha por lutar contra o regime, dentro de suas diferentes facções: Lizo Sitoto (lado armado do ANC, Congresso Nacional Africano) Marcus Solomon (Yan Chi Chan Club de orientação chinesa, também ligado ao ANC), Tony Suze (PAC, Congresso Pan Africano) , Sedick Isaacs (Movimento da Juventude Muçulmana). Por causa de suas atividades, Isaacs, por exemplo, era químico e fazia bombas, todos foram presos e enviados a ilha, que fica próxima à Cidade do Cabo, quase que concomitantemente com seu preso mais famoso, Nelson Mandela, que foi para lá em 1964.

Na ilha os novos detentos notaram que a vida seria difícil com privações de conforto mínimo, castigos imerecidos, trabalhos forçados sem sentidos de carregar pedra de um lado para outro, comida péssima, entre outros abusos. Alguns deles então, perceberam que se não tivessem qualquer distração sairiam de lá completamente amalucados.

Começaram por educar outros presos analfabetos, mas estas aulas eram mal vistas pela diretoria da prisão já que tinham alto teor ideológico e por vezes terminavam em incríveis discussões entre os próprios presos das diferentes facções contra o regime. Mas como começar a solicitar futebol ou outra distração?

Os brancos sul-africanos da época eram divididos em dois grupos principais, que inclusive, já haviam guerreado no início do século XX na chamada Guerra Anglo-Boer: de um lado os de origem inglesa e de outro os “africâners” descendentes de holandeses que se achavam os legítimos africanos, e que possuíam um ferrenho sentimento patriótico. De qualquer forma, ambos os grupos se achavam superiores e devido a ascendência, eram tremendamente organizados e burocratizados.

Assim, todo sábado pela manhã a direção do presídio permitia, burocraticamente, que os presos reclamassem e fizessem suas reivindicações. Eles podiam reclamar da comida, do frio das celas, dos abusos dos guardas, etc... A direção anotava e ficava por isto mesmo. Um dia, começaram a pedir pra jogar futebol. Depois de muita insistência, não vou contar todos os detalhes, conseguiram o sábado à tarde para jogar.

Os presos, também inacreditavelmente burocráticos, criaram uma Liga com estatuto, uma associação de juízes de futebol, um conselho para deliberar punições aos jogadores e, claro, os oito times que refletiam as tendências políticas da Robben Island. Apenas um time tinha em seu estatuto a clara norma de aceitar qualquer jogador independente de facção política: o Manong que foi campeão várias vezes.

Existiam três divisões dadas as qualidades dos jogadores (A, B, e C). E era normal o campeonato ser interrompido por causa de disputas jurídicas e apelações ao tribunal feitas por clubes que se achavam prejudicados. Isto é, os presos deixavam de jogar futebol e se distrair, para discutir os problemas “legais” das partidas. Isto é que é levar a lei e a organização, à sério.

Eu acho exagerado e coisa de gente chata, mas Korr e Close afirmam que, no fundo, eles estavam “praticando para a futura África do Sul democrática, que eles todos sonhavam apaixonadamente”. Bem, mais ou menos, porque se no processo de abertura, não fosse o Mandela a coisa iria desandar para uma vingança atroz que levaria o país a bancarrota (mas isto é outra história).

Segundo os autores, que entrevistaram apenas recentemente os principais personagens destes episódios, ainda hoje alguns deles ficam nervosos ao discutir resultados de sentenças dados pelo tribunal da Liga de Futebol da Robben Island, bem como das decisões dos conselhos. Mais ou menos como a gente quando assiste a reprise do Brasil e Itália na Copa do Mundo de 1982.

O futebol foi ainda o precursor de outros esportes para os presos na ilha, como o rugby e o basquete e à despeito das rusgas que ainda permanecem em alguns, o esporte bretão foi um alento de união para homens presos que queriam apenas a liberdade de ir e vir.

Até onde sei, o livro ainda não tem versão em português.
 

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